Audiodescrição para leigos

No último dia 25 participei, como audiodescritora da VER COM PALAVRAS, da cerimônia de lançamento do projeto de construção do Centro Paraolímpico Brasileiro, no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo. No final, recebo na cabine a visita de uma moça do Comitê Paraolímpico Brasileiro, curiosa sobre o que fazíamos ali e com uma vaga ideia de que seria algum trabalho relacionado às deficiências. Explico que a audiodescrição é a narração das imagens para pessoas com deficiência visual, que recebem as informações da cabine por meio de fones de ouvido quando feita ao vivo, processo igual ao da tradução simultânea. “Que coisa!”, ela se surpreende. “Achei que como os cegos só iam ouvir gente falando, não havia necessidade disso…” E conta que nos eventos do Comitê não há audiodescrição, apenas libras, embora a metade dos atletas paraolímpicos tenha deficiência visual! “Que coisa!”, foi minha vez de comentar…

O desconhecimento sobre a audiodescrição é grande até entre pessoas que atuam no meio. Mas noto que também são grandes a curiosidade e o interesse que desperta e, principalmente, a constatação final da enorme importância do recurso. Ainda que a compreensão de um evento como esse que mencionei não seja comprometida sem a audiodescrição, é imensamente ampliada quando o cego fica sabendo qual o tamanho e as características do auditório, que está lotado, com muitas pessoas em pé ao redor, quem são os convidados que estão chegando, como está sendo feito o trabalho da imprensa, como é a roupa da presidente, do governador e dos ministros, os sorrisos, os cumprimentos e toda a movimentação no palco, a reação mostrada pelas fisionomias dos políticos diante de relatos comoventes, piadas ou saias-justas, as pausas silenciosas por falhas no microfone ou demora na projeção de filmes ou slides no telão, que, aliás, também são audiodescritos.

Se ainda há interesse pelo assunto, vou em frente, contando que a audiodescrição é aplicada em filmes, exposições, shows, espetáculos de dança, desfiles de moda, livros e até partos e casamentos! “Então me descreve, vai…”, é o inevitável pedido que vem logo depois da explicação em qualquer roda de amigos ou familiares, pedido parecido com aquele que se ouve quando alguém domina um idioma pouco conhecido aqui como russo ou grego: “Ah, fala um pouquinho pra gente saber como é!”…

E as perguntas? Querem saber, principalmente, como descrever roupas e lugares e riem das próprias tentativas, quando utilizam gestos acompanhados pelas expressões: “a manga vem até aqui” ou “o banheiro é lá”, mas uma das mais comuns é saber por que o acompanhante não pode continuar contando ao cego o que está acontecendo, já que… “é tão mais fácil”! Respondo que o ideal é que a pessoa com deficiência tenha autonomia, independência sempre que possível e cada vez mais; e que esse direito a todo tipo de produto, informação e serviço é acessibilidade, garantida por legislação, pela tecnologia que equipara oportunidades e, principalmente, pela luta de milhares de pessoas no país, com e sem deficiência, que pegam um touro na unha todos os dias para colocá-la em prática. Agora, a pergunta campeã inclusive entre leitores do blog é: o que é preciso para ser um bom audiodescritor?

A resposta mais bem aceita tem sido que o interessado tenha, no mínimo, um curso superior em Letras, Comunicação, Filosofia e outras áreas afins, mas a questão ainda é controversa. “Cursos de audiodescrição têm de ser de nível técnico, para que haja a maior popularização possível em benefício dos cegos e que inclua, por exemplo, garçons e atendentes de lojas, supermercados e hotéis”, foi a sugestão apresentada no final do ano passado por um dos convidados de uma tradicional organização de cursos profissionalizantes, que reuniu audiodescritores em São Paulo para começar a formatar um curso previsto para 2014. Não é uma ideia isolada e por isso senti um arrepio na espinha. Claro que é necessário, sim, divulgar e popularizar a audiodescrição cada vez mais, o que certamente inclui treinamento adequado a atendentes e garçons, para que os mais variados produtos e ambientes sejam apresentados aos cegos da maneira mais completa e adequada, mas, para isso, palestras e workshops são mais do que suficientes.

