O erótico, o pornô e a audiodescrição

“Mas quem é que faz esse serviço? Coisa horrorosa, isso não é coisa de gente decente, muito menos de mulher! É uma sem-vergonhice, isso sim!”, afirmou uma senhora indignada, com outras concordando com a cabeça, ao ouvirem trecho de nossa discussão, em meio a muitas piadas, sobre a audiodescrição em produtos audiovisuais eróticos e pornográficos em uma reunião familiar no começo do ano. Ficou aquele silêncio enquanto eu lembrava, com um certo sobressalto, que no dia anterior havia enviado a dois experts na área (na área da audiodescrição, que fique bem entendido) o modelo de um roteiro erótico (a bem da verdade, um pouquinho mais pesado que o erótico) e que, se estivessem ali e quisessem me chantagear, a hora era essa!

O roteiro foi solicitado por uma produtora do Rio de Janeiro há pouco menos de dois anos e novamente no final do ano passado, interessada que está em um gênero em que a audiodescrição inexiste formalmente no Brasil. E ainda combinaram pagar até quatro vezes o valor de mercado por uma suave “voz de travesseiro” que, obviamente, não pode ser conhecida como narradora em audiodescrição: afinal, como fazer AD em um congresso quando, na noite anterior, falava as maiores barbaridades nos ouvidos dos cegos com a mesmíssima voz?! Adeus, credibilidade… Ah, mas eles vão ter de separar uma coisa da outra, ouvi outro dia. Sei… Bom, logo depois da primeira proposta, recusada pelo pornô ser considerado um produto menor e sem importância cultural, comecei, aos poucos e durante um ano e meio, a olhar para o assunto com mais atenção e menos preconceito.

Os cegos que consultei informalmente querem filmes pornográficos tanto quanto homens e mulheres que enxergam e tanto quanto todos torcem pela audiodescrição em filmes, novelas, telejornais e minisséries na televisão, todas reivindicações mais do que legítimas. Outra: somos profissionais e não admitimos censura em relação ao nosso trabalho. E mais: a ideia é apenas elaborar um roteiro de audiodescrição e não atuar como atrizes. Então, pronto. Comecei a pesquisar histórias em quadrinhos, filmes e todo tipo de material erótico e pornográfico na internet, tomando o cuidado de minimizar a tela quando chegava alguém, o que não impediu que mais de uma vez vissem e olhassem com aquele sorrisinho e aquela cara de: “Pesquisa, hein? Rã-rã… ”. Precisava, principalmente, construir um repertório, encontrar o equilíbrio entre a linguagem que não ferisse os princípios da audiodescrição e, ao mesmo tempo, desse o tom adequado a esse produto. Nem termos formais ou médicos, nem o chulo que despencasse ladeira abaixo. E tudo estava resolvido. Até que um dos experts perguntou: “Você assinaria o roteiro?” Respondi que sim, claro, por que não? Mas, nessa conversa e em mais algumas depois, e tão informais quanto, com dois audiodescritores de São Paulo, fui vendo que a coisa toda pode não ser tão simples assim.

Começa que o audiodescritor que entrar no mercado pornô pode, por exemplo, ser discriminado por emissoras de televisão, distribuidoras de filmes e outros contratantes nas áreas de eventos e espetáculos ao vivo, principalmente se houver qualquer restrição ao gênero especificada em manuais de procedimentos internos ou códigos de conduta das grandes empresas. Soube que uma poderosa distribuidora internacional de filmes vetou em um roteiro a descrição de uma negra, temendo processos por racismo, tão comuns em outros países.

Um dos audiodescritores questionou a demanda por este gênero: será que tem mesmo tantos cegos interessados nestes filmes? Não se contentariam com o erótico? Uma audiodescritora emendou que mesmo o erótico já é cada vez mais pesado. Outra questão é até onde ir. Qual seria o limite? Depois de algumas modalidades básicas dentro do tema, o trabalho pode ficar cada vez mais constrangedor para muitos profissionais da AD, tantas são as bizarrices e perversões na área. Fora outro constrangimento, o de discutir termos e expressões do gênero com produtores de um meio profissional que, certamente, muito poucos estão dispostos a frequentar. A audiodescritora, inflamada, falava enquanto gesticulava batendo as costas de uma mão entreaberta sobre a palma da outra. O audiodescritor observava, sorrindo, até que a interrompeu e pediu: “Olha, você falando essas coisas e batendo uma mão na outra, assim… não faz isso, não”, e todos riram. No final, um deles concluiu que, se entrasse nessa, seria pelo dinheiro mesmo, ao que um terceiro retrucou: “É… as atrizes pornôs dizem o mesmo!”.

