Uma história só para você

Contei essa história para o João Vítor porque ele adora leões e quer ser veterinário. Tem oito anos e enxerga só um pouquinho. “Sabia que eu quase morri devorada por um leão aqui em São Paulo?”, exagerei. “Mentira, que não tem leão aqui no Brasil!”, retrucou. “Verdade, ainda tem no Zoológico e antigamente tinha em circo”, argumentei. Desconfiado, ainda fez um monte de perguntas: “Como você entrou na jaula? Eles são muito grandes? Você lutou ou correu?”, até acreditar e aí pediu: “Então, depois que você me contar você põe no blog?” Respondi que sim. Ele: “Promete? Só pra mim, com o meu nome e tudo”? Promessa cumprida: taí, João Vítor, a história dos leões só pra você.

Foi nos anos 1980. Eu e mais duas amigas, a Ju e a Lô, aproveitamos uma folga durante a semana e fomos conhecer o Simba Safári, um parque que existia em São Paulo onde os visitantes passeavam de carro entre os bichos soltos, inclusive leões. Uma espécie de JURASSIC PARK tupiniquim. Só os tigres, graças a Deus, eram separados do público por um enorme fosso.

Éramos muito jovens e tudo era motivo para piadas e risadas. Logo na entrada, funcionários pediram que abríssemos os vidros da frente do carro para que fossem encaixadas grades por onde poderíamos tocar os macacos, as zebras e até um camelo. Havia insistido com as meninas para que fôssemos na minha Brasília verde-musgo, um verdadeiro trator que, pelo menos até ali, jamais havia me deixado na mão. Logo de cara me arrependi, quando um casal de macacos começou a namorar no capô e três outros não paravam de martelar e esmigalhar pirulitos vermelhos sobre os vidros e a pintura do carro, enquanto as duas gargalhavam. Isso não foi nada, em pouco tempo haveria de me arrepender mil vezes mais dessa ideia de jerico que foi esse passeio. Por ora, ríamos de qualquer coisa; a Ju, que também era fotógrafa, ia no banco de trás, registrando tudo com uma supercâmera.

Até que, finalmente, nos aproximamos do tão temido território dos leões. As grades foram retiradas, os vidros levantados e uma fita adesiva colocada sobre eles, para garantir, depois de mil recomendações, que não os abriríamos de jeito nenhum. Em frente ao enorme portão que ia se abrindo, ainda vimos um jipe zebrado em preto e branco, com funcionários armados dentro. Uma placa que ignoramos dizia: “Buzine somente em caso de emergência” e nada disso nos tirou o humor e a tranquilidade, na beatífica ingenuidade da juventude que fez com que entrássemos naquele descampado como quem entra em um salão de beleza.

Lá dentro, a diversão continuou: os leões, uns vinte, mais ou menos, estavam todos deitados embaixo de algumas árvores, a uma boa distância do carro, naquele sol de meio-dia. Não deram a mínima para nós. “Nem vai dar pra fotografar do jeito que eu queria, eles bem que podiam andar um pouco, chegar mais perto”, a Ju falou. Quem chegou com o carro mais perto fui eu e desliguei o motor enquanto ela fotografava. Então, percebemos que os leões começaram a fixar o olhar no carro: não apenas dois ou três, mas todos eles. “Bobagem”, a Lô disse, “estão acostumados com um monte de carros todos os dias”. Só aí olhamos à volta e nos demos conta de que o único que havia ali era… o nosso! Nenhum outro visitante, nada do jipinho zebrado… Por isso tínhamos de buzinar em caso de emergência: os seguranças ficavam do lado de fora, vê se pode! A essa hora deviam estar almoçando e quando chegassem, com sorte ainda encontrariam a carcaça verde.

