Os macacos gordos da audiodescrição

Venho adiando há tempos este post e confesso que por dois motivos: o primeiro é uma certa preguiça de abordar com mais profundidade um tema que, volta e meia, comento rapidamente no blog, às vezes acho que é imutável e sei que falar sobre ele é sempre caminhar em um campo minado e, segundo, pela ilusão boba de que se deixar quieto e simplesmente não pensar no assunto, ele vai desaparecer feito fumaça.

Bobagem. Não escapo e lá está ele feito um fantasma que, vira e mexe, volta: esta semana, na forma de um email da leitora Maria do Rosário, voluntária em uma instituição de atendimento a pessoas com deficiência visual, questionando o cada vez maior número de exigências e critérios para a formação de um bom audiodescritor, o que, segundo ela, restringe ainda mais o acesso de quem é cego a muitos produtos audiovisuais: “Com noções bem básicas, para quem tem segundo grau e nem que seja só para quebrar o galho mesmo, muito mais gente poderia fazer este trabalho e muito mais cegos iriam recebê-lo; para quem não enxerga será sempre bom, mesmo que não atinja o nível de qualidade que vocês querem. O importante é a ajuda a quem necessita e o amor no coração de quem se dispõe a ajudar. É isso que Deus quer”, ela escreve em um trecho.

Lembro das vezes em que ouvi de alguns cegos, no final de eventos audiodescritos: “Deus lhe pague por ajudar a gente!” e da surpresa e decepção que demonstravam quando respondia que estávamos sendo pagos: “Ah, não é voluntário?”, perguntavam, com um tom que faz com que qualquer audiodescritor desavisado se sinta um mercenário. Tem também algumas mães de cegos que vão quebrando um galho, enquanto engrossam o coro de que não é preciso muita formação para exercer a profissão, já que são audiodescritoras natas e um curso é mera formalidade: “Ih, minha filha, faz mais de vinte anos que audiodescrevo para o meu filho, bem mais que todos esses pioneiros aí”. Fora os pedidos que aparecem para encaixar um sobrinho ou afilhado desempregado na profissão: “Ele não é muito bom com as palavras, não, mas aprende rápido e gosta muito de ajudar quem precisa, viu? Vê aí o que você consegue”. Pronto, penso, mais um para o vale das almas da audiodescrição… E não faz muito tempo, ouvi de um grande conhecedor e defensor até a medula dos direitos das pessoas com deficiência visual: “Quer saber? Só de ter este recurso já está bom, mesmo quando é ruim quebra um galho e é melhor do que nada”. E eu, que achava que só macaco gordo é que quebrava galho…

O curioso é que, de encanador a advogado, ninguém pede a um profissional que trabalhe de graça e muito menos o contrata se sabe que ele apenas “quebra um galho”, ainda que seja bem intencionado, queira ajudar e tenha Deus no coração, então por que será que o audiodescritor pode ser meia-boca e deve exercer o voluntariado? A explicação é a mais simples do mundo: porque é uma atividade muito pouco conhecida e direcionada ao público com deficiência visual, em sua maioria pobre, sem instrução e que historicamente habituou-se e continua preferindo ter de graça produtos e serviços, ainda que ruins, a reivindicar direitos e lutar por autonomia. Acostumados que estão aos voluntários, contam eternamente com o favor do outro. Canso de ouvir bordões como “o pouco que a gente recebe já é muito” e “é melhor pingar do que faltar”. Não é de se espantar que, com isso, a audiodescrição ainda esteja engatinhando no Brasil.

E onde Deus entra no meio de tudo isso? Na mesma arraigada, histórica e aparentemente indestrutível ideia da necessidade de caridade para as pessoas com alguma deficiência, ideia sacramentada como exemplo de amor ao próximo e muito bem representada na clássica imagem das bondosas senhoras da sociedade, todas religiosas, com suas cestas cheias de alimentos para serem distribuídos aos ceguinhos desvalidos nas periferias das cidades.

