Namorados

“Vou transar com ele amanhã”, comunicou, decidida. “Aleluia, demorou!”, respondeu a tia, sorrindo. Vinha nessa indecisão havia uns meses, desde que conheceu o grande amor da sua vida na faculdade. Os dois com vinte e três anos. Apaixonados. Ela, cega desde os dezenove.

Há quatro anos não tinha nada com ninguém e achava que nunca mais teria. Antes disso, namorava “e bastante”, dizia. E agora, como sentia falta! Bastou chegar perto dele, tocar sua mão e ouvir sua voz para se apaixonar. Ficaram amigos. Saíram. Teve pedido de namoro e tudo. Rolaram uns beijos, uns apertos e… ela parou por aí, insegura, cheia de dúvidas e medos, coisa que não aconteceu nem na primeira vez, quando era bem mais nova. Meio envergonhada, contou para as duas melhores amigas. Ficou um silêncio meio constrangedor, se arrependeu na hora pensando que sexualidade de pessoas com deficiência é meio tabu, incomoda, e aí ou é ignorada ou é ridicularizada. Uma delas disse pra ela ir mesmo, mas sem muitas expectativas, porque “homem… você sabe como é, né?”. A outra achou melhor não, “até ter certeza de verdade do amor dele”. “Pronto”, pensou, “voltamos ao século dezenove.” Quando elas, que enxergavam, ficavam a fim de um cara, iam sem pensar duas vezes. “Como eu, quando podia ver”, concluiu com tristeza.

Pior ainda foi ter contado à mãe, a essa altura do campeonato, e ouvir o conselho cauteloso:  “Vai devagar, filha, espera mais um pouco. Tem muito preconceito, é difícil um rapaz ficar com uma moça com deficiência, no fim quem se machuca e feio é você. E tem mais: sei que você vai contar pra despirocada da sua tia, então toma cuidado com as coisas que ela vai dizer pra não fazer besteira, tá? Ela fuma tanto daquela porcaria e há tanto tempo que um dia ainda aparece aqui toda verde, com umas antenas na cabeça!”.

Não deu outra: procurou a tia, cansada de opiniões que só reforçavam seus medos. Sabia que ela diria o contrário. Diria exatamente o que queria ouvir, daria o aval que precisava para fazer o que queria fazer.

“Mas ainda não rolou?! Não entendi a dúvida, é a primeira vez que uma menina da sua idade quer saber o que eu acho de ela transar. Achei que o problema estava em NÃO transar”, respondeu, divertida. ”Você entendeu, tia. Eu sou cega.” Com um copo de cerveja em uma mão e o cigarrinho na outra, brincou: “E daí? Nessa hora, na idade de vocês, ninguém enxerga nada mesmo! Para de pensar tanto e vai lá logo, se o mundo acabar no fim do ano, como estão dizendo, pelo menos você se divertiu!”. Mas a sobrinha ainda tinha muito que perguntar: ”E se ele me der um pé na bunda depois?”. A tia arregalou os olhos: “Nem parece que você tem vinte e três anos e faz uma faculdade, que conservadorismo é esse? Se der um pé na bunda, você entra pro nosso clube que já reúne, deixa ver… uns bons 99% das mulheres do planeta! Deixa de ser boba que, na sua idade, homem é como biscoito: caiu um, tem mais dezoito”…

Dava risada com aquela tia alegre, leve, simples e feliz. Gostaria de também ser assim. Quem sabe um dia porque, agora, só sentia um nó no estômago ao lembrar do namorado contando a ela o que a mãe havia dito ao saber que estavam juntos: “Mas, meu filho, você já pensou em como é que vai ficar a sua vida?”.

Mais uma pergunta à tia: “E se ele me trocar?”. Ela, fingindo preocupação: “Ah, meu Deus…”. E séria: “Tô te estranhando tanto, meu bem, você nunca foi assim. Tem homens e homens, mas acontece, ué, é um risco que todo mundo corre. E troca mesmo, ou porque tá gorda, ou porque é pobre ou velha, porque não é inteligente ou é inteligente demais, ou troca porque não enxerga e, acredite, porque enxerga demais. É assim mesmo, tem que ficar esperta e aprender a lidar com as coisas do mundo. E se tem uma coisa que eu aprendi, minha filha, é o seguinte: um homem, quando fica com a gente, fica porque gosta da pessoa que a gente é. Você é incrível, menina. Só não enxerga. Simples assim”.

