Vida de audiodescritora

Intervalo para o almoço em um grande congresso em São Paulo. O técnico de áudio do evento entra na cabine de audiodescrição e avisa: "Ó, cuidado aí, não apoia os braços na bancada com muita força, não, que uma parede tá fora de prumo e ela tá mal encaixada de um lado, cai mesmo, agora que eu vi"! Levanto os braços imediatamente, mãos espalmadas e dedos separados, enquanto olho, estarrecida,  notebook, garrafas e copos plásticos cheios d’água, equipamentos transmissores e a papelada com a programação do dia, um mundo de anotações, imaginando tudo aquilo vindo abaixo no meio de uma narração.

Também já aconteceu de a cabine ser instalada no andar superior de um auditório, impedindo que tivéssemos visão total da plateia  (já pensou se fosse uma assembleia, com as pessoas levantando os braços para a votação?). E, acreditem, já trabalhamos com a cabine na lateral do palco, o que dificulta imensamente a visão das imagens nos telões! Tem mais: outro dia, também em um congresso, retomei a narração pouco antes do início da primeira palestra da tarde, para descrever o auditório e citar os nomes das novas pessoas com deficiência visual que haviam chegado. De repente… cadê o som? Tudo mudo e, em seguida, entra pelo meu fone de ouvido um "alô, 1,2,3…"  Os técnicos de áudio do evento interromperam a transmissão porque também aproveitaram e foram testar seus microfones, é mole?

E os vídeos e slides dos palestrantes que, apesar de insistentes pedidos, raramente são enviados com antecedência para os audiodescritores? O jeito é o de sempre: alguém da equipe pega o material com os técnicos do evento assim que o recebem (a maioria das vezes pouco antes do início da palestra) e, pen drive na mão, sai correndo até a cabine, onde a descrição de cada imagem é feita rapidinho graças ao notebook – e fica pronta segundos antes da exibição nos telões para a plateia. Ufa! Isso quando o palestrante não entrega o material à técnica na hora de exibi-lo, quando já está no palco: "Vocês podem pegar aqui, por favor, e já começar a projeção"? Na cabine de audiodescrição, apenas olhamos uma para a cara da outra, contando com nossa experiência e com as horas de pesquisa, dias antes, dos temas apresentados por cada palestrante – sem isso, quem se arriscaria a descrever com os termos adequados fotografias de, por exemplo, novidades na área da robótica para pessoas com deficiência? E olha que estou falando de grandes e importantes eventos, bacanas, bem organizados, bem pagos e em São Paulo! Imagine o que não acontece por este Brasil…

Quem está no mercado vê, todos os dias, que, apesar dos avanços significativos, a audiodescrição está só no começo. A maioria das pessoas não conhece o recurso ou o conhece muito superficialmente; grande parte dos auditórios e teatros brasileiros não tem lugar adequado para a instalação de uma cabine de audiodescrição, que, muitas vezes, acaba mesmo tendo de ficar em um canto que não obstrua passagens nem, claro, ocupe o espaço reservado a cadeirantes. Os problemas só aumentam quando não é possível trabalhar com os profissionais de sempre, que fornecem os fones de ouvido, instalam a cabine e cuidam do som, já habituados à audiodescrição pelo tempo que trabalham com a equipe, porque o evento já conta com técnicos de áudio, muitos deles despreparados para o recurso e pouco dispostos a receber orientações. Um trabalho de formiga.

Pior mesmo é observar que alguns cegos recusam os fones de ouvido para a audiodescrição em seminários e congressos. Sempre perguntamos o por que e as queixas mais comuns são as sobreposições constantes de voz, principalmente por informações excessivas e desnecessárias; os erros primários, grosseiros mesmo, em relação à terminologia básica da deficiência visual; a narração truncada, sem fluência; longos períodos sem que o narrador diga nada, mesmo nos momentos de silêncio do palestrante ou enquanto ouvem-se movimentações no palco. Alguns cegos experimentam e, se não gostam, tomam a audiodescrição pelo audiodescritor e abandonam o recurso. Não criticam, não opinam, não cobram qualidade. Enquanto não começarem a enviar suas reclamações para as organizações dos eventos, não haverá mudança alguma, já que organizadores, em sua maioria, apenas contratam o serviço de audiodescrição: não acompanham nem avaliam o trabalho e, infelizmente, algumas vezes, levam mais em conta o preço do que a qualidade na hora da contratação.

