Em seu lugar

Não faz muito tempo, meu pai fazia sua costumeira caminhada matinal por uma calçada próxima à rua onde mora, em São Paulo. Tem oitenta e cinco anos de idade, é surdo desde os trinta e cinco e cego de um olho há quase sete: invisibilidade e discriminação multiplicadas por três. Andava lentamente e, para variar, sem a bengala. Mais atrás, pela rua estreita, vinha um dos muitos apressados e mal-educados motoqueiros que infestam a cidade, buzinando e tentando abrir caminho no trânsito parado. Diante do congestionamento e da fila de outras motos entre os carros, não teve dúvidas: subiu na calçada, continuou o trajeto e, sem parar de buzinar, passou raspando ao lado de meu pai, que levou um enorme susto, desequilibrou-se e por muito pouco não leva um tombo na calçada mal conservada.

Uns dias depois, em sua cadeira de balanço, contou a história naturalmente, sem um pingo de revolta ou mágoa, com alívio por ter escapado de um acidente possivelmente grave, misturado a um inédito tom de aceitação de quem já passou por tantas situações parecidas de desrespeito e, cansado do ringue, aprendeu que não vale a pena qualquer desgaste quando não há nada a fazer. “Pensei que ia ser assaltado”, disse, mergulhado na lembrança. Coloquei uma mão sobre a sua, ajeitei seus cabelos com a outra, forcei um sorriso tranquilizador e fiquei olhando para o chão. Ficamos os dois assim, um tempo.

No final do ano passado, mais um episódio entre tantos: o atendente do caixa preferencial da agência bancária onde ele tem conta não aciona o painel eletrônico que informa o número do próximo cliente a ser atendido, sabe-se lá o porquê. Em vez disso, prefere chamar o número: “14!”, ele grita. Estávamos lá e, assim que fomos atendidos comecei: “Tudo bem? Olha, desculpa, mas o painel eletrônico é pra ser usado; meu pai aqui é surdo e não vai saber quando chegou a vez dele se você só chamar o número. Mas, se não houver uma chamada por voz, eletrônica ou não, um cliente cego também não vai saber”. O atendente sorriu e concordou com a cabeça, constrangido, mas não disse nada. Hoje voltei à agência e, surpresa, constatei que o sujeito continua gritando o número, caso agora de uma reclamação à gerência e de um email para o banco. Fiquei me perguntando, perplexa, qual é a parte difícil de ser compreendida em uma situação que me parece absolutamente simples. Depois me perguntei por que é que eu ainda fico perplexa com essas coisas…

Em 2006, enquanto meu pai ainda não se conformava por ter perdido a visão de um olho e com medo de perder o outro, uma manhã saiu de casa e desapareceu. No final da tarde ligou minha mãe: “Seu pai sumiu!”. Eu não sabia o que fazer, não tínhamos a menor ideia de onde ele poderia ter ido. Estava saindo para procurá-lo quando recebi a ligação de uma secretária que dizia: “Aqui é da clínica oftalmológica tal, seu pai deu esse número, estamos fechando, só tem eu e ele aqui, todo mundo foi embora mais cedo e hoje não tem um táxi rodando na cidade”. Era uma segunda-feira, minha folga, e eu havia passado o dia em casa, sem querer saber de TV ou rádio. Estranhei essa história da falta de táxi em São Paulo e, enquanto anotava o endereço da clínica, liguei no noticiário da televisão e vi que o medo dos constantes ataques e ameaças do PCC ( a organização criminosa Primeiro Comando da Capital) havia deixado a cidade em pânico e absolutamente deserta naquele dia. Cheguei à clínica e lá estava meu pai, sozinho em um canto, exausto, depois de peregrinar por mais duas ou três durante todo o dia. Para chegar perto de compreender o que foi passar a ter mais uma deficiência, bastava olhar para ele.

Meu pai continua lúcido, ativo e independente mas acredita, perigosamente, que ainda pode fazer qualquer coisa sozinho; passei a ajudá-lo de uns dez anos para cá, driblando sua teimosia a duríssimas penas e cada vez mais preocupada com sua segurança e bem-estar. A única vez em que não consegui acompanhá-lo a uma consulta a um novo clínico geral, soube que havia sido tratado com uma grosseira impaciência pelo médico: “Mas o senhor veio aqui sozinho, sem um acompanhante?”, leu em seus lábios a pergunta irritada.

Há poucas horas uma amiga telefona: “Mas essas coisas ainda mexem com você?” e eu lembro que fiz esta mesmíssima pergunta a um amigo querido recentemente, durante uma viagem de volta a São Paulo. Respondo que ainda mexem um pouco, sim, embora venha lidando com elas a vida toda. A indignação diminuiu e minha reação agora é outra. Mas a tristeza, essa continua igual.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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10 Respostas para “Em seu lugar

  1. Esta é, infelizmente, a realidade das pessoas com deficiência. Não escondê-la torna-nos mais humanos e honestos e mostra que é preciso aceitar, lutar sempre e falar sobre dificuldades e limitações da mesma maneira como a superação é enaltecida. Você o faz com muita sensibilidade e torna este blog especialíssimo. Um forte abraço.

  2. Fico impressionado como é difícil as pessoas compreenderem coisas siples. Como é ífícil para um orgão público tapar o buraco de uma calçada, como é doloroso pra alguém dar uma simples informação. Vivi isso na pele a uns dez dias, pois tive uma queda bem feia e ainda sinto no corpo as marcas do que me aconteceu por causa de um byraco na calçada que todo mundo passa, vê e ignora. Eis o link de minha postagem: http://arteficienciavisual.blogspot.com.br/2013/01/porto-alegre-um-dolorido-modelo-de.html
    Portanto, o pior é perceber que isso acontece em todos os lugares e a todo momento, mas quem sabe um dia isso muda, é pra isso que a gente luta até o fim!

  3. Que depoimento contundente que impacta quem está longe deste tema e também quem está perto e prefere só falar das histórias heroicas e engraçadas. Fiquei também emocionada mas incomodada, é perturbador por ser uma realidade que falando francamente, ninguém quer olhar de frente talvez pela dor que provoca e pela sensação de omissão de todos nós. Que blog incrível este. Beijos.

  4. FICA TODO MUNDO SE ESCONDENDO E PORISSO NADA MUDA. EU JÁ FAÇO UM BANZÉ DENTRO DOS LUGARES AONDE NÃO SOU RESPEITADO E ESCREVO PARA DEUS E O MUNDO E ESSE POVO VAI FICANDO ESPERTO. VAI NESSA DE EDUCAÇÃO QUE NÃO VIRA NADA.SE EU FOSSE VOCÊ JÁ RODAVAUMA BOA BAIANA DENTRO DESSE BANCO QUE ELES IAM POR PAINEL, VOZ ELETRONICA E UM FUNCIONÁRIO PARA QUEM TEM DEFICIÊNCIA. SE VOCÊ NÃO FOSSE CASADA JÁ CASAVA COMIGO QUE EU TE AJUDAVA NISSO DIRETO HEHEHEHE! PODE PUBLICAR ESSE QUE NÃO TEM NADA DEMAIS, NE?

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