Aula

"Lucia, mas o que é que o cego quer com cinema???" "O mesmo que você", respondo. "Se divertir, relaxar." "Ué, mas eu enxergo e ele não." "Por isso que ele não vai, só vai quando tem audiodescrição!" Ou: "Mas… o que é isso mesmo que você faz… audiodescrição? É coisa pra cego, né?" "É", suspiro. "É coisa pra cego." E esta, então, que é de matar e muito mais comum do que se imagina: "Mas não é mais fácil como era, alguém contar pra ele o que está acontecendo em vez dessa trabalheira toda de roteiro e microfone"? Ah, Deus… Mas eu vou em frente. Aproveito as poucas oportunidades que aparecem para falar sobre AD no dia a dia e pareço professora de cursinho: pra não ficar chata, tento despertar o máximo de interesse em um mínimo de tempo, só falta cantar definições e conceitos com aquele chapéu cheio de pontas com sininhos.

Ontem, sábado e feriado, foi em um restaurante, durante uma comemoração em um daqueles mesões que reúnem família e amigos. Apontei o batente todo trabalhado de uma porta e, quando vi, já eram seis pessoas descrevendo (ou, pelo menos, tentando) e olhando para mim à espera de aprovação. Eu me divertia com aquilo enquanto lembrava da minha primeira aula com a Lívia Motta, quando ela mostrou uma fotografia de um par de botas cobertas por limo em cima de uma pedra e pediu a descrição. Quase ninguém viu as botas. E elas estavam lá, gigantes! O leitor pode achar um absurdo, mas é exatamente assim que acontece. Com a audiodescrição, a gente percebe que vê muito pouco de tudo e reaprende a olhar. Presta atenção de verdade e vai redescobrindo as coisas.

Ontem, no restaurante (e na semana passada, e em tantos outros dias), contei da pesquisa necessária para descrever com o máximo de precisão, por exemplo, interiores de igrejas, artefatos militares, afrescos do Michelângelo e murais do Diego Rivera que estão nos livros, tem imagem que leva mais de uma hora entre pesquisa e descrição, e aí surgiu uma velha e recorrente questão: "Mas por que detalhar para o cego uma coisa que nem quem enxerga tá vendo ou não sabe? Não é preciosismo, não? Dá pra simplificar, falar o básico". Vamos lá: o olhar comum é muito superficial, por isso é necessário o trabalho profissional de um audiodescritor, que estabelece o que é prioritário e relevante em cada imagem, mas descreve o máximo possível dela e o único critério que usa (ou pelo menos deveria usar) para um maior ou menor número de informações é o tempo ou o espaço que tem para cada descrição, e jamais elimina elementos que decide não serem importantes só "para simplificar" ou porque "nem quem enxerga tá vendo ou não sabe". Quanta pretensão acharmos que podemos decidir o que é que a pessoa com deficiência visual (ou qualquer outra) quer e precisa saber ou não sobre um assunto! E não podemos nivelar por baixo, a partir da nossa própria ignorância, não é?

Bom, tinha um quadro em uma das paredes do restaurante que eu já conhecia e um familiar descreveu: "Quadro de uma estátua de mulher seminua em um pedestal, é isso?" "É", respondi. E continuei: "Mas eu também tô vendo um quadro redondo, com uma fotografia em preto e branco de uma estátua de mármore de uma mulher de frente, ocupando quase toda a foto, com o rosto de perfil, cabelos longos, encaracolados e semipresos, braço esquerdo dobrado atrás da cabeça, braço direito sobre os seios nus. Usa uma saia longa e transparente e está com os pés descalços sobre um pedestal cilíndrico." "Ahhh, agora eu entendi", ele disse. E uma tia, toda orgulhosa porque estava mandando muito bem na brincadeira das descrições, viu uma pintura e perguntou: "Acho que é um soldado ali. Quando a gente não tem certeza, como faz?" "Pesquisa, amplia a imagem. Sem ter certeza, não diga", respondi. Esta regrinha ficou engraçada na mesma aula da Lívia, que pediu que descrevêssemos a foto de um alpinista, de longe, já na metade de uma das várias e altíssimas montanhas ao redor. Pensando na regra, muita gente escreveu "pessoa escalando montanha" e ela, rindo: "Gente, pelo amor de Deus! Na altura em que está, se não é alpinista, só pode ser… o Homem-Aranha"!!!

