Outono

Fiquei cego aos 39 anos de idade, no outono, em um acidente de carro, há exatamente vinte anos. Ainda lembro da última imagem: a visão embaçada das muitas folhas amareladas e vermelhas rolando pela rua e do ventinho frio que entrava pela janela quebrada do carro capotado,  segundos antes de eu apagar. Sou músico e, modéstia à parte, um cara até que bonitão. Pelo menos, era bonitão pelo que me lembro, hoje nem sei mais. Ou melhor, sei, pelo que minha mulher e minha filha dizem, mas elas são suspeitas, não contam.

A cegueira foi uma das piores coisas que me aconteceram na vida. Antes disso, não tinha noção do que era problema. O sofrimento dos primeiros meses foi tão intenso que eu chegava a ter dores físicas pelo corpo, um pesadelo que não passava porque quando eu acordava e abria os olhos, ele continuava lá. Na escuridão. Fiquei quase um ano em um estado deplorável: de pijama, barba por fazer, quinze quilos mais magro, à base de antidepressivos, dormindo quase o dia todo. Nem a risadinha e os balbucios da minha filha, ainda um bebê, conseguiam me tirar da completa letargia.  Quando conseguia sair da cama, desabava no sofá e vice-versa. As vozes de familiares e amigos, embargadas e cheias de piedade, só faziam crescer minha raiva. Queria estar só. Completamente só. Isso quando não pensava em morrer de uma vez. Porque já não sabia como viver. Daí para frente, como seria? O que é que a gente faz sem a visão? Alguns incautos vinham me falar de Deus. Quando não saíam de casa corridos, assistiam à minhas risadas sarcásticas. Bando de babacas, pensava. Se Deus existia, já havia ido embora desse mundo há muito tempo e apagado a luz ao sair. Ou fazia de todos nós umas marionetes. Devia se divertir assim.

A coisa toda foi passando. Ou você se adapta ou enlouquece. Um dia, nem sei como nem quando, tinha voltado a brincar com minha filha, fazer a barba, comer direito, amar minha mulher, trabalhar. Voltei a dar minhas aulas de música, isso depois de aprender durante um bom tempo a andar por aí com uma bengala e de muita terapia para despejar todo meu rancor e meu medo e aprender a lidar com a “nova realidade”.

A nova realidade que dificultava os cuidados com minha filha, me impedia de fazer um monte de coisas como dirigir e ir ao cinema, afastava alguns amigos, me fazia depender muito mais das pessoas, alterava instantaneamente minha identidade e tirava minha credibilidade aos olhos dos outros como se, ao ficar cego, tivesse deixado de ser uma pessoa, em primeiro lugar, e uma pessoa com um milhão de outras características além da cegueira, como inteligência, experiência, conhecimento! Fui reduzido à minha deficiência: “Ele é cego, ponto”. Em um mundo que vende e cobra perfeição em todos os sentidos, passei a saber, de verdade, o que é ter alguma deficiência: a indiferença, o rótulo de menos capaz, a voz cheia de pena, a humilhação pela discriminação e pelo preconceito. Engoli sapos amazônicos e também arrumei umas boas encrencas, como no dia em que um sujeito mexeu com a minha filha na rua e eu a defendi, com raiva da minha impotência que me impediu de partir pra cima dele. Mas essa fase também passou. Em algumas situações cotidianas, mas raras, apenas faço cumprir meus direitos com tranquilidade e firmeza. O ser humano já não é lá grande coisa, ou resiste a ideias novas e ao diferente ou não tem o menor interesse em conhecê-los. Por isso não tenho grandes expectativas. Eu mesmo era assim, via um cego ou um cadeirante e pensava na hora: “Coitado do cara!”.

Há dez anos perdi minha mulher. Minha companheira de tantos anos morreu no outono, desta vez eu sentia o ventinho frio mas só ouvia o farfalhar das folhas rolando pelo chão. Outro grande golpe. Outro mergulho na escuridão.