Já a formação profissional de um audiodescritor para elaboração de roteiros em produtos culturais exige aprofundamento bem maior, em estudos contínuos e prática. Requer bom repertório cultural e pleno domínio da língua portuguesa só para começar, além de bom poder de observação e de síntese e conhecimento do universo da pessoa com deficiência visual e isso não são coisas que se aprendem da noite para o dia. Audiodescrever imagens dinâmicas como filmes, por exemplo, é bem diferente da descrição de imagens estáticas de livros, que têm especificidades que valem muitas e muitas horas de aulas e exercícios práticos.

Os cursos introdutórios livres e limitados a noções básicas – alguns deles muito bons, sem dúvida – proliferaram e deram a falsa impressão de que a audiodescrição, profissão não regulamentada, aparentemente simples e quase desconhecida no país, poderia ser aprendida em uma semana e por qualquer pessoa e muitos dos desastrosos resultados que vêm desse vale-tudo podem ser conferidos diariamente no mercado de São Paulo e pelo país afora.

Então sugiro aos leitores interessados não apenas em conhecer mas em trabalhar com o recurso, que desconfiem das promessas de “tornar-se um profissional”, “aprender a elaborar roteiros” e a “audiodescrever as mais variadas obras audiovisuais” em um dia ou em uma semana. Deve crescer o número de cursos de extensão ministrados por professores com boa formação teórica em audiodescrição e uma fundamental experiência de mercado. E não deixem de conhecer o Blog da Audiodescrição, criado por Paulo Romeu: referência na área, é completo e imperdível para quem busca notícias, artigos, agenda de cursos e eventos.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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14 Respostas para “Audiodescrição para leigos

  1. Concordo plenamente (mais uma vez)! Gostei da frase de que até uns que se dizem profissionais são leigos no assunto, hahah
    Pior do que isso é ver cursos de formação de audiodescritores que não contemplem as diretrizes debatidas pelos profissionais da AD. Embora a disseminação de seu uso em diversas áreas, como a Educação, por exemplo, ajuda a chegarmos até as escolas e formarmos um público desde cedo, o que futuramente minimizará essas situações complicadas e difíceis. Pelo menos é nisso que confio!!!

  2. Lúcia,

    Parabéns por mais este super artigo!

    Sobre o desconhecimento do comitê para olímpico sobre audiodescrição, isso pode ser verdade, mas preciso informar que o presidente do comitê, Mizael Conrado, é fã da audiodescrição. Concordo que, apesar disso, é preciso que as pessoas com deficiência, e os próprios dirigentes e organizadores das olimpíadas e paraolimpíadas que acontecerão no Brasil em 2014, reivindiquem a audiodescrição neste tipo de evento.

    Já sobre a segunda parte do artigo, em que você comenta a formação profissional do audiodescritor, só tenho a aplaudir! Realmente, cursos rápidos podem ser muito bons para informar sobre algumas técnicas da audiodescrição para quem não conhece o recurso, mas ninguém pode se considerar audiodescritor profissional com uma formação tão básica. E o pior é que começamos a ver pessoas despreparadas, ou com formação rudimentar se apresentando no mercado como profissionais de audiodescrição.

  3. Paulo, concordo e acredito que a divulgação e, principalmente, a solicitação cada vez maior da audiodescrição pelos usuários seja decisiva na implementação do recurso em mais eventos culturais e esportivos. Não é a primeira vez que ouço que a AD não é necessária em eventos totalmente “falados” e este equívoco deve diminuir, estamos só no começo e já tivemos avanços significativos. Agradeço a ilustre visita! Um abraço!

  4. lucia, pra variar, uma reflexão irretocável. copiei o felipe e compartilhei a postagem no facebook (ainda não tive forças de voltar pro twitter…). do jeito que as cousas vão, é indispensável que todos, colegas ou não, acordem pro perigo que são esses cursos livres que pretendem “formar” audiodescritores com programas irrealizáveis em cargas horárias insuficientes. é indispensável que o recurso se alastre, sim. mas, mais importante ainda, é que seja produzido por profissionais profundamente preparados.

