Pedro e o lobo

A Júlia gritou do quarto, furiosa: “Maaaaanhê!!!” Abriu a porta com força e saiu correndo direto para o sofá da sala, onde estava o irmão. Foi dando uns tapas no Pedro: “Seu idiota, cretino” e daí pra baixo. O Pedro se defendia como podia, fazendo as almofadas de escudo e gritando: “Ai, aaai, mãe, interna, interna essa doida!”. A Marina foi apartar, segurou a Júlia enquanto mandava o Pedro sair dali. Desabafou: “A gente não tem um minuto de paz dentro dessa casa, vocês brigam o dia todo, eu já não aguento mais e nem seu pai, vamos começar a cortar mesada, computador, o que for preciso!”.

Chorando, a Júlia contou: “Eu odeio, odeio o Pedro! Ele botou uma página do meu diário na internet, justo a que eu conto que gosto do Bruno, agora tá todo mundo sabendo, nunca mais vou poder sair de casa!”. A Marina chamou o Pedro: “Você teve coragem de fazer isso com sua irmã, meu filho?” Ele, com a cara mais inocente deste mundo: “Não, mãe! Era pra mandar só pro Caio, nem sei como foi pra todo mundo… Eu não enxergo, acabo me atrapalhando com o computador!”. A Júlia avançou nele de novo: “Mentiroso, você fez de propósito!” e, desta vez, a mãe conseguiu segurá-la a tempo: “Júlia, não!!! Seu irmão é cego, não admito que você encoste um dedo nele e mesmo que não fosse”. Ela, choramingando: “Ah, ele apronta todas e ninguém pode encostar um dedo! Você sempre defende ele, mãe, sempre! Todo mundo pensa que porque é cego é bonzinho, santinho! Não vou mais encostar um dedo, não, agora vou começar a jogar vaso e panela na cabeça dele, o que estiver mais perto!”.

E entregou o Pedro: “Sabia que ele vivia pedindo pras minhas amigas levarem ele pela rua, com medo de buraco, e elas iam, lógico, e ele segurava no braço delas, aqui, entre o ombro e o cotovelo, e aproveitava pra ir roçando os dedos nos seios delas e depois contava pros amigos, rindo? Agora eu digo pra todas elas darem o braço pra ele bem longe do corpo!”. A mãe estava perplexa e o irmão, quieto mas com um leve sorrisinho que desapareceu quando ela continuou: “Ele tromba em mesa e derruba refrigerante ou molho em quem ele não gosta, paga dez reais por semana pra Lina arrumar o quarto dele e ganhar elogio de vocês, aliás a Lina encobre um monte de coisas; vai pro quarto estudar e fica em site de história de sacanagem, com fone de ouvido, e vocês achando que ele tira nota ruim porque tem trauma ou sei lá o quê! Semana passada, ele falou pra tia Maria, que acabou de ser abandonada pelo tio Cláudio, que ele leu que era mais fácil uma mulher sofrer um ataque terrorista do que se casar depois dos 50 anos, dá pra acreditar? Precisava ver a cara que ela fez, achei que ia chorar ali mesmo! E todo mundo passando um pano em tudo que ele faz, você e o papai não ficam sabendo da metade porque ficam fora o dia todo! O Pedro é ruim, mãe, ruim!!!”.

A Lina atravessou a sala com uma pilha de toalhas e disse: “Júlia, moleque é tudo igual, depois passa!” e já ia parando quando viu o olhar da Marina pra ela: entendeu tudo e sumiu rapidinho pela porta da cozinha.

A Júlia foi se acalmando. A Marina repreendeu o Pedro e tirou a mesada dele por dois meses. Ainda teve discurso: a gente tem que procurar fazer o que é certo, mas ninguém é totalmente bom nem totalmente mau e o Pedro é como todo mundo, não é, de jeito nenhum, melhor por ser cego e também não pode nunca usar a cegueira pra conseguir mais atenção ou privilégios. E fez aos dois uma pergunta: “Existem dois lobos dentro de cada um de vocês, um bom, um mau. Qual deles vai sobreviver?”. Silêncio. “Aquele que vocês alimentarem”, respondeu. “Isso pra qualquer ser humano, cego ou não.” Os dois ficaram quietos por um momento, o que é raríssimo.

Com a voz do Pato Donald que a Júlia detesta, o Pedro recomeçou: “Será que meu lobinho também é cego?”. Ela retrucou, entredentes: “Insuportável! Bizarro!” A Marina revirou os olhos, suspirou, pegou a bolsa e as chaves e saiu pro supermercado.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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6 Respostas para “Pedro e o lobo

  1. ESSE BLOG É MUITO, MUITO LEGAL, TÔ RINDO ATÉ AGORA COM ESSES IRMÃOS, ME LEMBROU A MINHA PRÓPRIA ADOLESCÊNCIA!!!
    GUSTAVO PARANHOS

  2. Olá, Lúcia!

    Simplesmente amei esta história, também ri muito, as relações familiares são assim mesmo e este blog é um super passo para diminuir preconceitos contra as pessoas com deficiência, de um jeito que alcança todo mundo. Parabéns pelo blog inteiro, esperamos novidades!

  3. Obrigada, Ana Cristina, estou vendo que retratar o cotidiano das pessoas com deficiência visual é uma maneira bem eficaz de mostrar que a única diferença é que elas apenas… não enxergam. Um abraço!

  4. como uma história tão simples pode ficar tão interessante e engraçada e ser sobre deficiência visual?
    Grande feito. Como é que existe todo um mundo em volta da gente e a gente não vê? Quem enxerga pensa enxergar tudo, ainda temos muito que aprender e você está ensinando. Parabéns e obrigada.

  5. Beatriz, a deficiência visual também tem histórias muito interessantes e engraçadas! Atrás dela, existem pessoas, antes de tudo… E você tem razão: quem enxerga precisa enxergar melhor – e não só as deficiências. Quanto ainda temos a aprender, não é? Faço um pouco, mas aprendo muito, e todo dia, sobre inclusão: o que tem de gente boa nessa área… Obrigada pela mensagem, um grande abraço!

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