Um passo para a frente, dois para trás?

"Audiodescrição é como pizza: mesmo quando é ruim, é boa." Ouço há tempos frases como esta, ditas por pessoas com deficiência visual que se contentam somente por haver audiodescrição em alguns eventos que frequentam, sem levar em conta a qualidade da narração e das informações que recebem. "É melhor que nada, o pouco que tiver já ajuda e muito", dizem.

Penso que, passada a euforia inicial causada pelo grande impacto trazido pela audiodescrição, com todos os benefícios e as alegrias que a inclusão proporciona, o segundo passo será uma análise mais crítica do recurso, que virá por comparação mesmo: só é possível exigir qualidade depois de conhecê-la e exemplos não faltam, com o alto nível dos profissionais que são referência em audiodescrição no país. É preciso, ainda que aos poucos, que este padrão seja estabelecido, cada vez mais, nos eventos ao vivo ou nos produtos gravados, como DVDs, programação televisiva, livros didáticos e audioguias para exposições e museus. Para isso, é fundamental que as pessoas com deficiência visual façam suas avaliações, dêem suas opiniões e sugestões sempre. Quando qualquer coisa está boa, qualquer um faz e de qualquer jeito, não é mesmo?

A mesma coisa acontece em relação aos Livros Falados das instituições para pessoas com deficiência visual: a maioria dos usuários dificilmente faz uma crítica ao locutor, à qualidade da edição, à demora no envio de livros técnicos: as cartas e e-mails são só elogios e agradecimentos, resultado da forte e perigosa cultura assistencialista que oferece apenas "proteção" à pessoa com deficiência e, com isso, perpetua preconceitos e estereótipos, não incentiva  independência nem acredita em capacidade de mudança. Durante anos, ouvi muitas vezes: "É de graça, tá bom demais, melhor pingar do que faltar, nunca que vou ter dinheiro pra comprar audiolivro em livraria mesmo".

E cadeirantes ou cegos em pontos de ônibus? Já ouvi histórias e também presenciei motoristas passarem direto pelo ponto, sem parar, ou parando e respondendo a perguntas de mau humor e outros, claro, cumprindo seu dever com gentileza e simpatia. E alguns cegos comentavam: "Tem que contar com a sorte, tem uns legais, que param e conversam direito, e outros que não estão nem aí". Sempre perguntei o que faziam quando o ônibus não parava e vinha a mesma resposta, na maior parte das vezes: "Nada, ué. Não adianta mesmo…" Pois é.

Quando a pizza é ruim, a gente reclama, muda de pizzaria, faz em casa. Se a torneira só pinga, chama o encanador, usa outra torneira, reclama da falta de água, se for este o caso.  Por que teria de ser diferente com pessoas com deficiência? Direito não é favor, não é caridade. E fica bem mais difícil fazer valer os direitos de quem acha que não os têm.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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8 Respostas para “Um passo para a frente, dois para trás?

  1. BRAVO!!!!!!!!! ENQUANTO AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA ESTIVEREM SMPRE NA POSIÇÃO DE VÍTIMAS, RECEBENDO DE GRAÇA PRODUTOS E SERVIÇOS E SENDO CONIVENTES COM ESTE PATERNALISMO, AS MUDANÇAS CONTINUARÃO COMO SÃO: POUCAS E MUITO LENTAS. PARABÉNS MAIS UMA VEZ, SEU BLOG É DEMAIS!!!!!!!!!!

  2. Sensibilidade e bom humor aliados à coragem de criticar quando é preciso e de forma pertinente e ainda leve. Meus parabéns.
    Ricardo de almeida Santos

  3. Concordo, Andrea, e não perco a esperança; ainda que aos poucos, as conquistas virão. Obrigada, um abraço!

  4. Lúcia Maria, deixo aqui mais um parabéns entre tantos outros. você consegue tornar atraentes temas tão específicos. Li o blog todo, é maravilhoso.

    Maria Cândida

  5. Obrigada, Maria Cândida! Os temas, apesar de pouco conhecidos, são bem atraentes e interessantes, basta chegar um pouco mais perto… Que bom que você gostou! Um abraço!

  6. Lúcia, a Lívia Motta só ministra cursos em São Paulo? Existem publicações sobre audiodescrição? Continuo fã do seu blog, um abraço!

  7. Oi, Teresa! A Lívia ministra cursos e palestras em outras cidades também, inclusive cursos à distância. Esta e muitas outras informações você encontra no site dela, VER COM PALAVRAS, assim como o download do primeiro e único livro brasileiro sobre audiodescrição: “Audiodescrição, Transformando Imagens em Palavras”, organizado por ela e pelo Paulo Romeu Filho, obrigatório para quem pretende se aprofundar no tema. Obrigada por mais uma visita, um grande abraço!

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