Mãe

Cega desde os 17 anos, teve cinco filhos. Mãe amorosa, atenta à educação das crianças e exigente com a organização e a limpeza da casa, sabia onde estava cada toalha e cada copo. Os filhos contam que nunca souberam o que é uma mãe entrar no quarto deles à noite e acender a luz: a amamentação e, depois, as mamadeiras e os beijos de boa noite, recebiam no escuro mesmo. E ela contava que, um dia, pegou a mamadeira em cima da cômoda e deu a um dos pequenos, no colo. O bebê reclamou, gemeu e ameaçou um choro; bastou uma gota no dorso da mão para experimentar o leite azedo e constatar que a empregada havia deixado a mamadeira pronta na cômoda, no lugar de sempre, mas… não havia levado a da manhã, que estava ao lado. Todo cuidado era pouco: objetos e utensílios jamais poderiam mudar de lugar.

Alegre e otimista, um dia brincava com um dos filhos no cercadinho de madeira. O menino, de um ano e meio, chutava a bola e a mãe, do lado de fora, pegava e devolvia a ele. Em uma das vezes, ouviu o chute, mas a bola não veio. Por mais que tateasse por entre as grades do cercadinho, não a encontrava. Desistiu: “A mamãe não encontra a bola!”. Silêncio. “O que está acontecendo, meu Deus?”, pensou, já preocupada. De repente, sentiu uma mãozinha pegar na sua e colocá-la em cima da bola, que havia sido trazida para bem perto da grade onde ela estava. Emocionada, sorriu e mal conseguiu murmurar: “Obrigada, filho”.

Estas são apenas duas pequenas histórias de Dorina de Gouvêa Nowill (1919-2010), fundadora da instituição que leva seu nome, em São Paulo.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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6 Respostas para “Mãe

  1. Boa tarde, Lúcia Maria.

    Tenho 67 anos e sempre ouvi, mas nunca havia percebido a importância dos sons em filmes, novelas ou peças publicitárias e acredito que nem a imensa maioria que não trabalha com isso ou que não é portadora de deficiência visual. Subestimamos a capacidade de compreensão não só de pessoas com deficiência, mas acredito que de todas as pessoas. Olhar o outro e ouvir o outro, de verdade, diminuiriam diferenças e distâncias e todos ganhariam com isso. Parabenizo-a por este blog diferente, que populariza uma temática pouco conhecida com muita sensibilidade, algumas curiosidades e a linguagem informal da crônica, o que torna a leitura extremamente agradável. Deve alcançar e certamente educar muitas pessoas para um mundo, infelizmente, desconhecido para tantos. Obrigado.

  2. Padre Júlio, agradeço a visita e a bela mensagem! O senhor tem razão, quando diz que precisamos olhar para o outro, ouvir o outro. O outro com deficiência ou não. Acredito que, muitas vezes, este seja um aprendizado de uma vida toda e mais difícil ainda quando o outro é desconhecido ou diferente. É preciso que as pessoas cheguem mais perto das diferenças e das deficiências. Para quem sabe, um dia, podermos constatar que estamos de verdade em “um mundo para todo mundo”, como diz o slogan.

  3. Blog lindo no visual, lindo e diferente no conteúdo. é como ver um filme, a gente se envolve com os personagens e histórias. MÃE me emocionou muito. parabéns.

  4. Agradeço a visita e a mensagem, Fernanda! Algumas histórias de vida realmente emocionam muito, ensinam muito e fazem a gente pensar…
    Um abraço!

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