Memórias

Meu tio ficava quase o dia todo na varanda, sentado em uma velha espreguiçadeira de madeira. Lembro-me da barba por fazer, das camisas claras e calças cinzas, dos chinelos. Às vezes, braço dobrado, tinha a cabeça apoiada em uma das mãos, semiaberta, os dedos  cobrindo parte da testa e um dos olhos. Lembro-me do seu silêncio e da sua solidão. Ele era surdocego.

Ao seu lado ficava a Laly, uma pequinês que avisava quando alguém entrava pelo portãozinho, porque meu tio sentia a guia da cachorra se agitar, amarrada que estava ao braço da cadeira. Ele, então, erguia a cabeça, curioso para saber quem era, mas o visitante passava direto e entrava na casa e isso era tão frequente que, nos últimos tempos, meu tio sentia a guia se movimentar mas continuava imóvel.

Imóvel como a cristaleira ou a mesa de jantar: ele já fazia parte da mobília, não era notado, sequer cumprimentado. Aproximavam-se apenas para escrever na palma de sua mão as palavras BANHO ou COMIDA, por exemplo. Eu, criança que era, e isso tem uns bons trinta e cinco anos, também lembro da mistura de respeito e pena que sentia, de não saber como lidar com ele, de não saber o que fazer ou mesmo se deveria fazer alguma coisa. Então, simplesmente saía correndo para voltar a brincar com os irmãos e primos. De vez em quando, algum adulto dizia: “Coitado! Mas é a vida, né? Vai fazer o quê?”  O que eu não esqueço, de jeito nenhum, é de nunca ter visto um único sorriso em seu rosto, uma única vez, em todos aqueles anos.

A lembrança de meu tio me veio à cabeça durante um recente e grande congresso em São Paulo sobre deficiências no qual trabalhei como audiodescritora. Fui informada de que havia alguns pouquíssimos surdos e surdocegos na plateia. “Um belo avanço”, pensei, e comecei a ouvir depoimentos, estatísticas e palestras que mostraram, mais uma vez, um quadro desolador de como as deficiências são tratadas no Brasil. Políticas públicas que, por mais bem elaboradas que sejam, muitas vezes não chegam a quem precisa. Pessoas que não existem para o Governo Federal simplesmente porque os municípios não as notificam. Equipamentos de tecnologia assistiva que ficam esquecidos em salas fechadas nas escolas, porque os professores não sabem como utilizá-los ou, pior, alegam que “não ganham para isso”. Um país que produz muitas deficiências, seja por erros ou negligência médica (isso quando existe assistência médica), seja por acidentes de trânsito ou violência urbana. Um país onde a burocracia impede que uma criança cadeirante receba uma cadeira de rodas adequada a sua deficiência antes que sua lesão piore. O prazo máximo solicitado pelo médico para a troca é de três meses? Não dá, porque o governo leva seis até concluir a licitação. A mãe procura a Justiça? O promotor informa que só o processo leva cinco meses!…

Fim do congresso. Ia pensando em tudo isso, meio desanimada, quando alguém me chama para ser apresentada a uma jovem participante surdocega, acompanhada por seu guia-intérprete. Olho a moça, morena, cabelos enrolados e compridos, fisionomia serena. Ela toca meu queixo enquanto falo, para sentir a vibração das palavras, e, então, abre um enorme sorriso que fica em seu rosto o tempo todo e na minha memória para sempre. Gargalha, segura minha mão, fala algumas palavras e eu observo, surpresa e muito, muito emocionada. Saio dali sorrindo também, feliz da vida.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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6 Respostas para “Memórias

  1. Lúcia, parabéns mais uma vez!

    Que belo texto!

    O consolo diante de tantos obstáculos é saber que avançamos do surdocego-mobília do passado, embora devam existir muitos milhares ainda, até a moça ativa, incluída e principalmente capaz de sorrir muito.

    bjs

    Teresa

  2. É isso, Teresa, olhar para o que foi conquistado é um consolo e um dos estímulos… Obrigada pela visita e pela mensagem, um beijo!

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