Seu Amaury e a audiodescrição

Seu Amaury tem 79 anos, é mecânico aposentado e mora no interior de São Paulo com a mulher, a filha e o neto. Forte e bem disposto, desses que se orgulham de nunca ir ao médico nem de tomar remédio, de dois anos pra cá vem enxergando cada vez menos e já desistiu de ler o jornal e assistir, mesmo de óculos e de muito perto, à televisão. "Não ‘guento’ não, cansa demais", diz.

Teimoso, até o ano passado saía trombando em tudo e bengala não usava de jeito nenhum: "Vão me confundir com um cego!", dizia. Não deu outra: levou um tombo na rua, teve uma fratura na perna e ficou cinco meses em uma cadeira de rodas. "Melhor ser confundido com um cego, né, Amaury?", disse a mulher. Não saía para a rua, dizia que, sem enxergar direito e com a calçada toda esburacada, o melhor mesmo era ficar em casa. E lá ficava o dia todo, sua vida era reclamar de tudo e as únicas distrações que tinha eram o rádio e às vezes o neto, de onze anos que, a bem da verdade, não era exatamente uma distração: um dia começou a empurrar a cadeira de rodas pra lá e pra cá, girar e frear bruscamente como se fosse um carro, debaixo dos gritos de protesto do avô, que acabou levando outro tombo – dessa vez, ninguém sabe como, não aconteceu nada. Aconteceu foi com o menino, que ficou de castigo duas semanas inteiras sem televisão, sem computador e sem brincar na rua. A mãe avisou, aos berros: "Fora a escola, você só sai em caso de incêndio!".

Arrependido de verdade, parecia outra pessoa: quieto, abaixava a cabeça quando via o avô e ficava no quarto a maior parte do tempo. E foi ele quem um dia entrou em casa correndo, eufórico com a novidade: "Existe filme pra cego assistir que dá pra ele entender tudo!". Todo mundo riu. "Que bobagem, meu filho! E, se existir, não é aqui no Brasil, não!" O menino insistiu: "É, sim, tem até na locadora! Um colega cego assiste, vamos lá, vô, vamos pegar!". Depois de pedir muito, no começo de março lá foram os dois para a locadora, seu Amaury meio de má vontade, ainda mancando, mas com a bengala, que ele chama de "calço". Ainda na varanda, segurou o braço que o neto ofereceu: "Finalmente esse menino aprendeu a não sair me puxando feito mãe brava com filho que desobedece!".

E não é que o menino tinha razão? O único filme com audiodescrição disponível na locadora era o brasileiro CHICO XAVIER, que, como explicou o atendente, "veio com uma voz que conta para quem é cego o que está passando". "Deve ser porque o Chico era médium", brincou seu Amaury. Curioso, chegou em casa e chamou todo mundo pra assistir ao DVD. O filme começou. Todos se entreolharam, surpresos com a audiodescrição, que provocou risos, olhos arregalados, bocas abertas. Espanto e alegria. Seu Amaury ouvia e olhava a tela, atento, sentado na ponta da velha cadeira de balanço, pernas abertas, mãos entrelaçadas. "Rapaz, mas que beleza!", murmurava de vez em quando. A filha e o neto fechavam os olhos e, momentos depois, sorriam. A mulher adorou o filme e comentou com a vizinha no dia seguinte: "Bonito mesmo, e eu nem precisei ficar olhando direto, que às vezes cansa mesmo a gente que tem idade, né? Fiquei aqui no meu tricô e não perdi nada, parecia radionovela".

Seu Amaury já pediu ao atendente da locadora para avisá-lo toda vez que chegar algum filme com audiodescrição. E ficou tão entusiasmado que foi a pé a mais duas outras locadoras do bairro fazer o mesmo pedido – sempre com a bengala. Apaixonado pela atriz Ísis Valverde, a "Suellen" da novela das nove, pede para o neto descrever a roupa que a personagem veste toda vez que ela aparece. O menino reclama: "Que saco, vô!". Mas faz o que pode: "Tá com roupa de periguete, calça apertada, a blusa meio curta". E sempre que encontra um vizinho ou um parente, conta da audiodescrição no filme e não se cansa de perguntar: "Rapaz, eu fico pensando, mas como é que uma coisa dessa, tão útil pra tanta gente, não tem na televisão, em tudo quanto é filme, novela, programa?". Ah, seu Amaury, não precisa pensar tanto que essa tá fácil, fácil… Mas vamos em frente na luta, pra chegar o dia em que vai ter audiodescrição até em churrasco na laje!

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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4 Respostas para “Seu Amaury e a audiodescrição

  1. Olá, Lúcia

    Sou fã do seu blog e já queria escrever há um tempo. Adoro seus textos, aprendo, reflito, me divirto e me emociono. Faço minhas as palavras de um outro leitor, nunca vi nada assim tão gostoso de ler sobre deficiência na internet. Amei todos e agora a história do seu Amaury, meus pais são idosos e tenho certeza que também gostariam de ver seus programas favoritos com a audiodescrição. Sou estudante de Psicologia e um dos professores indicou alguns sites e blogs, entre eles o seu. O mais legal! Um abraço.

  2. Ana, bom saber que você gosta tanto de Outros Olhares e que um professor indicou sites e blogs sobre o tema. Também são algumas das minhas fontes de informação e inspiração. Um abraço!

  3. Lucia,

    Graças ao super trabalho do Paulo Romeu conheci seu blog. Parabéns!!!

    Adorei o texto do seu Amaury! que jeitinho saboroso de escrever!

    Um grande abraço

    Marta Gil

  4. Obrigada, Marta, pela visita e por sua mensagem! Além de ser fã do trabalho do Paulo Romeu, sou imensamente grata a ele pelo incentivo e pela divulgação do blog. Um grande abraço pra você também!

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