Tenho trinta alunos e uma inclusão

Primeiro dia de aula de um curso de extensão sobre Educação Inclusiva em uma das melhores universidades do país, em São Paulo. A pedido da professora, os alunos, quase todos professores dos ensinos Fundamental e Médio, foram se apresentando: “Sou Fulana, dou aula na série tal, tenho trinta alunos e uma inclusão”; outra: “Tenho vinte e cinco alunos e três inclusões” e assim por diante, a frase repetida muitas e muitas vezes. Ao final, a professora chamou a atenção de todos para o significado do que disseram: “Essa inclusão que vocês citam não é um aluno, uma pessoa? Se não é um aluno, é o quê? Talvez… um alienígena?”. A terminologia é um poderoso  termômetro de como uma sociedade lida com as pessoas com deficiência e a terminologia inadequada, ainda que não intencional, cumpre apenas uma única e desastrosa função: a da exclusão.

Na mesma sala, ao longo das aulas, foi fácil a constatação de como são despreparados os nossos professores: sabem muito pouco sobre deficiências e quase nada sobre Educação Inclusiva. Audiodescrição? Nunca ouviram falar. Faltam-lhes embasamento teórico e, muitas vezes, vontade (o aluno com deficiência “é um transtorno”  e “atrapalha o ritmo de aprendizagem da classe” ), fora o trabalho extra, daí tanta resistência. Uma das alunas chegou a perguntar, toda esperançosa: “Posso recusar o aluno deficiente?” Aliás, termos como “deficiente”, “excepcional” ou “especial” são utilizados a rodo.

Os professores relatam que as faculdades de Educação abordam rápida e superficialmente a Educação Inclusiva;  que a dificuldade em trabalhar com alunos com deficiências intelectuais severas aumenta no Ensino Médio, quando há uma enorme cobrança da direção para que a escola tenha um bom desempenho no ENEM – como, então, dar atenção a um único aluno em detrimento de toda a classe? Só podem mesmo oferecer a ele a, como classificam, “inclusão social”… Afirmam também que, na prática, o próprio professor acaba sendo excluído do processo de Educação Inclusiva: sente-se incapaz de ensinar aquele aluno e não conta com a mínima estrutura nem orientação da escola, que simplesmente coloca as crianças na sala de aula sem sequer informar o professor sobre as deficiências. Acesso a laudos médicos? Também não tem e eu, aqui no meu canto, fico pensando se não é melhor que não tenha mesmo, já que, segundo educadores especialistas em inclusão, esses laudos costumam ser imprecisos e principalmente deterministas, perigosíssimos ao sentenciar “verdades” que podem comprometer uma criança por toda sua vida.

Depoimentos e histórias de preconceito e discriminação contra alunos com deficiência tenho tantos que poderia escrever dois dias inteiros sem parar, mas cito os três mais recentes: a de um dos melhores colégios de elite de São Paulo, que vai receber no próximo ano e pela primeira vez um adolescente com deficiência visual e solicita consultoria externa porque não sabe como ensiná-lo; na mesma escola, em uma recente viagem dos alunos para estudo do meio, a mãe de uma aluna exigiu que sua filha não dormisse no mesmo quarto que uma colega com deficiência intelectual: “Por que tem de sobrar para minha filha?”. Pior do que a exigência preconceituosa e desumana foi a escola tê-la acatado. Certamente, a filha desta senhora é quem estava sofrendo discriminação, não é? E em uma outra escola, onde uma professora, única a lutar pela inclusão, teve todos os seus materiais inclusivos simplesmente surrupiados de seu armário?!…

Tem ainda os pais que criticam a escola por aceitar alunos com deficiência! Reclamam que pagam uma mensalidade altíssima e não o fazem para que seus filhos convivam com “doidos” ou “retardados”. Mal sabem eles que seus filhos só têm a ganhar com a diversidade: aprendem sobre respeito, tolerância, solidariedade. São muitos os relatos de crianças que acolhem e auxiliam seus colegas com alguma deficiência, ensinando a brincadeira, ditando o que está na lousa, ajudando-o a locomover-se, explicando a matéria. Eis um potencial humano que, quando é possível ser exercido, acaba, muitas vezes, sendo destruído em pouco tempo.

