Locução e audiodescrição

De vez em quando, ministro palestras sobre locução em audiodescrição. Falo sobre dois assuntos muito pouco conhecidos pela maioria das pessoas e que têm, além deste, outro ponto em comum: parecem fáceis, coisas que “qualquer um faz”. A locução, porque a gente já nasce falando mesmo e ter uma bonita voz e a cabeça meio oca compõem o estereótipo da profissão. A audiodescrição, ah, é só aprender as regrinhas e contar o que está passando! E a AD ainda tem o agravante de ser uma atividade relativamente nova, não regulamentada e, assim como a locução, não exigir curso superior. Então, qualquer um pode ser locutor e audiodescritor? Em tese, sim, mas o próprio mercado, com o tempo, vai filtrando e selecionando os bons profissionais.

Bom, como já postei lá atrás uma rápida explicação sobre audiodescrição, aqui vai uma, bem básica mesmo, sobre locução. O mercado brasileiro sempre foi predominantemente masculino, com vozeirões maravilhosos e impactantes que vieram do rádio, alguns na ativa até hoje, há quase cinquenta anos. Embora haja, cada vez mais, muitas vozes femininas, muita gente no mercado ainda acha que a voz masculina tem mais credibilidade. O que está totalmente ultrapassada é a locução empostada e artificial: uma locução natural e espontânea e vozes comuns, mas agradáveis, são valorizadas e estão nas rádios e TVs há anos, assim como o vozeirão, ou a voz-padrão, que já não é a única mas ainda tem espaço garantido quando se trata de atingir um público mais elitizado e maduro: é a voz grave e marcante, imbatível em classe e credibilidade. A melhor voz para veiculação nacional não tem sotaque (não pode chamar mais atenção do que o produto); a rouquidão também “polui” a voz, embora possa ser considerada sensual. O que muita gente não sabe é que não basta apenas ter uma boa voz, é preciso ter uma boa… locução! O ritmo, a proporção, as pausas, a ênfase, a emoção, o sorriso, enfim, a interpretação adequada a cada texto: notícia, publicidade, poesias, campanha política. A locução em rádio, sem imagem, é diferente da feita para o cinema e para a TV, ou, no caso dos atores, para o teatro, onde é preciso atingir o espectador da última fila. Se uma bela voz causa mais impacto, a voz comum, pequena, mas com uma grande interpretação, dá um show! Uma boa locução tem peso, segurança, personalidade, estilo próprio e é resultado de talento, técnica, anos de experiência e dedicação – como qualquer profissão. A diferença é que o mercado para locutores é muito restrito, contam-se nos dedos os bons estúdios e as boas emissoras de rádio e televisão, além de não haver campo fora de São Paulo.

Ainda tem mais: conheci, em 2010, dois locutores medianos, mas com potencial para se tornarem bons em pouco tempo: Phillip e Monica. Ouvi um pequeno trecho de audiolivros técnicos que eles gravaram e, sinceramente, não dei muita importância: já estava pensando em outra coisa quando arregalei os olhos ao saber que eram… vozes eletrônicas!!! A evolução foi enorme! Até então, eram robotizadas, facilmente identificáveis. Claro que não substituem a voz humana, mas já dão conta de alguns trabalhos de locução como, por exemplo, o atendimento eletrônico via telefone aos clientes dos bancos…

Na  audiodescrição, a locução segue os mesmos princípios, também deve estar em harmonia com o produto audiodescrito, estar integrada a ele; não se sobrepõe nem se apaga, mas marca presença. Os locutores profissionais (e também atores e dubladores) imprimem o tom adequado a cada gênero de produto audiovisual: da comédia, drama, ação ou romance ao texto jornalístico ou ao documentário. Acredito que uma boa dica para este trabalho seja a leitura em voz alta do texto depois de pronto. É o momento de avaliar se não é melhor substituir palavras, diminuir ou aumentar uma frase; é a edição em nome da sonoridade, do texto redondinho, gostoso de escutar. Outra: a prática da locução no dia-a-dia da audiodescrição tem nos mostrado, também, que o trabalho ganha muito em qualidade quando o locutor também é o audiodescritor roteirista ou, pelo menos, quando está envolvido na elaboração do roteiro desde o início. O ideal é que, no mínimo, faça um bom curso de audiodescrição: conhecer e gostar do recurso dão alma ao resultado, nesta ou em qualquer outra profissão.

Para encerrar, digo que, com quase vinte anos de profissão, ainda estou aprendendo. Tenho como referência alguns dos grandes locutores que dominam, há décadas, o mercado publicitário televisivo brasileiro, o trabalho mais bem pago dentro da profissão (em pelo menos um caso, o cachê ultrapassa, fácil, os dez mil reais por cada comercial de trinta segundos). Mas também concordo que, assim como a audiodescrição, o trabalho de locução muitas vezes é fácil, sim: fácil pra quem sabe. E, outras vezes, nem pra quem sabe.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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6 Respostas para “Locução e audiodescrição

  1. Lívia, muito obrigada! O (pouco) que sei sobre audiodescrição devo a você e faço minhas as palavras da Mimi Aragón, audiodescritora que postou um comentário aqui: serei sempre sua aluna. Um beijo!

  2. Olá, José Maria! Não sei em que cidade você está mas, aqui em São Paulo, que eu saiba, tem a Fundação Dorina Nowill para Cegos, que trabalha com locutores contratados e voluntários e o Centro Cultural São Paulo, que grava apenas com voluntários. No Rio de Janeiro, conheço a Audioteca Sal e Luz, também com trabalho voluntário na gravação de livros para pessoas com deficiência visual. Deve haver outras instituições pelo país e, aí, só pesquisando na internet. Para ser um audiodescritor narrador, é preciso fazer um curso de audiodescrição e a melhor fonte de informações sobre o tema é o Blog da Audiodescrição. Obrigada pela visita, boa sorte e um grande abraço!

  3. Olá! Sou Locutor de rádio há 10 anos e adorei seu blog pela transparência e riqueza dos detalhes desta que é mais que uma profissão: paixão! Parabéns pelo post.

  4. Lúcia,

    estou completamente embasbacada com seu texto! Que maneira fantástica de escrever! Pouca gente tem verdadeiramente o dom da escrita, do se fazer tão claro e direto como você. Parabéns! Sou audiodescritora/narradora do Tramad. Tenho pesquisado e estudado a AD desde 2008, quando fiz curso com Eliana Franco (não sei se você a conheceu pessoalmente) aqui em Salvador, minha cidade. Estava procurando material sobre narração em AD quando me deparei com seu blog, o que foi muito esclarecedor e enriquecedor. Tenho tantas perguntas a te fazer… mas por ora gostaria de saber por que você faz uso do termo locução em vez de narração. Espero que seu blog continue ativo, pois foi das melhores coisas que vi na net nos últimos tempos. Esperarei ansiosa por seu contato. Bjs.

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