A descrição de imagens na linha de montagem

Ele chega em casa por volta das sete da noite, depois de trabalhar o dia todo. Toma um banho rápido, janta, "joga uma conversa fora" com a mulher e começa o trabalho diário de descrição de imagens em livros didáticos. Já está em frente à tevê e faz umas trinta enquanto assiste a Salve Jorge. Antes da meia-noite, já concluiu quase setenta imagens. Pesquisa daquilo que não conhece? Não faz. Consulta ao texto, determinante para que sejam utilizados os mesmos termos do conteúdo  na descrição e para detalhar informações que o estudante cego possa precisar para realizar os exercícios? Também não. O texto é ruim e, muitas vezes, incompreensível, pela falta de cultura e domínio da língua portuguesa, pelo desconhecimento de critérios básicos da descrição de imagens, pelo desinteresse e pela pressa, já que o pagamento é feito por imagem. No dia seguinte, liga para um amigo que está precisando de dinheiro e oferece o trabalho: "É tranquilo, eu te indico lá pra editora; você nunca fez curso mas é fácil, te dou uns toques, em dois dias você pega". Isso quando não divide algumas imagens com a patroa, para produzir mais. A mulher arregala os olhos: "Mas, como é que eu faço isso?"  Ele ri: "Vai falando o que você tá vendo. Olha esse aqui. O quê que esse menino tá fazendo? Tá jogando bola, não tá? Taí: menino joga bola em favela. Viu que tem uns barracos aí? E fala sempre no presente que não tem erro." A mulher: "As cores também?" Ele: "Não precisa, pra que que cego tem que saber a cor?" E pronto, a mulher também já "pegou". 

Em tempo: a imagem é um desenho de um menino negro ao centro, de cabelos crespos e armados, sorriso aberto sem os dois dentes da frente, de camiseta regata branca com pequenos furos, bermuda jeans com remendos e descalço. Tem os braços abertos, uma bola branca toda descosturada sobre um joelho dobrado, em chão de terra com um amontoado de lixo à esquerda, uma vala de esgoto no canto inferior direito e uma pequena viela atrás, com barracos dos dois lados. O exercício pede que o aluno responda a que classe social pertence o menino e quais são os elementos que a definem… Prefiro nem pensar em como são feitas as descrições de grandes obras de arte, mapas, fórmulas e equações para o Ensino Médio!

Este exemplo, real, ilustra a maneira com que são produzidas a maior parte das descrições de imagens em livros didáticos para o Ministério da Educação (MEC) no país. Comemoramos a lei em 2010 mas, até agora, infelizmente, não temos muito mais a festejar. O que vemos é um trabalho que transformou a descrição em legendas ou, no máximo, em grosseiros relatórios cheios de erros que, associados às dificuldades para fazer chegar o material ao aluno cego, constroem mais um triste retrato da realidade das pessoas com deficiência visual no Brasil.

As editoras, assim como a maioria das pessoas, conhecem quase nada do recurso, têm de cumprir a lei em um prazo apertadíssimo e contam apenas com um único modelo de descrição, estabelecido por uma grande, conhecida e influente instituição paulistana de atendimento a pessoas com deficiência visual, que também tornou-se uma verdadeira fábrica de descrições e que, infelizmente, já domina o mercado dos livros didáticos produzidos para o MEC. Este modelo foi construído para a produção de grande volume de imagens em pouco tempo e na contramão de princípios básicos da audiodescrição, que não passaria pelo crivo de nenhum descritor sério do Brasil nem de nenhuma outra parte do mundo.

Algumas editoras, desconhecendo a complexidade do trabalho, enviam funcionários a cursos de descrição de imagens para formar suas próprias equipes. Só tem um problema: não existem cursos específicos de descrição de imagens estáticas no país. Existem bons cursos livres de audiodescrição que incluem as imagens em sua grade e passam rapidamente por elas, já que são apenas um primeiro passo, uma introdução. Em uma semana, ninguém forma profissionais em descrição de imagens nem em coisa nenhuma. E a pergunta que deve ser feita aos professores que ministram estes "cursos"  e que exibem em seus currículos apenas diplomas universitários é: qual é a formação e experiência que têm em descrição que os habilita a dar aulas, além de um curso livre aqui, outro acolá e a leitura de alguma norma técnica?

A boa notícia é que pelo menos uma editora fez diferente: foi atrás de informação e apostou na qualidade. Contratou profissionais experientes em descrição de imagens e selecionou pouco menos de vinte descritores que passam por treinamento, acompanhamento diário e revisão de seus trabalhos, todos com formação superior e dedicação. Aprendem a importância de pesquisar, de apurar a observação, priorizar informações, utilizar as palavras exatas, localizar adequadamente no espaço os elementos visuais e a construir, cada vez mais, textos claros, precisos, harmônicos, sonoros, que facilitam a construção da imagem mental pela pessoa com deficiência visual. Contam ainda com consultores em Geografia, Matemática e Física. E o melhor: tornam, sim, perfeitamente possível conciliar descrições de qualidade e um prazo muito, muito curto.

