O homem que queria ser cego

Isso faz mais de quinze anos. Eram sete e meia da manhã de um domingo quando todo mundo ouviu: "Meu Deus, acode aqui, não tô enxergando naaaaada"! Foi um susto e aquela correria. O avô havia ficado cego, de repente, e com as pernas paralisadas. Com quase setenta anos de idade, era um homem forte e saudável que, depois de viúvo, tinha ido morar com a filha, o genro e a única neta, grande amiga minha. Uma vez por semana, saía pra beber e jogar com os amigos, "um bando de vagabundos", segundo a filha.

No dia anterior, anunciou que tinha ido à falência, perdido todas as economias como corretor de imóveis na mesa de jogo. A gritaria e a confusão foram tamanhas que diziam que o nervoso que passou provocou a cegueira e a paralisia. Sim, porque depois de todos os exames, de uma investigação minuciosa, nenhum médico descobriu a causa. "Só pode ser psicológico", sentenciou o último bam-bam-bam consultado. "Este homem quis ficar cego e deixar de andar. O que será que ele não quer mais ver nem encontrar pela frente?", perguntou a psicóloga. "Que desgraceira, cego e paralítico por culpa nossa", a filha choramingava. A família, católica, começou a maratona por terreiros de umbanda, centros espíritas e cartomantes atrás de uma cura ou, pelo menos, de uma explicação. "Castigo de Deus por tanta bebida e tanto jogo", dizia um. "Isso aí é carma, aprontou muito na outra vida e nessa aqui paga mesmo", dizia outro. "Trabalho pesado contra tua família, minha filha. Tem que desfazer senão teu pai fica assim pra sempre!", disse a mãe-de-santo. (O que eu ouvi nos quatro meses que durou esta história me rendeu material para o blog pelo menos até a Copa.)

Só a velha empregada, a Zu, que nunca gostou mesmo do avô, "isso aí é trambiqueiro que só", dizia, é que continuou impassível: "Aafff, que esse véio não vale é nada", resmungava. O homem, sentado o dia todo em frente à TV, respondia: "Vai fazer o teu serviço, mulher, já não chega o que eu tô passando"? E todo mundo: "Zu, que horror, tenha dó, não tá vendo como tá esse coitado"? E dá-lhe rezas e novenas! Às vezes eu estava lá, ouvia e nunca deixei de estranhar, além dos erros de regência e concordância, esse tom de súplica e o português castiço do século dezenove para falar com Deus: "Senhor, tu pareces que nos abandonastes neste vale de lágrimas, pedimos-te a ti que nos concedas a nós a graça do perdão e da cura,  tu sois nosso Pai Eterno"… e iam longe. A Zu olhava tudo aquilo com cara de desdém e falava, implacável: "Arre, que esse véio é curva de rio"! (Curva de rio é o lugar onde só tem tranqueira, que acaba parando ali. E a Zu, que eu pensava que era diminutivo de Zulmira, era diminutivo de Zulu mesmo.)

Já o avô nunca havia sido tão paparicado: comidinhas e docinhos especiais, visitas e presentes, era o centro das atenções. Alma boa, perdoou a todos e aparentava uma serenidade que só podia ser divina: "O sofrimento ensinou ele. Está resignado e em paz. Deus escreve certo por linhas tortas", diziam. A Zu, quando não lançava uma farpa, olhava feio. Um dia não aguentou e me disse: "Tinham que por ele lá fora, sentado, pra vender bilhete de loteria. Assim não ficava à toa". O que será que o avô tinha feito a ela? Tinha de ficar sozinha cuidando dele a semana toda, de manhã à noite, enquanto todo mundo trabalhava.

Um dia, sei lá por que motivo, minha amiga voltou para casa no meio da tarde, o que era raríssimo. Foi procurar o avô, no quintal dos fundos, e simplesmente não acreditou no que viu: ele, deitadão em uma espreguiçadeira, de calção, lendo o jornal, as duas pernas dobradas, ouvindo samba no rádio! Esticava as pernas, fazia círculos com um pé, depois com o outro, dobrava os dedos pra frente e pra trás. Na porta da cozinha, ela virou a cabeça lentamente para olhar a Zu que, do seu lado, com as duas mãos apoiadas na vassoura, dizia: "Ééééééééééhh…", um som longo e rouco que parecia uma porta rangendo. "Esse véio é o cão."

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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4 Respostas para “O homem que queria ser cego

  1. Lucia, delicioso seu texto!!! Seu talento de escritora revela-se nas suas escolhas lexicais, nos períodos bem construidos que aproximam o leitor de quem escreve. Bom demais!!!!

  2. Olá, Lucia Maria. Sou a Isa e dou aulas em uma faculdade de Educação aqui no Sul. Estou utilizando alguns de seus textos para falar sobre inclusão com meu alunos e eles estão adorando e, principalmente, compreendendo e refletindo sobre aspectos por eles desconhecidos até então, de um jeito fácil, sem a linguagem acadêmicacom a qual estamos acostumados. Aproveito para dizer que amei esta história do homem que queria ser cego, hilária, li hoje cedo e, acredite, já comecei bem o dia. Parabéns e obrigada.

  3. Isa, fico muito feliz em saber que os textos estão facilitando a aproximação de jovens da audiodescrição e da deficiência visual e torço para que alcancem, cada vez mais, pessoas que hoje estão muito distantes destas questões, eu é que agradeço. Um beijo!

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