Origami – uma história de amor

A Isabel lembra que foi visitar a avó na casa nova, em um sítio no interior de São Paulo, quando tinha 14 anos. Totalmente urbana, até então só conhecia lugares bacanas de praia e montanha, que adorava. Estranhou tudo: a simplicidade, a quantidade de mato, o silêncio, os insetos e os bichos e, principalmente, o João, garoto cego que morava lá.

Ele era filho do caseiro, tinha sua idade e, passados alguns dias, ria a cada grito que ela dava: “Essa menina é uma tonta, tem medo de borboleta, mariposa e abelha!” Ela também passou a implicar com ele: “Tonto é você, caipira que nunca saiu desse sítio, o que é que você sabe do mundo?” Ele nem ligava e, sempre alegre e curioso, fazia um monte de perguntas sobre a vida na cidade grande: “Como é prédio? E televisão? Você vai pra escola de carro?”

Foram ficando amigos. Com ele, a Isabel aprendeu a pescar, nadar no rio, subir em árvore, andar no mato e, aos 16 anos, em um fim de tarde de céu vermelho e laranja, a beijar. Conta que foi mágico mas, boba que era, saiu correndo e sumiu um tempão da casa da avó.

O João mandou para ela um origami. “E como é que naquele fim de mundo ele aprendeu a fazer isso?”, pensou surpresa enquanto segurava a delicada dobradura azul. Dentro do envelope, também tinha um bilhete ditado para a avó que dizia: “Este é o tsuru, ave sagrada no Japão. Quem dobrar mil deles e a cada vez fizer um desejo, vai ser atendido. Volta, Isabel”. Ela pendurou o origami por um fio no teto e dormia toda noite olhando para ele.

Voltou um ano depois. “Meu desejo foi atendido”, o João disse assim que ela chegou. O feriado inteiro namorando dentro do rio e a Isabel guarda o tsuru dentro de uma caixinha até hoje, trinta anos depois. Não viu mais o João, mas lembra com saudade que, em uma daquelas noites, perguntou se ele havia feito os mil origamis. Sorrindo e abraçado a ela, respondeu baixinho: “Trezentos, só. Eu sabia que você ia voltar”.

outrosolhares@terra.com.br

@outrosolharesAD

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8 Respostas para “Origami – uma história de amor

  1. Embora os artigos sejam únicos e excelentes, já estava sentindo falta da crônica que abre um oásis em meio à aridez da realidade dos temas audiodescrição e deficiência visual. Outros Olhares brinda-nos com a leveza de histórias tocantes com uma narração absolutamente envolvente, o grande diferencial em todos os textos que publica. Sempre um grande fã, um abraço.

  2. Linda história, Lúcia! Senti falta até de uma continuação. Acabou rápido de mais para um namoro de 30 anos atrás. Risos.
    Como disse a Teresa, uma história dessas que não se contam mais. Sinto falta de ler coisas assim. Obrigado por presentear-nos com seus belos textos!
    Afetuoso abraço.

  3. Eu tenho sorte em ter leitores tão generosos…
    Diniz, esta crônica foi feita com exclusividade para o Jornal CONVIVA, da ADEVA, do qual sou colaboradora, e como o espaço para publicação é bem pequeno, optei por focar esta primeira paixão e a saudade do amor, representado pelo tsuru na caixa, tantos anos depois.
    Abraço carinhoso!

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