Ainda não acabou: hoje qualquer um é audiodescritor, basta fazer um dos muitos cursos disponíveis no país que, por melhores que sejam (e poucos o são), são apenas um primeiro passo, já que têm duração mínima (um mês, no máximo?) e não são profissionalizantes! Digo que, como qualquer outra profissão, só existe uma maneira de aprender de verdade a fazer audiodescrição: fazendo. E fazendo no mercado, enfrentando desafios, imprevistos, procurando e ouvindo o público com deficiência visual sempre. "E dá dinheiro?", é a pergunta que mais tenho ouvido ultimamente. Respondo que dá dinheiro para pouquíssimos em todo o país, podemos contar nos dedos de uma mão os profissionais bem remunerados. No mais, algumas vezes você é quem dá seu dinheiro para conseguir alguns trabalhos, tendo uma margem mínima de lucro porque a audiodescrição ainda não é reconhecida nem valorizada como deveria,  pelo alto grau de complexidade e elaboração que exige. E, pra piorar, muitas vezes, na competição para conseguir trabalho, temos visto preços reduzidos a cifras aviltantes e, com isso,  todo o mercado é jogado para baixo e  vai ficando mais difícil, para um bom profissional, cobrar e receber um valor, no mínimo, justo.

Bom, termino contando o final da história da bancada mal encaixada na cabine de audiodescrição. Horas depois, continuava a narração quando, de repente, ouço duas pancadas fortes na parede lateral da cabine, que voltou para o lugar na hora, e o som alto e rasgado de uma fita crepe sendo puxada do rolo. Olho pelo vidro, espantada, e lá está o técnico, passando a fita pela junção da parede com o teto, garantindo que a bancada não despencaria e pouco se importando com o barulhão. Sorriso largo, de orelha a orelha, olhos brilhando, fez o sinal de positivo com o polegar, todo orgulhoso. Deus nos proteja.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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6 Respostas para “Vida de audiodescritora

  1. Lúcia Maria, que texto informativo e esclarecedor! Jamais poderia imaginar que este trabalho envolvesse tantas pessoas, tantos aspectos e detalhes! Parabéns por compartilhá-los, tenho um filho de 5 anos cego, e espero que ele possa apreciar ao longo de sua vida muitos seminários e espetáculos com pessoas que levam a audiodescrição tão a sério como vocês. Um abraço carinhoso.

  2. Tudo bem, Lucia?

    Gostei muito do texto, fiquei surpresa com a garra diante de tantas dificuldades, é a nada mole vida dos audiodescritores, não? Tenho algumas dúvidas e perguntas quanto a profissão, gostaria de escrever para o e-mail do blog, pode ser? Mais uma vez, parabéns, Outros Olhares é realmente especial. Um beijo!

    Teresa

  3. TEXTO FRANCO, BEM ESCRITO, LÚCIDO. ALÉM DA EXCELENTE NARRAÇÃO COM UMA VOZ MARAVILHOSA, AINDA SOMOS BRINDADOS COM IMPORTANTES E INÉDITAS REFLEXÕES SOBRE A AUDIODESCRIÇÃO. PARABÉNS.

  4. Certamente, seu filho assistirá a muitos e muitos eventos com audiodescrição de qualidade, Maria Eduarda! O recurso está só no começo e, apesar das dificuldades, tem muita gente boa trabalhando (e bem) para isso no país. Abraços carinhosos para vocês!

  5. Teresa, agradeço todas as suas visitas e mensagens! Fique à vontade para escrever seus comentários aqui e no e-mail do blog quando quiser, sempre serão muito bem-vindos! Um beijo!

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