As meninas

Elas estão no palco. Ao som de música clássica ou moderna, saltitam, rodopiam, braços em arco, uma perna lá no alto, corpos que se inclinam para a frente e para os lados, algumas com tanta graça e leveza que  parecem flutuar. Apresentam-se umas após as outras: sozinhas, em dupla com rapazes ou em pequenos grupos. Os movimentos são delicados, suaves ou determinados, quase sempre muito precisos. São lindas, as meninas. Lindas em seus collants e saias de tule bordados, brancos, pretos ou coloridos, em seus coques impecáveis com enfeites brilhantes, nos olhos marcados por muito rímel e sombras coloridas, nas maçãs do rosto acentuadas, nos lábios vermelhos. Maquiagem que não esconde a pouca idade – e, muitas vezes, nem a ansiedade…  De vez em quando, alguns passos cautelosos ao entrar e ao sair do palco, ou mesmo ao caminhar sobre ele, e só aí a gente lembra: as meninas são cegas! Em outros momentos, lembra também: “Como podem ser cegas?”, tamanha é a segurança e o domínio que têm sobre o corpo e, principalmente, sobre o espaço.

Um pouco antes do início, quatro das meninas, prontinhas, esperavam sua vez. Sentadas na plateia, última fileira à direita, no canto, conversavam, animadas, excitadas antes de mais uma apresentação. Continuaram conversando mesmo quando o espetáculo começou, mesmo com os fones de ouvido por onde vinha a audiodescrição da Lívia Motta. Mas, pouco a pouco, a conversa foi morrendo, os risos foram virando leves e encantados sorrisos e as meninas, em silêncio, cabeças baixas e um pouco voltadas para o lado, assistiram, pela primeira vez, às colegas bailarinas.

No saguão do teatro, também um pouco antes do início, um pai, com a mão no ombro da filha, comentava: “Viemos porque peguei um folheto da apresentação no semáforo. Quando li que era um balé de meninas cegas, me deu um nó no peito… Minha menina também faz balé”. Olharam um para o outro. O pai, emocionado. A filha, com um jeito de “êh, pai, não é pra tanto, não”…

O teatro, quase lotado. A plateia, atenta. O silêncio, só quebrado pelos (muitos e muitos) aplausos.

Esta é uma pequena homenagem à Associação de Balé de Cegos Fernanda Bianchini, único grupo profissional de bailarinas cegas do mundo.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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8 Respostas para “As meninas

  1. Devolvo a você um dos belos títulos de seus textos: O Teu Olhar Melhora o Meu.

    As Meninas aborda mesmo outros ângulos, outro olhar. Parabéns.

  2. Bom dia, Lúcia

    Conheci seu blog ontem, li As Meninas e Vento Azul em Dia de Sol, fiquei absolutamente encantada pela narrativa, sensibilidade e criatividade dos textos. Não existe nada assim na internet sobre deficiências, não que eu conheça e não desta maneira. Virei fã e pretendo ler todos os posts e atualizações. Os dois textos me emocionaram muito. Meus parabéns!

    Júlia Silveira

  3. Bem-vinda, Júlia, que bom que gostou do blog! Tem sido uma maneira de divulgar a audiodescrição e o cotidiano das pessoas com deficiência visual por meio de crônicas e pequenos contos. Espero, então, mais visitas suas, um abraço!

  4. Que texto mais lindo, não sabia que existia balé de cegas, muito menos sendo o único no mundo e no Brasil, sendo retratado aqui com tanta sensibilidade e delicadeza. Meus parabéns, um grande abraço.

  5. É um belo espetáculo que vale a pena ser visto! Agradeço a visita e a mensagem, Ângela, um grande abraço pra você também!

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