Hasta La Vista! com audiodescrição (e um baita público… pagante)

Cinquenta e cinco pessoas com deficiência visual foram assistir, na tarde deste sábado, 26, ao filme HASTA LA VISTA! com audiodescrição, no Reserva Cultural, na avenida Paulista. Cinquenta e cinco… pagantes. Isso mesmo, leitor: compraram seus ingressos para a sessão. Meia entrada. E compareceram em um número que, normalmente, não chega nem à metade na grande maioria dos eventos audiodescritivos gratuitos em São Paulo.

Cheguei e uma pequena fila de pessoas com deficiência visual já se formava em frente à bilheteria. E continuavam chegando em duplas, trios ou pequenos grupos, animados, sorridentes, falantes, muitíssimo bem recepcionados e orientados pela Jumara e pela Fátima. Nós, da equipe de audiodescrição VER COM PALAVRAS, não esperávamos tanta gente nunca! Principalmente quando os ingressos são pagos: apesar de, pessoalmente, ser contra a gratuidade, sinônimo de um paternalismo que já está mais do que na hora de acabar, sei também que, na prática, o público da audiodescrição é muito pequeno, ainda está sendo formado e olha que já cresceu bastante. É preciso divulgar ao máximo os eventos, convidar e insistir mesmo quando são gratuitos. Imagine se ainda por cima forem cobrados!

Dezenas de e-mails foram disparados para os principais portais e blogs sobre deficiência visual do país. A localização da sessão ajudou: o acesso à avenida Paulista é fácil, muito bem servido de ônibus e metrô. O filme, então, nem se fala: HASTA LA VISTA! é uma premiada produção belga do diretor Geoffrey Enthoven, que conta a história de três jovens em torno dos vinte anos, um com baixa visão, um tetraplégico e um paraplégico. Virgens, partem em uma aventura em direção a um bordel em Barcelona, na Espanha, que atende pessoas com deficiência. É um filmaço: moderno, envolvente, delicado, engraçado, emocionante.

Emocionantes também foram a receptividade e a curiosidade do público em relação a tantas pessoas com deficiência visual e à audiodescrição. E mais emocionante ainda foi a reação do nosso público durante a sessão: risos e gargalhadas, o silêncio absoluto nos momentos cruciais, os sustos, um “ah, não…” ou “ai, meu Deus” quando alguma coisa dava errado para um dos personagens, tudo isso chegando à cabine de audiodescrição, onde estávamos eu, fazendo a AD, o Marcelo, no voice-over dos personagens masculinos e a Lívia, no dos femininos, já que o filme não é dublado (voice-over é a tradução em cima da fala dos personagens sem o compromisso com o sincronismo absoluto, característica da dublagem. No voice-over, ouvimos a tradução e também as vozes originais).

Olhei para a Lívia a uns quinze minutos do final e vi seu rosto vermelho, os olhos molhados. A diferença entre fazer um trabalho somente por dinheiro e fazê-lo também por paixão. Lembrei das histórias que ela conta sobre o início da audiodescrição no Brasil, com alguns poucos pioneiros. Há dez anos, nem os cegos conheciam o recurso (muitos ainda não conhecem). Em 2005, ela chegou a dar uma palestra sobre AD  para dois únicos participantes. Hoje, suas palestras são concorridas e há fila de espera para seus cursos. Hoje (desculpe a repetição, leitor, é que esse dado é absolutamente surpreendente!), uma sessão de cinema com audiodescrição reuniu, em São Paulo, um público de cinquenta e cinco pagantes.

Fizemos o roteiro, modificado muitas e muitas vezes, em cada uma das também muitas e muitas vezes em que assistimos ao filme. Reuniões, ensaios e mais ensaios. Três narradores ao vivo e o compromisso com a excelência. O Marcelo deu um show no voice-over, com a elogiadíssima interpretação de cada um dos personagens, facilitando a identificação e a diferenciação de cada um deles pelo espectador. Deu alma e vida ao roteiro.

Agradecimentos ao Paulo Romeu, Laércio Sant’Anna, Zé Vicente (integrantes da chamada “tropa de choque da audiodescrição”), Jucilene e Sandro, que assistiram e  aprovaram o trabalho em uma sessão na véspera, no teste final de recepção. E vai aqui um agradecimento especial à Lauren, do Reserva Cultural (um dos mais prestigiados cinemas de São Paulo, com uma programação de primeiríssima em um espaço supercharmoso), e à Daniela, da IMOVISION, que tornaram possível esta apresentação – e que venham muitas outras e em muitas outras salas de cinema do país. Quem sabe, programações permanentes, bem antes do que imaginamos?