  5. Reflexões como esta deveriam ser mais frequentes em mais sites sobre a audiodescrição, fico imensamente satisfeito porem surpreso que este blog seja o único a tratar de temas relevantes relacionados a audiodescrição.Texto de extrema importância na conscientização das pessoas que atuam ou pretendem atuar nesta área e que atinja os cegos que,como você diz no blog em várias ocasiões, precisam ser os primeiros a reivindicar este recurso e um recurso de qualidade. Parabéns mais uma vez, meu abraço.

  6. Concordo totalmente com você, Mimi, bom que já temos os primeiros cursos de extensão em AD. Chegaremos lá… Um prazer receber sua visita e volte para o twitter, com suas mensagens sempre muito espirituosas! Um beijo!

  7. J.C., sabemos que grande parte das pessoas com deficiência visual tem um histórico de não reivindicação de seus direitos, o que dificulta bastante a implementação de uma audiodescrição de qualidade no país. Agradeço mais uma visita e gostaria de fazer uma pequena ressalva: outros sites brasileiros abordam a audiodescrição com seriedade e profundidade, seja reproduzindo artigos e notícias, seja divulgando o recurso no registro detalhado de eventos audiodescritos. Um grande abraço!

  8. Bravo! Parabéns a Outros olhares, único blog e leitura que conheço que levanta e reflete sobre as questões mais difíceis e menos visíveis da audiodescrição com profundidade e respeito ou coloca o dia-a-dia da deficiência visual em delicadas ou comoventes crônicas. Parabéns ao Blog da audiodescrição de Paulo Romeu que incansavelmente divulga com seriedade e competência únicas tudo o que existe sobre a audiodescrição. Parabéns aos (poucos) professores sérios e experientes que executam um trabalho de formiga ao difundir e implementar a auiodescrição em um país com grandes obstáculos a serem vencidos no campo das deficiências. Meus cumprimentos, minha admiração, meu incentivo.

  9. olha que felicidade a minha, acabei chegando aqui de clique em clique navegando pela rede. Estou realmente admirada com a qualidade dos seus textos. Não conhecia o blog Outros Olhares. Aqui encontrei assuntos e reflexões que muitas vezes a grande mídia e outros portais não se preocupam em discutir.

    E neste post especificamente, concordo com a opinião do colega JC… texto tem extrema importância na conscientização das pessoas que atuam ou pretendem atuar nesta área! Parabéns Lucia, continue escrevendo!

    bjs

  10. Boa noite, Lúcia Maria,

    Tenho um familar que perdeu a visão há três anos e ficamos sabendo da audiodescrição, que ele gosta bastante, mas todos nós lamentamos que ainda tenha tão pouco.
    Também cheguei aqui navegando pela internet, sou leitora do blog há tempos mas hoje registro aqui como os outros acima minha admiração por tamanha sensibilidade e qualidade dos textos, ainda não encontramos nada parecido.
    Que mais sites e blogs abordem as questões cotidianas da deficiência visual com esta coragem, firmeza e ao mesmo tempo respeito e humor, sabemos que para o cego nem tudo são flores, muito pelo contrário, há muito descaso e preconceito e é isso que causa o sofrimento de quem tem deficiência.
    Que os bastidores da luta pela audiodescrição séria e de qualidade chegue a mais pessoas e a mais sites, além de Outros Olhares e Blog da Audiodescrição.

  11. Agradeço a visita e a mensagem, Maria Helena. A audiodescrição no Brasil está só no começo e já tivemos importantes avanços. A luta diária pela acessibilidade e especificamente pela audiodescrição envolve o trabalho sério de dezenas de pessoas pelo país, luta que acaba sendo invisível para a maioria. Mas também torço para a popularização cada vez maior das discussões que envolvem a audiodescrição. Fico feliz que acompanhe o blog, um abraço!

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