Silêncio, pela primeira vez desde que entramos no parque. “Não é melhor a gente ir indo?”, perguntou depois de um tempo a Lô, sempre sábia. Concordamos. Mas, ao dar a partida, quem é que disse que o carro pegou? Nhi-nhi-nhi-nhi-nhi uma, duas, três vezes e nada! Os leões começaram a estranhar aquilo e alguns já se levantavam. “Vai, palhaça, para com isso e vamos embora!”, ordenou a Ju, enquanto as três olhavam de olhos arregalados a chave na ignição. “Não tô brincando, não!”, respondi e o nervosismo me fez ir tentando até afogar de vez o motor. Justamente a minha Brasília foi dar uma dessa pela primeira vez no pior lugar possível! “É um tratorzinho esse carro”, a Lô começou a me imitar. “Uma carroça, isso sim!”, concluiu.

Acabaram de vez as risadas e as piadas. Resolvemos tentar manter a calma e pensar no que fazer. Não havia, na época, monitoramento com câmeras de segurança nem celulares. Estávamos ao deus-dará. “Não acredito que vamos morrer na boca de um leão no meio de São Paulo e em pleno século vinte”, resmungou a Lô. “Imagina, daqui a pouco o jipe passa por aqui”, a Ju disse, otimista. Mal terminou de falar e uma leoa se levantou, avançou rapidamente em nossa direção, rondou o carro e parou com aquela cara enorme encostada no vidro de trás do motorista, mexendo o focinho como se estivesse com cócegas e começando a arreganhar os dentes. Meu coração disparou e, paralisada de medo, só consegui olhar de soslaio para o retrovisor de fora, por onde só vi a pelagem espessa e bege. A Ju, que estava no banco atrás de mim, deu um pulo para a outra ponta: “Ai, meu Deus!”, murmurou com voz chorosa. “Tenta dar a partida de novo!”, gritou a Lô. Mais um nhi-nhi-nhi e os outros leões começaram a se movimentar também e, de repente, o susto de um rugido alto e forte, ali pertinho, foi tamanho que fez com que nós três déssemos um pulo e um grito gutural dentro do carro: “AAAAAAHHHHHHHHHHH!!!!!!”

Agora estávamos descontroladas: “Vou buzinar!”, gritei. “Pelo amor de Deus, não!”, gritaram de volta as duas, “eles já estão irritados só com o barulho da ignição, você buzina e eles surtam e pulam no carro, metem a pata no vidro e caem aqui dentro”!!! A essa altura, já estávamos cercadas por uns quatro leões, os outros chegando. Tínhamos de fazer alguma coisa! Quietas novamente, mal conseguíamos respirar. “Abaixa devagar todo mundo, eles não veem ninguém e desistem”, uma sussurrou. “Eles sentem o nosso cheiro, sua toupeira!”, respondeu também baixinho outra. E completou: “Sumir da vista deles é pior, aí é que vão debulhando o carro até achar a gente!” Não aguentei e, em um impulso, meti a mão na buzina, um biiiiiiiiiiii que não acabava nunca, enquanto olhávamos, desesperadas, para aqueles leões em volta, cada vez mais agitados. Nem sei quanto tempo se passou quando finalmente apareceu do nada o jipinho zebrado, que olhamos como se fosse Nossa Senhora de Fátima. Foi o jipe brecar e a leãozada se espalhou e voltou correndo pra debaixo das árvores. Dele saltaram dois brucutus armados com espingardas que poderiam perfeitamente participar do elenco de TROPA DE ELITE. Um dos homens chegou na minha janela e gritou: “Que é que tá buzinando aí?”, como se tivéssemos feito algo de errado. Nem sei como expliquei a situação, toda ofegante, ele rapidamente enganchou o carro atrás do jipe, enquanto o outro montava guarda, empunhando a arma e olhando para todos os lados, e lá fomos nós para fora, lentamente, imóveis, em silêncio, olhos esbugalhados e brancas como papel. Sei que ficamos assim uns bons dias.

“Então você ficou morrendo de medo?”, perguntou o João, rindo. “Eu não tenho medo de nada! Minha mãe diz que eu vou ter que ser forte e corajoso e eu vou ser como um leão!”, contou, todo orgulhoso. Dei um beijo e um abraço nele. Você já é, João. Você já é.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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4 Respostas para “Uma história só para você

  1. Que texto incrível, que aventura hilária, que doçura o final, o João e muitas outras crianças com deficiência visual são mesmo nossos leõezinhos fortes e corajosos. Adoramos seu blog.

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