Enfim, longe de ser conclusiva, a questão é apresentada aqui como uma reflexão bem-humorada, com suposições e hipóteses diante de uma única e isolada proposta até agora, em um mercado incipiente que não temos ideia sobre como vai se configurar no país, se é que vai. Reportagem da BBC Brasil, de 9 de junho do ano passado, fala sobre a crise na indústria pornográfica norte-americana, com a concorrência dos conteúdos gratuitos da internet, a mesma que afeta cada vez mais os filmes convencionais e a música no mundo todo. Está aí o quadro.

Não pretendo elaborar AD para o mercado pornô neste momento e acredito que durante um bom tempo, mas ainda assim não tenho opinião totalmente formada sobre o assunto: não gostaria de fechar portas em nenhuma área em que a audiodescrição possa ser aplicada, haja ou não grande demanda para ela, e também não gostaria que outras portas fossem fechadas a profissionais sérios por trabalharem com audiodescrição em produtos pornográficos ou em quaisquer outros. Se os bons não fizerem, e a chance é grande, outros certamente o farão. E, infelizmente, já dá para imaginar de que maneira.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

Anúncios

16 Respostas para “O erótico, o pornô e a audiodescrição

  1. Pois é… se necessitarem de um consultor pra esses trabalhos…
    Bem, falando sério, creio que é contraditório ter discriminação por um produto que inclui. A questão é que se levarmos em conta que inclusive na novela das 21hs as cenas estão cada vez mais ultrapassando do erótico, talvez esse seja um genero emegente daqui a não muito tempo.
    Seja como for, não há nada mais importante do que a pluralidade e a variedade de produtos com AD a disposição das pessoas, para que se possa escolher entre consumir ou não. Eu acho importante até que a revista Veja seja audiolida, e olha que um filme pornô tem bem menos sacanegem do que no referido periódico.
    E,´fico imaginando como seria uma sessão de cinema com AD aberta, será que haveria público? hahaha

  2. Olá, Lucia.

    Continuo acompanhando seus textos, com esse jeitinho absolutamente delicioso de contar histórias. Você conseguiu transformar um tema espinhoso para muitos em uma leitura leve e engraçada. Nunca havia pensado sobre isso, assim como, acredito, muitas pessoas!!! Concordo com o leitor Felipe quando diz que é contraditório discriminar o que inclui e concordo também com todas as precauções que o bom senso pede que os audiodescritores tomem.

  3. Que bom receber mensagem sua, Teresa, quanto tempo! Vamos, então, refletir sobre mais uma aplicação da audiodescrição… Abraços!

  4. PELAMORDEDEUS, VAMOS DAR ESSA ALEGRIA PRA RAPAZIADA E QUE HISTÓRIA É ESSA DESSE CARA QUE DIZ OS CEGOS NÃO QUEREM??? É CLARO QUE QUEREM, AMIGO, EXPERIMENTA BOTAR UMA AD NUM FILME!!! VAMOS LOGO QUE A PROPOSTA JÁ CHEGOU, AGORA NÃO PÁRA MAIS. LÚCIA, ESTE É PARA PUBLICAR E ESTOU MANDANDO OUTRO SOMENTE PARA VOCÊ, MINHA QUERIDA.

  5. Vanderlei, rs, este texto é só uma conversa, é para começar a pensar na questão, não tem nada decidido e certamente a rapaziada vai ter essa e muitas outras alegrias… Espero seu outro email, rs…

  6. Boa noite, Lúcia.

    Venho mais uma vez parabenizá-la pelo blog, surpreendente; que texto interessante e bem contado!

    Acredito que o critério para a audiodescrição neste ou naquele produto não pode de maneira alguma basear-se no moralismo e vejo que o principal obstáculo que os audiodescritores enfrentarão serão possíveis boicotes a outros trabalhos, realmente lamentável se acontecer.

    É um produto de um mercado como qualquer outro e com enorme demanda conhecida por todos; produtos estes apreciados por homens e mulheres, cegos ou não.

    Tudo parece ser ainda muito recente no terreno da audiodescrição e os obstáculos maiores do que as conquistas. É preciso continuar refletindo, levantando questões e que bom ser for desta forma lúdica e leve que você faz como ninguém!