Sou um cara comum, como todo mundo. Adoro beber e conversar numa mesa de bar com os amigos, gosto de praia, de livros e DVDs. Dou muita risada, mas estou longe de ser o cego engraçadinho, cheio de piadas. Na maior parte do tempo, nem me lembro de que não enxergo. O que não esqueço mesmo e me causa indignação são os absurdos desse país, entre eles, tamanho descaso com a deficiência. No mundo, a atenção às pessoas com deficiência começou depois da Segunda Guerra Mundial, quando os filhos das famílias americanas começaram a voltar para casa sem mãos, sem braços, cegos, surdos ou em cadeiras de rodas. No Brasil, a atenção às condições de vida dos presidiários e aos direitos humanos só foi dada depois que os filhos da classe média, acusados de subversão, começaram a ser presos, torturados e mortos durante o Regime Militar. Se os cegos fossem, em sua maioria, bem-nascidos, a audiodescrição, por exemplo, já estaria em programações permanentes em cinemas, teatros e na televisão há tempos, alguém duvida?

Também adoro as mulheres. Ficava louco só de olhar pra elas. Depois, cego e viúvo, dependia dos amigos para uma descrição que eu mesmo ia conduzindo. Não queria saber se eram bonitas ou feias, apenas. Queria saber os detalhes do rosto e do corpo, o jeito, a idade aproximada, como se vestiam. Quem acabava me contando melhor era minha filha, da adolescência até bem pouco tempo atrás. Sou um dos milhares, acredito, que queria uma boa audiodescrição da PLAYBOY. Paciência, quem sabe um dia.

No verão do ano passado, eu a conheci. Sabia que era interessante e charmosa e que tinha um belo corpo. Não precisei dos detalhes. O toque de sua mão e sua voz foram suficientes. Todo o restante eu vi e senti com as mãos, com a alma, com o corpo todo. E me apaixonei definitivamente quando, em um final de semana na praia, disse que sentia saudades de ver o céu à tardinha, todas aquelas cores. E ela, com naturalidade, gostando do que estava vendo, descreveu com a voz mais suave e tranquila do mundo: “O céu está dividido em três faixas horizontais bem grandes. A maior parte é azul escuro, depois vem um amarelo bem intenso e um vermelhão no fundo do mar. A água está muito azul também, com reflexos brancos do sol, que ainda aparece bem pequenininho como um ponto de luz. Os raios brancos cortam todas as cores. Deixam umas aberturas esbranquiçadas pelo céu todo. A água deve estar morna. Vem, vamos entrar”. O que é que de realmente importante na vida, a gente NÃO faz sem a visão? Nos casamos. No outono.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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10 Respostas para “Outono

  1. Belíssimo depoimento. Parece que ele está falando aqui, na minha frente. Corajoso e real.
    Parabéns.

    Antônio Carlos

  2. Bom dia, Lúcia.
    Estou para escrever há alguns dias, quando descobri seu blog. A deficiência visual sempre me interessou, hoje trabalho na área. Seus textos são incríveis, abordam um tema tão restrito com tanta sensibilidade, retratando de uma maneira muito real o cotidiano de pessoas cegas. Parabéns pela iniciativa inédita e tão bacana, ler este blog é um prazer muito grande e Outono é lindo e comovente.

  3. Que bom ver retratadas a dor, as idéias, a revolta, todas as emoções tão reais que envolvem a perda da visão e o “depois” disso, e de um jeito tão informal, uma conversa. Tenho certeza que assim como eu, muitas pessoas cegas se identificaram com esta história. É assim mesmo, Um carinhoso abraço.

  4. Paulo, que coincidência! Ainda que haja muito casos de perda de visão em acidentes de carro, não deixa de ser uma grande coincidência ter acontecido com você e, mais ainda, no outono… Nos falaremos ao vivo no sábado. Hasta la Vista! Um grande abraço.

  5. Obrigada, Daniela, pela mensagem! Um texto mais informal acaba popularizando, mesmo, alguns temas tratados, grande parte das vezes, com linguagem técnica ou acadêmica. E basta um pouquinho pra constatar que, ao contrário do que se pensa, existe muita gente, sim, interessada, receptiva, curiosa e disposta a conhecer este e outros temas. Um grande abraço!

  6. Um prazer receber sua mensagem, Maria! Que bom que você gostou do post, agradeço a visita. Um carinhoso abraço pra você também!

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