Sonoplastia e audiodescrição

Segunda aula de um dos cursos de audiodescrição da Lívia Motta, em 2010, do qual participei. Os alunos estavam descrevendo um vídeo e, em uma das cenas, um telefone tocou. Não deu outra: muita gente escreveu “o telefone toca”. A Lívia: “Gente, essa informação não é necessária! As pessoas com deficiência visual estão ouvindo o telefone!”. Todo mundo riu: “É mesmo…”. Pode parecer óbvio, mas é um erro bastante comum no primeiro contato com a audiodescrição, parecido com aquele que acontece quando, diante de um cego pela primeira vez, muita gente eleva o tom da voz para conversar ou se dirige ao acompanhante dele ao responder alguma pergunta, sem perceber que ele apenas… não enxerga!

Voltando ao telefone, o Leo, que também fez o curso e é cego, levantou a mão e explicou: “A gente entende muita coisa sim, audiodescrição nos filmes e programas de televisão muitas vezes só complementa, só aumenta nossa compreensão!”. Os sons trazem uma enorme variedade de informação e emoção. É só experimentar fechar os olhos e acompanhar um filme para constatar a importância de vozes, ruídos e trilhas sonoras.

Percebemos que alguém está andando por uma rua movimentada pelos passos no asfalto, o barulho de motores e buzinas, pessoas falando, o apito de um guarda. Depois, uma porta que  abre e fecha, o silêncio, passos mais lentos em outro piso, um molho de chaves caindo sobre um móvel, um zíper sendo aberto, ruído de tecidos, um corpo afundando em uma poltrona ou sofá, uma televisão que é ligada: pronto, o personagem está em casa. “Então, nessas horas, não precisa falar nada?”, sempre perguntam. Não precisa contar o que está sendo ouvido mas precisa, claro, contar o que não pode ser visto, ampliar o entendimento descrevendo as imagens. O personagem parece cansado ou feliz? Tem a cabeça baixa ou olha ao redor? Tirou a roupa toda ou apenas a calça? Deitou ou está sentado? O lugar tem poucos móveis, é muito colorido? Tem mais alguém na casa ou, por exemplo, um gato?

E as vozes, que, com as várias nuances, revelam todo tipo de emoção e, às vezes, são inesquecíveis – quem é que não se lembra da voz do demônio em O Exorcista, de William Friedkin, que nem precisou aparecer para aterrorizar algumas gerações?

Lembro também de um comercial, há alguns anos, em que um coelhinho fugia de um leopardo. A trilha sonora, feita de notas agudas e rápidas, com um grilo ao fundo, inspirava natureza e velocidade. Em uma novela, identificamos muitos dos personagens que virão pela música: a música que caracteriza o par romântico, o malandro, a moça pobre e ambiciosa, a turma do hip-hop. A trilha acompanha e avisa que a cena é infantil (aquele tlin-tlin-tlin no quarto do bebê), de terror ou suspense. Já a música clássica ou uma ópera, associadas à elegância e sofisticação, costumam caracterizar ambientes e carros luxuosos ou pessoas ricas.

Há muitos anos, o maestro Júlio Medaglia, em uma entrevista, afirmou que a trilha do filme O Iluminado, de Stanley Kubrick, era perfeita, desde o começo carregada de tanta tensão que já anunciava tudo o que estava por vir…

E o filme Tubarão, de Steven Spielberg? Tem uma trilha que é uma das mais famosas do mundo e conseguiu traduzir, com apenas dois acordes, o tamanho do perigo daquela barbatana enorme deslizando no mar. Começou a tocar, pronto, lá vem ele! E faz sucesso até hoje: vi, recentemente, um grupo de jovens gargalhar alto em uma lanchonete, na mesa ao lado da minha, quando um deles mergulhou um “nugget” em formato de barbatana em uma tigela com molho e começou a movimentá-lo em círculos com o clássico: “tã, tã, tã, tã, tã”… Foi a inspiração para este post.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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2 Respostas para “Sonoplastia e audiodescrição

  1. Lúcia, bom dia.

    Seu blog é minha agradável leitura de domingo.

    Não podia deixar de comentar o quanto é informativo e consistente, de um jeito fácil de entender. Jamais conheceria a audiodescrição com alguma profundidade sem estes textos. Este me fez pensar em como enxergamos e ouvimos pouco!!!

    O último, MÃE, é simples e lindo.

    Meus parabéns!

  2. Obrigada, Sandra, pela visita e pela mensagem! E você tem razão: a audiodescrição melhora mesmo nossa capacidade de enxergar e também de ouvir…Um abraço!

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