    Um abraço

  7. Roberto, concordo plenamente com você e gostaria de ver, em um futuro próximo, audiodescrição em todo tipo de produto audiovisual e a escolha deste ou daquele trabalho pelo audiodescritor baseada unicamente em oportunidades e/ou afinidades com este ou aquele gênero, sem nenhum tipo de censura. Espero, sinceramente, que possamos chegar lá. Por ora, é preciso conhecer e analisar este mercado específico que deve aparecer. Grande abraço!

  8. Olá, Lúcia Maria

    Lendo seu post, mais um interessantíssimo tema dentro da audiodescrição e sobre o qual nunca havia pensado, concluo que ainda vivemos em uma sociedade preconceituosa e hipócrita, na qual o pornô ou o erótico é constantemente estimulado e tem lugar garantido entre os videntes mas pode haver discriminação de bons profissionais ao tentar levá-los aos cegos. Gosto demais de seu blog,um abraço.

  9. É assim mesmo, Maria Eugênia… Talvez mais um desafio para os audiodescritores em um futuro próximo. Obrigada pela mensagem e por acompanhar o blog, um grande abraço!

  10. Acredito que haja outras prioridades e desafios dentro da audiodescrição que valham mais a pena e atendam à ânsia de cultura de um número muito maior de pessoas com deficiência visual. A escolha destes produtos pelos audiodescritores não deveria passar pelo receio ou não de serem discriminados pelo mercado em que já atuam e sim pela consciência de que principalmente o pornô é menor, sim e desnecessário. Quem escreve posts desta maneira, faz tantos seminários e outros ao vivo, já gravou tantos audiolivros e, na internet, A Contadora de Filmes, com uma voz densa, profunda e deslumbrante, já revela muito e toca a alma dos homens cegos sem precisar de mais nada, seria uma decepção. Um abraço.

  11. J.C., não seremos nós a determinar o que é que os cegos devem ou não assistir com audiodescrição. Também não somos nós quem estabelecemos prioridades: prioridade, para mim, seria a AD em toda a programação televisiva, aberta e a cabo, como forma de popularizar a audiodescrição pela principal fonte de lazer do brasileiro que é a televisão. O erótico e o pornô têm seu público e o mais importante é que os cegos tenham acesso a todo tipo de produto audiovisual,cabendo somente a eles a decisão de consumi-los ou não. Eu não poderia gravá-los porque sou locutora profissional há muitos anos e certamente comprometeria a credibilidade do meu trabalho. Agradeço mais uma mensagem e sua elegância e delicadeza de sempre, no final… Um abraço carinhoso.

  12. ESSE PESSOAL NÃO CURTE E NÃO QUER QUE NINGUÉM CURTA!!! PAREM DE FALAR E BORA SENTAR E ESCREVER, MINHA GENTE!!! VOCÊS NÃO VÃO FAZER NADA ALÉM DESSE ROTEIRO DE AUDIODESCRIÇÃO, LARGUEM MÃO DESSE PUDOR TODO!!! QUEREM UM ABAIXO-ASSINADO PRA BRASÍLIA???

  13. Boa ideia, Vanderlei! Você podia aproveitar tamanho empenho e incluir no abaixo-assinado o pedido de muito mais audiodescrição na TV e a melhoria na qualidade da AD nos livros didáticos, que tal? (rs)… Um abraço!

  14. Boa tarde, Lúcia.
    Não poderia deixar de comentar uma frase sua:
    “Eu não poderia gravá-los porque sou locutora profissional há muitos anos e certamente comprometeria a credibilidade do meu trabalho.”
    Enquanto ainda houver preconceito com conteúdo pornográfico, certamente a grande maioria dos locutores terão esse receio. Daqui há 10 ou 15 anos, porém, a realidade será outra.
    Muitos assuntos que hoje são abordados normalmente em qualquer roda de conversa, há alguns anos constituíam imenso tabu na sociedade. E assim as coisas evoluem.
    Espero chegar o dia em que nenhum locutor ou roteirista sinta alguma ameaça em sua integridade profissional por fazer AD em materiais pornográficos ou quaisquer outros.
    Afetuoso abraço,
    Diniz.

  15. Também espero que um dia isso aconteça, Diniz, embora acredite que deva demorar até mais do que isso. Por enquanto, a discriminação seria ainda maior em relação aos locutores diante da incompatibilidade de produtos: imagine ser, por exemplo, a voz padrão de bancos, hospitais e grandes empresas ao mesmo tempo em que se narra filmes pornográficos… O preconceito, muitas vezes, não é do profissional, esta é a realidade em que vivemos. Obrigada por mais uma visita ao blog e pela mensagem, um grande abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s