Os ossos (gelados) do ofício

Mamulengos, marionetes, fantoches, bonecos das mais variadas formas, cores e tamanhos, manipulados com criatividade e talento pelos maiores mestres bonequeiros do mundo, foram reunidos em apresentações geniais no Festival Internacional de Bonecos, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, no ano passado. Lá estávamos nós para a audiodescrição durante todo o final de semana. Provavelmente o fim de semana mais frio da última década, com uma garoa fina e um vento forte e gelado que não deram trégua. Por causa disso, claro, o público era bem menor do que o esperado. Mas tudo bem. Nosso público, embora pequeno, estava lá, com destaque para o pessoal do Amigos pra Valer, animadíssimo, cantando e batendo palmas, com capas de chuva longas e transparentes.

Cheguei e a equipe, rindo, mostrou onde faríamos a audiodescrição: atrás de dezenas de cadeiras plásticas, espalhadas em frente a quatro palcos com dois telões laterais – até aí, maravilha -, mas estaríamos instalados em uma cabine dentro de uma grande caixa retangular comprida e metálica, toda aberta na frente, a três metros do chão. “E como a gente vai subir?”, perguntei, distraída. Olhei na direção que um dedo indicador apontava e arregalei os olhos ao ver a fina e estreita escadinha metálica encostada na borda, esperando por nós. Ah, meu pai. As subidas até que foram tranquilas. As descidas foram um espetáculo à parte… Durante todo o final de semana foi a mesma coisa: sentávamos na borda da caixa, toda molhada pela chuva, aí ficávamos de quatro (!!!) e de costas para descer o raio da escadinha com um mínimo de segurança; traseiros molhados, virados para o povo, íamos descendo atracados à escada, beeem devagar, o coitado do técnico de áudio lá embaixo todas as vezes, segurando a escadinha, enquanto os outros integrantes da equipe, rindo, iam dando as coordenadas: Veeeeeem, isso! Joga a bolsa! Cuidado, assim não! Segura firme! Vai, agora põe o pé! (Fora que a caixa tremia e balançava o tempo todo com o vento, dá pra imaginar?) Essas operações aconteciam no intervalo entre uma apresentação e outra, durante a troca dos audiodescritores, por isso o público que circulava por ali também parava para olhar e, algumas vezes, para participar: “Aí, tiaaaaá!!!” ou, o mais comum: “Nossa!”… Eu olhava aquilo e pensava que nós é que éramos os verdadeiros bonecos do festival, nem eles eram tão duros. Tomara que não tenha ido parar no You Tube!

No vão livre embaixo da caixa estavam instalados todos os equipamentos de luz e áudio do festival, com os jovens operadores que, no domingo, de tão acostumados com nossas descidas patéticas, já nos olhavam com cara de paisagem e não mais incrédulos ou com pena, como no início. Justamente eles, que só usavam a escadinha para subir e quase sem usar as mãos! Bom, fizemos audiodescrição até quando não havia mais pessoas com deficiência visual no festival, só pelo treino mesmo. E aconteceu o que parecia impossível: esfriou ainda mais. No domingo à noite, os termômetros da avenida República do Líbano marcavam oito graus, com sensação térmica de quatro, de tanto vento. Depois do dia inteiro ao ar livre, eu já nem conseguia respirar direito, mas compreendi perfeitamente o significado da expressão “frio nos ossos”. A gente ri até hoje de tudo isso. (Bom, acho que riem da gente até hoje também…)

@OutrosOlharesAD

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