Quanto a termos como “doido” ou “retardado”, nem é preciso ir tão longe, a agressão nem precisa ser tão óbvia para constatarmos que nosso discurso é recheado de termos inadequados pelo enorme preconceito que traduzem. Participei, há poucos dias, como audiodescritora da VER COM PALAVRAS, do Encontro de Gestores Públicos de Comunicação, realizado pela Secretaria Estadual de Direitos da Pessoa com Deficiência, evento que teve como objetivo mostrar como lidar, em atitudes e terminologia corretas, com as pessoas com deficiência. Cito alguns itens observados pelos palestrantes Maria Isabel da Silva, Gestora de Comunicação Institucional da Secretaria e Marcus Aurélio de Carvalho, radialista e professor de Comunicação: siglas devem ser utilizadas para instituições – PUC, USP – e não para pessoas;  a expressão “portador de necessidades especiais” não se usa também: alguém pode ter necessidades educacionais especiais, mas necessidade especial qualquer um de nós tem – por exemplo, tomar um sorvete fora de hora… É preciso evitar ainda expressões como “ele sofre de deficiência” ou “foi vitimado pela deficiência”, assim como certos diminutivos, que realmente diminuem a pessoa, como ceguinho ou coitadinho (essa, então, reforça superproteção e assistencialismo, o que produz um exército de pessoas com deficiência que exigem privilégios e não lutam por seus direitos ou por sua independência). E não custa lembrar: a cadeira de rodas é motorizada, nunca elétrica…

Para terminar, quero registrar que tenho cá comigo duas antigas necessidades especiais: a primeira, que o tema deficiência ganhe cada vez mais espaço nas ruas, que ultrapasse as áreas a ele restritas. A segunda, que todo mundo tenha um amigo, filho, pai ou conhecido excepcional  ou especial, que ande ou não, que enxergue ou não, que ouça ou não.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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12 Respostas para “Tenho trinta alunos e uma inclusão

  1. Lúcia, que triste situação! Se dentro da escola, onde deveria haver um sério compromisso com a educação para todos, vemos verdadeiras barbaridades e desrespeito todos os dias, imagine o descaso com a deficiência em outros setores da sociedade. Parabéns pelo texto, também aprendi sobre alguns termos que usava equivocadamente. Um abraço.

  2. Ângela, é mesmo muito triste tanta discriminação; ainda temos uma longa jornada pela inclusão e acredito que chegaremos lá – a história mostra como evoluímos até aqui. Então, vamos em frente, não é? Um grande abraço!

  3. Olá, Lúcia Maria.

    Não sei se está lembrada de mim, sou professora de Educação Inclusiva aqui no Sul e, mais uma vez, utilizarei seu texto para debate em aula, muito informativo, consistente e gostoso de ler. Seu blog é…especial (risos). Um abraço.

  4. Lembro sim, Isa, e agradeço mais uma vez suas palavras, fico feliz em saber que o texto chegará a (futuros?) professores, mais uma oportunidade para reflexão sobre as dificuldades da inclusão. Gostei do “blog especial”,rs, abraço!

  5. Tenho um filho autista que e’ incluido com sucesso numa escola publica – dos EUA. Ele segue bem o curriculo normal e tem uma acompanhante para garantir que ele nao fique “perdido” ou faca algo que atrapalhe a aula. Se quiser trocar e-mails, estou a disposicao.

  6. Lúcia querida, que saudade!
    Lendo seu texto me lembrei do prefácio escrito pela Françoise Dolto no livro da Maud Manoni:
    “Quantas energias sufocadas e desperdiçadas inutilmente e que poderiam ser deixadas em liberdade, com um sistema escolar que confirmasse em vez de infirmar o livre acesso às iniciativas e às curiosidades inteligentes dos futuros cidadãos, que os formasse para um domínio para eles mesmos, em cada instante carregado de sentido, das suas capacidades, a ordenação por obrigação ou por substituição perversa ao medo das sanções e imperativos impessoais”.

    Fiquei pensando que a situação das instituições de ensino no nosso país é mais grave ainda, já que aquilo que se têm é tão ineficiente.
    Parabéns pelo texto e pela coragem. Beijo

  7. Este prefácio traduz de forma brilhante a situação do ensino em nosso país, que é ainda pior quando tratamos da inclusão de pessoas com alguma deficiência. Obrigada, querida amiga, pela mensagem, um grande beijo pra você, Ricardo, André (pequeno poeta…) e Ana Rosa!

  8. É bom Lúcia saber que pessoas como você tem esse olhar especial, ainda bem que ninguem é igual a ninguem, isso é que faz a diferença!

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