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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12 Respostas para “Aula

  1. Olá, que lindo e sensível seu blog. A audiodescrição realmente encanta, né? Por enquanto sou apenas fã do trabalho e respeito muito. Fiz pesquisas com pessoas com deficiência visual recentemente e sempre entrava em alguns caminhos da audiodescrição, um dia farei um curso para aprender melhor a técnica. Não sei se conheces nosso blog sobre audiodescrição em vídeo, fazemos um trabalho de iniciativa independente mesmo, para ajudar cada vez mais a divulgar esse recurso tão necessário.. O blog é o Vídeo Audiodescrito = > http://videoaudiodescrito.com/
    Parabéns por seu trabalho. Beijos

  2. Larissa, conheço o trabalho de vocês e gosto muito; gosto mesmo é de ver qualquer iniciativa séria que promova a audiodescrição. Fica aqui a dica para os leitores: fazer uma visita ao Vídeo Audiodescrito, tenho certeza de que vão adorar! Obrigada e um beijo!

  3. boa tarde, Lucia Maria. meu nome é Carlos Eduardo e vou engrossar o coro dos parabéns a este blog. o seu jeito de escrever, a crônica, faze com que os leitores se identifiquem e se aproximem desta questão. Você com tanto talento está retratando o humano e suas emoções, qualquer um se interessa, gosta e entende, e isso é importante para tirar os temas relativos à deficiência visual do círculo restrito a ela, sensibilizando quem está distante de um cego e só consegue vê-lo através de estereótipos. Eu era assim até nascer meu filho, há três anos. ele é cego e eu e minha esposa também éramos para a questão. Aprendemos e continuamos a aprender muito, nos identificamos e nos emocionamos com seus posts, é assim mesmo que acontece. Seu blog é excelente e diferente, porque é tão bem escrito. Este AULA faz a gente entender melhor a técnica para avaliar melhor também e cobrar qualidade sempre. grande abraço.

  4. Lúcia,

    Apaixonei-me pelo seu blog!

    Quero te pedir desculpas por, na linguagem dos blogueiros, estar “quibando” (copiando) seus artigos no meu blog. Mas sempre indicando a fonte, claro!

    Mas só faço isso com os artigos que gosto. Você escreve tão bem, é tão sensível e, ao mesmo tempo, tão didática sem precisar de nenhum chapéu de sininho!

    Parabéns a você, e para a Lívia que, com seu olhar de audiodescritora, encontra preciosidades como você!

  5. Obrigada, Carlos Eduardo, por esta participação. Espero que os posts também cheguem a pessoas fora do meio, que realmente conhecem muito pouco sobre a questão da deficiência visual e podem fazer uma grande diferença nesta luta. Um grande abraço pra vocês três!

  6. Paulo, você e a Lívia são referências em audiodescrição já há quase três anos para mim e há tempos no país. Fico absolutamente honrada de ter artigos no seu blog, fiquei muito, muito feliz com sua mensagem! Obrigada!

  7. Bom dia! Ai… se este blog tivesse um fundo claro eu me tornaria seguidora, mas com esse fundo escuro, não dá, força a vista!
    Obrigada.

  8. Terminei de ler todos os posts e achei in-crí-vel seu blog. Um dos títulos é O TEU OLHAR MELHORA O MEU, como na música. Pois te digo que é o teu olhar que está e que vai continuar melhorando o olhar de muita gente. Como não sou cego mas tenho um caso na família, consegui finalmente entender a audiodescrição. Obrigado de coração.

  9. Lucia, simples assim….uma delícia ler seus artigos. Legal mesmo é atingir “o Planeta”, parabéns!
    abraço cheinho de admiração
    Rô Barqueiro

  10. Obrigada, Rô, mesmo! E cheinha de admiração (e orgulho) fico eu, lisonjeada com o elogio de alguém com tanto comprometimento, e há tanto tempo, com a questão da deficiência visual. Eu também estava lá, vendo você ser homenageada nos 30 Anos do Ano Internacional da Pessoa Deficiente. Merecidíssimo.

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