Como era bom ouvir essas coisas… De repente, teve um sobressalto ao lembrar de novo da mãe do namorado, que havia dito a ela que o filho era bondoso como poucos. “Entendi”, pensou. “Só sendo muito bom pra aceitar namorar uma cega, não é? Vai ver, tenho de dar graças a Deus por ele estar comigo…”

“Nossa, você estava distante!”, continuou a tia. “Já pensou na possibilidade de… você não gostar?” Quem estranhou agora foi ela: “Como assim?” A tia revirou os olhos: “Tá vendo? Nem você considera a possibilidade de o sexo com ele ser meia-boca. À vezes não bate mesmo”. Ela riu: “Tia, você tem cada uma, eu amo ele e pelo beijo a gente já sabe. Eu vou é pegar fogo. E você, lembra quando foi que se apaixonou loucamente pela última vez?” A tia foi pra ponta do sofá e pôs as mãos na cintura: “Essa é boa! Eu tenho só 42 anos, tô bem longe de viver de recordações nessa área, viu? Eu ainda tô é na ativa, minha última lembrança tem menos de 24 horas!”. Riram.

Decisão tomada, já era noite e ela estava deitada no sofá, com a cabeça no colo da tia, que, carinhosamente, acariciava seus cabelos no escuro, no silêncio da casa. “Não tenha medo”, disse, baixinho. Vai dar tudo certo.” Ela: “E se não der? Vou sofrer mais ainda do que eu já sofri”. A tia deu um suspiro. ”E, como todo mundo, vai passar por mais isso também e não vai desistir. Esqueci de contar a outra coisa que eu aprendi: tem muita gente legal no mundo, muito cara bacana. E o seu me parece ser um deles.”

No dia seguinte, à tardezinha, lá estava ela, o coração aos pulos, caminhando com o namorado pelo corredor do prédio em que ele morava. Segurava a mão dela, gelada. Pararam em frente à porta do apartamento. “Tudo bem?”, ele sussurrou. Ela fez que sim com a cabeça. Ele a beijou. Entraram.

Já era bem tarde quando, do outro lado da cidade, a tia, com as mãos entrelaçadas em cima da mesa, olhava o telefone há horas. Finalmente tocou e ela correu para atender: “Alô!”, a voz apreensiva. “Tia, sou eu”, a voz trêmula. “Já estou em casa.” A tia foi disparando uma pergunta atrás da outra: “E aí, como foi? Tudo certo? Que voz é essa? Aconteceu alguma coisa?” E ela: “Aconteceu. Aconteceu que eu vou lembrar desse dia como o dia mais feliz da minha vida!!!”, disse quase gritando de alegria. A tia fechou os olhos, respirou fundo e sorriu.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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10 Respostas para “Namorados

  1. uma graça esta história, uma homenagem diferente ao dia dos namorados e, melhor, sem dramas nem pieguices. Adorei!

  2. Lúcia, bom dia.

    Podemos ver como alguns dilemas femininos ainda são os mesmos através das gerações, não? E como a sobrinha cega inspira mais preocupação e cuidados, até da tia “despirocada”, que incentiva o namoro mas não sossega enquanto não tem certeza de estar tudo bem com a moça. Crônica delicada e verdadeira. Um grande abraço!

  3. Olá, Teresa, você, sempre acompanhando e comentando os posts… Obrigada! É isso mesmo, o texto retrata o feminino, com seus preconceitos, anseios, medos e (ainda bem) a possibilidade de libertar-se deles. Um beijo!

  4. Olá Lúcia!
    Venho acompanhando seu blog e gosto muito dos seus escritos. Penso que eles poderiam ser mais frequentes por aqui.
    Essa história é fantástica pela forma em que foi narrada. Gostei muito!
    Grande abraço,
    Diniz

  5. Lúcia Maria, meus parabéns por este texto, nunca vi nada parecido sobre deficiência, estou lendo aos poucos o blog todo, é mesmo incrível. Um abraço.

  6. Diniz, é um grande prazer receber sua mensagem, fico muito feliz que acompanhe e goste do blog,muito obrigada e um grande abraço pra você também!

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