Vento azul em dia de sol

Era um desses dias lindos de sol com o céu muito azul, o frio do inverno entrando pela janela aberta do carro, que andava devagar pela estrada vazia, o Leo com a cara e o braço estendido pra fora e nós no banco de trás. Ele ia, finalmente, realizar seu grande sonho: saltar de paraquedas. Falava nisso desde menino. Economizou dinheiro durante um tempão, marcou no dia seguinte ao aniversário de dezoito anos e anunciou pra todo mundo. “Mas… ainda isso? Tu é cego, criatura!”, estranhou o Edevaldo, padrinho do Leo que fez questão de ir junto e agora dirigia o carro. “E daí? Eu vou sentir, que é meu jeito de ver”, respondeu o Leo. “Rá! Essa eu não perco por nada!”, havia dito o primo quando soube, um mala que também viajava com a gente. “Vai ser que nem aquele padre com os balões e olha que ele enxergava. Quero ver onde você vai descer, ou melhor, despencar, né? Se não cair em algum lago, vamos te achar pendurado no alto de alguma árvore, no meio do mato, gritando por socorro. Cuidado com onça e cobra, viu?”, gargalhou. A mãe, então, implorou até o último minuto pra ele desistir: “Não vai, filho, esquece essa loucura, pelo amor de Deus!”, a voz chorosa, passando nervosamente as mãos pelos cabelos e pelo rosto do Leo. Eu quis ajudar: “É muito seguro, ele vai saltar junto com um instrutor experiente, tem um treinamento rápido antes, ele quer isso há tanto tempo… E depois a gente vai também, pra qualquer coisa que precisar”. Ela me olhou quase com raiva: “É? E vão fazer o quê da terra, com ele lá em cima? Me diz!”.

O salto seria em uma cidade perto de São Paulo, faltava pouco. “Fecha esse vidro que tá um frio danado aqui dentro!”, ordenou o Edevaldo. O Leo obedeceu. Não é de falar muito mas, depois de um tempo, disse: “Sabe, eu acho que o vento é azul”. Achei bonito aquilo e olhei pra ele com ternura, mas, antes que pudesse responder, veio o primo: “E eu acho uma veadagem esse negócio de dar cor pra sentimento e tudo que é invisível. Igualdade que é branca, paixão vermelha, cego que parece ver o que ninguém vê. Cego tá em desvantagem mesmo, tem que ficar falando essas frescuras pra todo mundo achar lindo”. O Leo ficou sério na hora e o Edevaldo virou e olhou feio pro primo, mas não disse nada. Ainda bem, porque o Edevaldo é muito gente boa, mas tem pavio curto e é de meter medo: carrancudo, mais de um metro e noventa de altura, lutador de boxe e segurança de duas boates no centro de São Paulo. Vive dizendo, por qualquer coisa: “Sou é da Paraíba, terra de macho!”.

Pela estrada, o Leo foi ouvindo a descrição que eu fazia do céu, marcado por longas trilhas brancas de nuvens deixadas pelos aviões, das montanhas e pequenas cidades, dos barrancos, bichos e sítios. Ele ficava sorrindo, parecia criança de tão feliz, todo tímido, e eu pensei no dia anterior, quando ele ligou um pouco antes da meia-noite pra dizer que não ia conseguir dormir porque nem acreditava que a hora do salto estava chegando, que ia ser o dia mais emocionante e inesquecível de sua vida e perguntou: “Será que vai dar certo?” e eu respondi: “Já deu”.

Chegamos a um campo enorme e a movimentação era grande: grupos de paraquedistas com macacões coloridos, conversando em pé ou sentados em mesinhas na lanchonete, voltando ou saindo para o salto em vans que os levavam até onde estava o avião. No céu, pontinhos pretos distantes e alguns paraquedas abertos mais próximos. Eu ia contando e o Leo, sempre quieto, só sorria. Paraquedistas cinegrafistas gravavam o salto para o cliente, ele queria a lembrança e ainda sugeriu que começassem a fazer com audiodescrição, que ninguém ali nunca tinha ouvido falar. Quando percebemos, ele tinha virado o centro das atenções, todo mundo passava sorrindo, fazendo perguntas e desejando boa sorte.