A torcida é grande para que cada vez mais editoras façam o mesmo. Cabe ao MEC a responsabilidade pela qualidade das descrições de imagens nos livros didáticos e aos cegos a crítica e a cobrança por trabalhos cada vez melhores. Infelizmente, ainda estão longe de formar um público de consumidores exigentes. Em São Paulo, poucas são as críticas à audiodescrição na televisão, no cinema, em peças de teatro ou seminários (e estou falando da crítica formal a emissoras e organizadores de eventos), que dirá por parte de crianças e jovens estudantes cegos por esse país afora? A sensação que se tem aqui é que a grande maioria parece estar satisfeita só por haver o recurso, ainda que não seja de qualidade.

Quanto aos cursos livres de audiodescrição no país, e temos um atrás do outro e para qualquer interessado, o que fazem, na prática, é despejar dezenas e dezenas de "profissionais" no mercado, que, ao contrário do que se esperava, estão sim sendo absorvidos, bons ou não. Logo este mercado também estará saturado. Já passou da hora de reavaliar a periodicidade, o formato e a duração desses cursos. Que sejam de extensão, de aperfeiçoamento, com uma fundamental pré-seleção de alunos. Ganham, em primeiríssimo lugar, as pessoas com deficiência visual. E ganha uma profissão que está só no começo e já corre o risco de ser engolida por bandos de paraquedistas.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

 

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22 Respostas para “A descrição de imagens na linha de montagem

  1. PAULO ROMEU TEM RAZÃO, ARTIGO BRILHANTE, NÃO IMAGINAVA TAMANHO DESCASO COM TÃO IMPORTANTE QUESTÃO PARA OS CEGOS. MEUS MAIS ENTUSIASMADOS PARABÉNS. ABRAÇO.

  2. Lucia, bom dia.

    Simplesmente adorei este post, lúcido, claro, corajoso, necessário.

    Parabéns, estou enviando um e-mail para Outros Olhares.

    Um abraço.

  3. Bom dia.

    Faço questão de cumprimentá-la pela excelência e coragem deste artigo. Que situação absurda, embora em nada me espante, tratando-se de pessoas com deficiência. Parabéns, sou cada vez mais fã do blogue.

  4. Agradeço, Roberto, a visita e a mensagem, e espero continuar colaborando para que cada vez mais pessoas conheçam de perto importantes aspectos da audiodescrição. Um abraço!

  5. Obrigada, Maria Eduarda!
    Depoimentos dos leitores sempre são bem-vindos e, sim, viram material para crônicas e artigos.
    Um beijo!

  6. Obrigada, Patrícia, bom compartilhar tão importante questão com descritores e profissionais do meio editorial. Fiquei muito feliz com sua mensagem, um grande abraço!

  7. Parabéns! Que este artigo, com os absurdos conhecido há tempos pelos audiodescritores e pelos cegos mais atuantes em prol da causa da deficiência visual, ultrapasse o meio e chegue a muita gente e, principalmente, a quem tem poder para decidir a mudança. Vou divulg=a´-lo. Grata pela coragem.

  8. Adorei o que li pois sempre compartilhei disso. Felizmente pude atuar numa instituição séria onde fiz um excelente curso. Sou professora de Geografia e trabalhei com descrição de mapas. É um belíssimo trabalho, mas que exige conhecimento, pesquisa e muita responsabilidade. Infelizmente muitos se aproveitam da situação e o que tenho visto é surgir um verdadeiro comércio em torno dessa atividade.

  9. É verdade, Vilma, a audiodescrição exige conhecimento, pesquisa, excelentes texto e vocabulário, bom poder de observação e, acima de tudo, muita responsabilidade. Deve ser remunerada como qualquer outra profissão: o que é inadmissível e tem acontecido é que, por ainda não ser regulamentada e formar “profissionais” em uma semana, muitas vezes transforma o que deveria ser sério em um grande caça-níqueis. Obrigada pela mensagem, um abraço!

  10. Que texto excelente, lúcido e, infelizmente, profundamente verdadeiro. No mundo do caça níqueis, lamentavelmente,vale tudo para abocanhar fatia de um mercado incipiente e que já pode, desde o nascedouro, tornar-se viciado por uma produção de qinta categoria. Alerta de grande importância. Audiodescrição é tarefa profissional séria e requer sólida formação e conhecimento profundo de vocabulário a fim de tornar explícito em tradução verbal aquilo que outros olhares perspicazes percebem. Parabéns pelo blog. O conheci através do Blog da Audiodescrição e já me tornei fã.

  11. Lucia

    Ler esse post- e muitos outros – me deu uma saudade…

    Como todos os seus textos, esse está excelente!! Corajoso sem perder a elegância, claro e direto.

    Parabéns!!

    beijos
    Marta

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