Desenhando um mundo para todo mundo

Sábado. Banheiro de um charmoso restaurantezinho aqui de São Paulo. Cris, que é cega, foi tateando procurar o botão da descarga do vaso sanitário. Procura daqui, procura dali, em cima do encosto, nas laterais, percorre a parede à volta e… nada. Tentou o quanto pôde e desistiu. Voltou para sua mesa, contou o episódio e alguém informou: “Ah, está no chão, perto da parede, do lado direito do vaso, é só acionar com o pé. Bem mais higiênico”. Ah, então, tá, ela pensou. “Ainda passei por mal-educada para a fila de pessoas que aguardava na porta. Afinal, era só pisar no botão, eu devia saber!”, comentou, irônica. Alguns dias antes, a Carolina, também cega, estava em uma padaria bacana em um bairro próximo e entrou no banheiro apenas para lavar as mãos: tateou a torneira e percebeu que não era a manual, giratória, então foi colocando as duas mãos embaixo dela, supondo que a abertura só poderia ser por leitura ótica. Nada da água. Tateou à volta toda. Voltou para a mesa e ouviu a mesma explicação: “É no chão, minha querida! Só apertar com o pé”.  A Cris e a Carolina dizem a mesma coisa: “Nossa, dá um desânimo, tudo pra nós demora tanto neste país, aí inventam uma novidade como se a gente não existisse…”.

Domingo. Comentei as duas histórias, que recebi por e-mail, com um pequeno grupo de conhecidos. Um deles concluiu: “Mas também vai fazer o quê, gente? Cada banheiro é de um jeito mesmo, as torneiras, os botões da descarga… é legal essa modernidade, essa criatividade. Alguém explica para o cego como usa e pronto!”. Todos concordaram com a cabeça.

Confesso que, às vezes, também desanimo. E, ingenuamente, ainda fico meio perplexa com esses comentários. Quem está, de alguma forma, ligado às questões das deficiências tem a falsa impressão de que o significado e a importância de termos como inclusão e acessibilidade já são bastante conhecidos. Não são e ainda temos muito chão pela frente.

Perguntei: “Alguém já ouviu falar de… Desenho Universal?”. Silêncio.

Desenho Universal é um conceito que ganhou força nos anos 1960 e propõe ambientes, projetos e uma infinidade de equipamentos e produtos para que TODAS as pessoas os utilizem com facilidade, conforto e segurança, sem necessidade de adaptação: crianças, anões, adultos altos e baixos, pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida (mobilidade reduzida não se refere somente aos cadeirantes – a expressão inclui também idosos, gestantes e obesos). Isso significa, só pra citar alguns exemplos, torneiras e botões de descarga de vasos sanitários com mecanismos facilmente identificáveis e acionados por QUALQUER pessoa; pias, tomadas, interruptores de luz e o papel toalha dos banheiros ao alcance da mão de cadeirantes e anões; maçanetas fáceis de pegar e abrir, sem esforço, por mãos de qualquer tamanho; portas mais largas para que cadeirantes e idosos com andador possam passar.

Em bares, restaurantes, prédios públicos, escolas, clubes, salas de cinema e teatro, shopping centers, supermercados e hotéis, a ideia é que o maior número possível de pessoas possa realizar suas tarefas rotineiras sem ajuda de ninguém. Como aconteceu com a deputada federal Mara Gabrilli, tetraplégica, que foi a um restaurante no Japão e, vendo a enorme fila de espera das pessoas para se servir, foi logo para o início, contando com a preferência a pessoas com deficiência, idosos e gestantes com a qual se acostumou aqui no Brasil. Um funcionário pediu a ela que voltasse e aguardasse sua vez no final da fila, já que o restaurante era totalmente acessível e obedecia às normas do Desenho Universal, com a bancada de alimentos na altura da cadeira de rodas. Além disso, continuou, ela já estava sentada mesmo, poderia perfeitamente esperar… No Brasil, o Desenho Universal é determinado em projetos arquitetônicos e urbanísticos por Decreto Federal desde 2004!