O primo resolveu saltar também, ali, na hora. “Fica essa babação de ovo nele porque é cego, vai voltar todo borrado”, ironizou em voz alta, chamando a atenção de quem estava em volta. “Sempre foi medroso, chorão, um babaca!”, disse, pondo o pé na frente do Leo, que levou um tropeção. O Edevaldo dessa vez não aguentou e avançou nele, eu o segurei pelo braço. “Ui, que medo”, provocou o primo, não sem antes, por precaução, dar uns bons passos para trás. “Fio d’uma égua!”, murmurou o Edevaldo e, virando-se para o Leo, pôs as mãos em seus ombros e disse: “Vai, garoto, aproveita lá em cima e volta logo”. Tinha os olhos marejados quando o Leo o abraçou, agradecendo, emocionado: “Brigadão, padrinho”. O Edevaldo se afastou rapidamente, repetindo o bordão: “Tá bom, que eu sou da Paraíba e lá é terra de macho, não tem essa de homem chorando e se abraçando, não”. E apontando o primo: “E tu é folgado, se aprontar de novo, vai se ver é comigo”. Ainda ouvimos um dos instrutores dizer ao grupo de participantes, enquanto se afastavam em direção à van: “Não esqueçam que na descida, quando estivermos perto do chão, tem que relaxar as pernas e dobrar os joelhos de leve, deixa que o instrutor se preocupa com o pouso, ok?”.

Ficamos eu e o Edevaldo sentados, em silêncio, tomando uma cerveja e olhando o céu vazio, até que apareceu o avião e foram descendo uns pontinhos, meu coração acelerou e eu fiquei pensando qual deles seria o Leo e o que é que ele estaria sentindo. “Falaram aí que a queda chega a 200 quilômetros por hora. Troço de louco, eu é que não pulava nem morto, mas que é bonito de ver, lá isso é”, concluiu o Edevaldo.

Nem sei quanto tempo passou, atendemos pelo menos três chamadas da mãe querendo notícias e aí começaram a chegar os primeiros participantes, a maioria rindo, cabelos despenteados, os familiares, aflitos, indo ao encontro deles. E apareceu o primo, mancando, apoiado em um dos instrutores. Parou na nossa frente, olhos esbugalhados, boca aberta e retorcida, ofegante, mão sobre o peito. Abaixou a cabeça e pôs as mãos nos joelhos. O Edevaldo começou a rir que não parava mais: “E aí, isso tudo é medo, cabra? Tu tá tendo um derrame? Quem é que se borrou todo?”. As pessoas à volta riam também. O primo sentou e pediu uma cerveja, que tomou quase de um gole só. “Se eu tô assim, imagina o frouxo do Leo, vai ter que voltar de ambulância. Ainda por cima o meu instrutor é um jumento, caímos um em cima do outro na descida”, explicou assim que parou de ofegar. “Isso é o que a gente vai ver no DVD”, pensei.

E aí apareceu o Leo, tranquilo como sempre, sendo conduzido pelo instrutor. Conversavam animadamente. Estava em êxtase, nunca havíamos visto esta expressão em seu rosto. “O garoto aqui é parceiro, fez tudo direitinho, foi de emocionar a alegria dele, nem parecia o primeiro salto”, elogiou o instrutor. O primo se levantou, estufou o peito e abriu a boca para retrucar, mas o Edevaldo, do lado dele, avisou, baixinho: “Tô por aqui contigo, ‘rapá’. Se falar ou fizer alguma merda, lhe desço o braço na frente desse povo todo, tu é que vai voltar de ambulância, lhe juro por Deus. Tu acabe com essa ciumeira que tá parecendo menina”. Aí botou a mão no ombro dele  e empurrou pra baixo, fazendo ele sentar com força. Olhei e o primo só faltava espumar de tanta raiva.

O paraquedista que saltou com o primo contou, rindo: “O moço aqui deu trabalho, principalmente na descida, ele esqueceu as instruções e deixou as pernas esticadas e duras de nervoso, bateu primeiro que eu no chão, feito um toco de madeira, desestabilizou a gente, saímos capotando e rolando, embolados, uns bons metros pela grama, por isso ele tá mancando. Tá tudo gravado”. Todo mundo ria. “A gente põe no computador na primeira pisada na bola”, disse o Edevaldo, vingado. Já o Leo, alheio a tudo, parecia estar em outro planeta, em pé, sorrindo, com as duas mãos apoiadas na bengala e aquela cara diferente que durou pelo menos uns três dias.