Já saber o que Deus quer ou não quer foge completamente à minha alçada, avessa que sou a mandamentos em tábuas e intermináveis listas de proibições que atravessam os tempos e que considero muito mais humanas do que divinas, mas tenho cá comigo a impressão de que o que Ele acha mesmo é que deficiência não é sinônimo de incapacidade; que cegos precisam de igualdade de oportunidades e não de caridade e que têm direito aos mesmos produtos, serviços e informações de quem enxerga. E arrisco dizer que Ele sabe que exigir uma  base sólida, estudos da técnica e muita prática para fazer uma boa audiodescrição também não compromete nem exclui o cultivo do amor e da espiritualidade. Deus nada tem a ver com as barbaridades ditas e cometidas há séculos em seu nome e, garanto, menos ainda com os macacos gordos que andam por aí quebrando os galhos da audiodescrição.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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14 Respostas para “Os macacos gordos da audiodescrição

  1. Lúcia,
    Mais uma postagem forte e com percepções que incomodam, mas que precisam ser ditas.
    De fato estamos, nós cegos, habituados a ter produtos e serviços de graça, mesmo que de péssima qualidade. Não reivindicamos qualidade porque a sensação é de que, qualquer coisa que é feita direcionada a nós, é um mero favor da sociedade e das pessoas que se dispõem a fazê-lo.
    Isso me incomoda sobremaneira, porque esse costume histórico não afeta apenas a audiodescrição, mas a inclusão como um todo. Na informática, por exemplo, temos um determinado projeto brasileiro que tornou-se um dinossauro, já não há quase atualizações de relevância e o argumento é justamente esse: melhor ter isso do que nada.
    Pois eu já prefiro que a fonte seque. Com ela seca, seremos obrigados a ir atrás de coisa melhor. Enquanto pingam gotas de favores insuficientes e sem qualidade, nos acomodamos e deixamos as coisas como estão.
    Por outro lado, essa acomodação existe, em grande parte, por conta da postura de algumas antigas instituições para cegos, que fomentavam a integração: Primeiro preparamos essas pessoas, depois tentamos INSERÍ-LAS na sociedade. Hoje já temos uma evolução, notadamente sobre o conceito de inclusão e seu caráter dúplice. Mas mudar costumes de séculos é mais lento do que a nossa paciência pode suportar.
    Parabéns pelo texto, pelas percepções e principalmente por contribuir brilhantemente para a mudança desse cenário.

  2. Boa tarde, Lúcia Maria.

    Pouco tenho a acrescentar diante de tão contundente texto, que emocionou-me pela força, pela franqueza e pela alma que transborda pelas palavras.

    Sou mãe da Bia, ainda criança e cega, e escrevo pela primeira vez para parabenizá-la pelo blog torcendo para que em um futuro próximo, minha filha possa desfrutar de audiodescrição de qualidade em todo produto cultural que desejar sem achar nem por um único instante, que está recebendo um favor. Outros Olhares fez diferença para mim, obrigada e um grande beijo!

  3. JÁ QUE O ASSUNTO TAMBÉM É DEUS, GRAÇAS A DEUS ESSE BLOG SOBRE AUDIODESCRIÇÃO NÃO É FALADO POR QUE ESSE POST COM SUA VOZ E EU TINHA UM INFARTE DE EMOÇÃO AQUI EM CASA HEHEHE… BRINCADEIRA, FINALMENTE ALGUEM RESOLVEU MEXER NESSA CUMBUCA SEM SER MACACO GORDO!!!! SHOW ESSE BLOG!!!!!

  4. Lúcia Maria, que blog interessante e diferente com um assunto específico que é a audiodescrição, que raramente vemos discutido na grande mídia, ainda mais com esta qualidade na abordagem!

    Desejo que mais sites falem sobre as defici~encias da mesma maneira atraente e cativante,genial a associação dos quebra-galhos aos macacos gordos!

    Parabéns, um beijo!

  5. Também torço para que, lá na frente, a Bia e tantas outras crianças possam ter a sua disposição audiodescrição em todo tipo de produto audiovisual, Tereza! Obrigada pela visita, beijos para vocês!

  6. Lúcia, tu és genial!!!
    Infelizmente ainda existe a ideia de que a acessibilidade é algo menor como uma “gambiarra” que basta boa vontade e tudo certo.
    Mas cabe lembrar que a audiodescrição e a acessibilidade são DIREITOS, logo seu cumprimento é uma obrigatoriedade, conquistada com muita luta e cotidianamente. Mas, acho que opassou da hora de darmos um passo nesse caminho, pois sendo um direito agora a batalha é pela qualidade.
    O que eu fico pensando é que sendo eu audiodescritor, e for a uma emergencia de hospital e ver que faltam médicos será que eu posso me prontificar a operar os doentes só porque “faltam profissionais e eu tenho boa vontade”? Creio que isso não seria bom pra ninguém. Assim, já que a história é sobre macacos e galhos: cada macaco que fique no seu respectivo galho!

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