E o conhecido, autor do comentário do início deste post, ficou espantado com a explicação: “É mesmo, né? Nunca pensei nada disso! Eles querem autonomia como todo mundo, claro! Cego e cadeirante a gente ainda conhece um pouco, mas… anão? Ninguém imagina as dificuldades, nem que tem jeito de dar solução pra algumas delas!”. Existem muitos recursos e equipamentos inclusivos que melhoram e muito a vida das pessoas com deficiência e algumas atitudes que podemos ter em relação a elas que podem transformar a nossa sociedade em uma sociedade inclusiva de verdade: conhecer, acolher e respeitar as diferenças, o que também é um termômetro da evolução de um povo.

Para quem quiser entender melhor o tema, sugiro dois dos melhores portais brasileiros sobre deficiências: http://www.saci.org.br e http://www.bengalalegal.com. E o DVD “Na Ponta dos Pés” (TIPTOES), produção de 2003, filme que conta a história de uma bela moça que engravida do namorado alto e atlético e, depois, fica sabendo que a família dele é de anões. Resolve ter o filho contra a vontade do namorado. Com Gary Oldman, Kate Beckinsale e Matthew McConaughey. Assista que vale a pena.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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8 Respostas para “Desenhando um mundo para todo mundo

  1. Este seu trabalho tem uma importante função social mas é um trabalho de formiga, que parece exigir esforço educativo contínuo. Identifico-me com os leigos de suas histórias, que só conhecem o tema por meio dos estereótipos. Termino surpreso, por constatar tamanha ignorância de todos nós em relação a um comportamento que deveria ser óbvio para todos, e satisfeito pela aprendizagem tão prazerosa. Parabéns e estou bastante curioso com o filme dos anões, vou alugar o DVD.

  2. É mesmo um trabalho de formiga, Ricardo, e olha que já tivemos importantes avanços… Mas chegaremos lá! Obrigada pela visita e pela mensagem, espero que goste do filme! Um grande abraço.

  3. Lúcia Maria

    Sou cego e cheguei a este blog pelo blog da audiodescrição do Paulo Romeu.

    Para mim, o seu é mesmo diferente e o melhor porque fala do cotodiano da deficiência visual e aspectos pouco conhecidos, acredito qeu até mesmo por pessoas da área.

    Os textos são fáceis e muito agradáveis de ler, como histórias.

    Deixo mais um parabéns aos que aqui estão, li o blog inteiro e acredite que também aprendi um bocado principalmente sobre audiodescrição, sabendo como deve ser podemos avaliar bem melhor o que ouvimos em peças, seminários e filmes.

    Não sou de escrever para nenhum veículo, lido pouco com o computador, mas este blog vale a pena e muito, este do Desenho Universal é uma aula.

    Um abraço, continue sempre assim.

  4. Só conheço os anõezinhos da Branca de Neve que sempre pareceram felicíssimos.
    Um beijinho brincalhão, adoro seu blog.

  5. Olá, José Carlos, agradeço a visita e fico muito feliz que você tenha gostado do blog, é isso que faz valer a pena! Um grande abraço!

  6. Os anõezinhos da Branca de Neve sempre foram “felicíssimos” mesmo, Denis… A casinha deles era toda adaptada, com mesas, cadeiras e caminhas pequenas também. Não precisavam alcançar pias, botões de elevadores, produtos nas prateleiras de cima do supermercado nem adaptar roupas compradas em lojas infantis. Mesas e cadeiras altas dos escritórios também não, aliás não enfrentaram as dificuldades de ingressar no mercado de trabalho porque eram donos do próprio negócio! Vidão, hein? Um beijo!

  7. Lucia querida, seus textos são sempre fluentes e uma leitura muito agradável. Este, em especial, uma ótima reflexão sobre acessibilidade. Perdemos na sexta feira uma grande amiga, incansável batalhadora pela acessibilidade, Ana Paula Crosara de Resende. Ela tem um texto muito interessante “APARTHEID CONTRA A PESSOA COM DEFICIÊNCIA”, no qual discute essas questões. Eu escrevi um post em homenagem a ela e colei o texto lá no blog. Dê uma olhada: http://www.vercompalavras.com.br/blog/?p=863
    Beijo e parabéns pelo sucesso do seu blog.

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