Na volta, lá estava o Leo com a cabeça encostada na janela do carro, sorrisinho nos lábios, feliz, feliz. “Sabe o vento? É mesmo azul”, foi a única coisa que ele disse. O primo continuava mudo, de bico, braços cruzados. E eu, toda vez que venta muito em dia frio de céu azul, lembro dessa história.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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12 Respostas para “Vento azul em dia de sol

  1. Vejo que postou hoje mais esta crônica absolutamente criativa, delicada e deliciosa, adorei o jeito de falar do Edevaldo, ri muito! Gostaria de lê-las diariamente, embora saiba o quanto difícil deve ser, então, entro todos os dias no blog e, quando você publica, tenho a grata surpresa de encontrar texto tão agradável com um tema tão diferente. Parabéns, um beijo!

  2. Olá, Lúcia Maria

    Acompanho seu blog e gosto imensamente do que escreve, mas gosto especialmente da maneira como escreve. Esta história podia ser a história de qualquer um de nós, você mostra que a única diferença da pessoa com deficiência visual é que ela não enxerga. Se a aventura do Leo é cativante, o Edevaldo é impagável, parabéns!

    Um abraço

    José Augusto

  3. Boa tarde, Lúcia. Sou professora de Educação Inclusiva aqui em Porto Alegre e, assim como outros professores desta matéria que escrevem aqui seus comentários, venho dizer que utilizo seus textos em minhas aulas, são extremamente enriquecedores pois despertam grande interesse dos alunos pela simplicidade, sensibilidade, pelo inusitado, pelo diferente. Este certamente será o próximo, há neles várias questões a conhecer e explorar. Parabéns e um abraço.

  4. HISTÓRIA MUITO BEM ESCRITA, PRENDE A ATENÇÃO DO INÍCIO AO FIM, MESMO DE QUEM NÃO É LIGADO À DEFICIÊNCIA VISUAL. SOU GRANDE FÃ DESTE BLOG, É MESMO MUITO DIFERENTE. VALE O LEMBRETE DO RECURSO DA AUDIODESCRIÇÃO EM INFINDÁVEIS APLICAÇÕES, ATÉ MESMO NA GRAVAÇÃO DE UM SALTO DE PARAQUEDAS. GRANDE ABRAÇO.

    RICARDO

  5. Obrigada, Ricardo, pela visita e pela mensagem. São mesmo infindáveis as possibilidades da audiodescrição. Que bom seria para a pessoa com deficiência visual poder assistir também a seu salto e apreciar a paisagem, as expressões fisionômicas, os gestos, o céu e suas cores, os detalhes da queda e reviver esta grande emoção. Grande abraço pra você também!

  6. Que bom, Maria Eugênia, saber que os textos motivam e facilitam a compreensão dos alunos sobre tantos aspectos da deficiência visual! Obrigada pela visita e pela mensagem, um grande abraço!

  7. Pois é, José Augusto, pelo jeito o Edevaldo está roubando a cena (rs)… Obrigada por acompanhar o blog, um abraço pra você também!

  8. Não sou de escrever para nenhum tipo de mídia, mas neste caso não resisti, após uma amiga apresentar-me seu blog, poético já no título e muito elegante no visual. Parabenizo-a, sobretudo, por este especial dom de transformar episódios tão simples do cotidiano em histórias extremamente bem contadas, a narração é simplesmente fantástica, deliciosa; comove, faz rir e refletir. Um abraço.

  9. Lucia querida, já estava sentindo falta de suas histórias…. Todas boas demais, mas essa do Leo pulando de paraquedas, do vento azul, do primo agourento, tá formidável… Adorei!!!
    Beijos felizes, Lívia.

  10. Teresa, obrigada por acompanhar tão de perto e com tanto carinho o blog! Também gostaria de publicar mais vezes e prometo chegar lá… Um grande beijo!

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