Para encerrar, não posso deixar de mencionar o Wagner, moreno de cabelos encaracolados na altura dos ombros, de boné e bengala, todo elétrico, um dos vários espectadores com quem conversei no final da sessão, que trouxe uma questão muito interessante: “Você pode me responder uma coisa? Por que é que a moça ajudou no banho do cego? Quê que é isso, cego lá precisa que tirem a roupa dele pro banho? Me diz! Um absurdo, ó que isso aí vai dar polêmica! Fica mais um preconceito na gente, onde já se viu?!!”. Já ouvi algumas opiniões sobre o comentário, assunto para um post inteiro. Por enquanto, uma última informação: HASTA LA VISTA! vai sair, em breve, em DVD. Com audiodescrição.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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12 Respostas para “Hasta La Vista! com audiodescrição (e um baita público… pagante)

  1. Parabéns a você, a Lívia, ao Marcelo, quer dizer que agora a Ver com Palavras é como o último BIS da caixa? Todo mundo quer, hein? Um abraço a todos, fizeram por merecer, só ouvi elogios.

    Thomaz

  2. Alô, Lúcia!

    Estou novamente por aqui para parabenizá-la mais uma vez, e à Lívia e ao Marcelo, pelo trabalho perfeito com Hasta La Vista. Infelizmente, não moro em São Paulo mas vou aguardar ansiosamente o DVD para conferir sua voz “deslumbrante” e as interpretações do Marcelo. Que cada vez mais oportunidades de cinema de qualidade com audiodescrição surjam em todo o país. Um grande abraço a vocês três.

    Teresa

  3. Lúcia, parabéns pelo grande desempenho no filme Hasta La Vista, que quero assistir com audiodescrição em DVD e conhecer seu trabalho, que só poderia ser bom como este blog. Você faz toda a diferença neste meio e trouxe a questão do Vagner sobre o banho no cego, que me deixou morrendo de curiosidade. Parabéns mais uma vez, um beijo.

  4. Lúcia Maria, se já era seu fã por causa do blog, agora estou apaixonado pelo que ouvi falar de sua voz. Que venha logo este DVD. Moro em Porto Alegre mas vou a São Paulo na próxima sessão de cinema de audiodescrição com você. Um abraço!

    Leonardo

  5. Boa tarde, Lúcia Maria

    Venho parabenizá-la pelo trabalho em Hasta la Vista, espero que logo seja lançado o DVD para ouvi-la.

    Lamento apenas que tenha havido a cena de uma moça tirando a roupa do cego antes do banho, como você menciona aqui. Mas quero avaliar por mim mesmo se não faz parte de um contexto, em que haveria justificativa, portanto vou aguardar o DVD.

    Que mais iniciativas como esta tornem a audiodescrição uma realidade para as pessoas com deficiência visual deste país em todos os eventos culturais e, de preferência, pagos, como é para quem enxerga.

    Um grande abraço

  6. O último BIS da caixa, não digo, e nem que todo mundo quer, mas diria que estamos em um bom caminho (rs)…
    Obrigada, Thomaz, pela mensagem, abração!

  7. Obrigada pela mensagem e pelo carinho, Leonardo… Se puder, venha mesmo, será um prazer conhecê-lo. Um grande abraço!

  8. Obrigada, Antônio, pela mensagem!
    Decisão acertada a sua de primeiro assistir ao filme para depois comentar a cena, aguardo o seu comentário e os de outros leitores que quiserem fazê-lo. Aqui, em um espaço tão pequeno, prefiro não emitir opinião: certamente poderá gerar um desnecessário mal-entendido. Importante mesmo foi a presença de grande número de espectadores da audiodescrição e pagantes, sem dúvida um grande avanço e uma grande vitrine para mais iniciativas como esta! Um grande abraço pra você também!

  9. Então espero seu comentário sobre a cena do banho, tá? (rs) Obrigada, Rita, por escrever mais uma vez, pessoas como você também fazem toda a diferença neste meio, viu? Beijão!

  10. Obrigada Teresa, por mais uma participação aqui no blog e pela mensagem sempre carinhosa… Torcida e empenho não faltam para a divulgação e a implementação cada vez maiores da AD, com o esforço de tantas pessoas pelo país! Um grande abraço pra você também!

  11. Lúcia, sou também muito fã do seu blog, você achou um jeito de trazer para os leitores um ângulo diferente da mesma história, um “outro olhar”, como os ingressos pagos e o banho no cego. Parabéns pelos textos, pela criatividade, pela sensibilidade e, com toda essa repercussão, pela voz maravilhosa que você deve ter. Um abraço.

  12. É essa a ideia do blog, registrar outros olhares, muitas vezes além do meu… Obrigada, Thaís, por acompanhar o blog e deixar uma mensagem, um abraço para você também!

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