Feche os olhos

Dia desses  me chamou a atenção um pequeno texto escrito por Alexandre Nunes, cego, e publicado no site português sobre deficiência visual Ler Para Ver, em que ele fala do preconceito que sofre quando o assunto é sexo, desde a curiosidade sobre como é para ele estar com uma mulher até a dúvida de um amigo que chegou a perguntar como é que conseguia encontrar a… entrada sendo cego!

Já um amigo querido, que também não enxerga, contou que não faz muito tempo recebeu email de uma estudante que apaixonou-se por um colega de faculdade cego. Ela disse que na primeira vez que ficaram juntos, descobriu que ele era virgem e, mesmo tendo mais experiência, não soube o que fazer e então não fez nada. Escreveu pedindo ajuda. Eu até agora não entendi direito onde foi que a coisa pegou para ela, já que estavam quase lá: se na cegueira, na virgindade ou na combinação das duas. O pior é que esse meu amigo diz que mais um pouco teria se tornado consultor sentimental e sexual, tamanha a quantidade de dúvidas que já recebeu nessa área. A sexualidade das pessoas com deficiência é mais ou menos assim: ou é vista de forma equivocada, ou é ignorada ou ridicularizada.

"Quem disse que uma pessoa não pode ter uma vida amorosa e sexual satisfatória somente por não enxergar?", pergunta a leitora Rita de Cássia, de 31 anos e cega desde os 11. E continua: "Claro que o preconceito com a deficiência torna a aproximação mais difícil mesmo, principalmente para as mulheres e pelo menos nesse mundo oficial em que todos têm de ser perfeitos como no Facebook! Ainda que apenas 1% da população mundial corresponda ao padrão ideal de beleza, por exemplo, boa parte dos 99% restantes passa a vida sofrendo, tentando se encaixar nele"…

Ela tem razão. E parece ser assim com tudo, a vida sendo guiada por padrões idealizados ou estereotipados, crenças, fórmulas e estatísticas aceitos como verdades inquestionáveis  e aplicáveis a todo mundo. Outro dia, uma amiga veio dizendo que os 30 anos são a última chance de uma mulher para namorar homens da mesma idade e escolher parceiros mais velhos com facilidade. "Homens de 30 querem mulheres de 30. Os de 40 também, assim como os de 50", diz, desanimada. Tem mais uma estatística que li há tempos e veio não sei de onde mas que também é muito popular:  é mais fácil uma mulher sofrer um ataque terrorista do que se casar depois dos 50 anos!

Rita de Cássia diz que é atraente e vaidosa, mas até mesmo no teste da obra sofre preconceito. Mais essa: o teste da obra que, para quem não sabe, é passar em frente a uma construção e esperar a reação dos operários – funciona como uma injeção na autoestima feminina. Ou não. "Sabe o que eu ouço? ‘É cega  mas é gostosa’, e eles ainda acham que estão elogiando!", ela diz, bem-humorada. Detalhe: passa pela obra apenas porque está no seu caminho. Porque  já vi mulheres aparentemente bacanas e inteligentes sofrendo de verdade ao dizerem que começaram a ficar invisíveis para os homens depois dos 40 e, por mais bonitonas que estivessem, acharam melhor nem passar pela obra com medo de não ouvirem absolutamente nada, dá para acreditar?

Mas, voltando à questão inicial de como é o sexo para as pessoas cegas, meu amigo que recebeu o email da estudante dá a explicação mais simples do mundo: "É como transar no escuro, aliás, preferência de muita gente que enxerga!" Então vamos a outra pergunta: como é o desejo para um homem cego, se pensarmos que a excitação masculina é estimulada principalmente pelo visual? Ele responde que o desejo é o mesmo, tem a mesma intensidade, só vem pelos outros sentidos: "Ao conhecer uma mulher, ouvimos sua voz, pelo toque temos a textura da mão, dos braços e cabelos, no abraço sentimos o corpo e o cheiro. E tem o beijo! Quando acontece, é ele que decide tudo". E dá uma dica para quem enxerga: "Na próxima vez em que estiver namorando, feche os olhos. E beije, ouça, toque, sinta a pele, as formas… É assim".

Acho que ele leva o maior jeito para consultor sentimental. E acho também que deveríamos fechar os olhos para as inúmeras mentiras que parecem verdades, nas quais acreditamos piamente, repetimos feito mantras e que atrapalham tanto a vida da gente. A Rita conclui: "Minha vida eu vivo do meu jeito. E me jogo mesmo, não fico escondida, não. Lido com o preconceito que existe e magoa muito, mas, lá na frente, encontro tanta gente real, legal e interessante que sempre vale a pena".

Para encerrar, um trecho extraído do belo texto Homens e Mulheres, que está no site Banco de Escola, da psicóloga e educadora Elizabet Dias de Sá, ela também cega: "… Não raro, situações prosaicas convertem-se em cenas toscas e grotescas nas quais homens e mulheres criam e frustram expectativas. Neste sentido, mulheres cegas costumam ser abordadas de forma pueril e dessexuada, tornando-se invisíveis na trama de erotismo e sedução. Pobres homens! Não sabem o que dizem e o que fazem, deixando fugidia e longínqua a sensualidade pulsante de fêmea e ninfa".

email: outrosolhares@terra.com.br

twitter: @OutrosOlharesAD

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8 Respostas para “Feche os olhos

  1. Boa noite,

    Verdadeiro e oportuno este texto. Minhã irmã mais nova é jovem e cega e apesar do enorme preconceito que enfrenta no terreno amoroso, e infelizmente é sempre mais difícil para as mulheres, não deixa de sair, passear e viajar e de ser feliz.

    Recentemente começou a namorar um rapaz cego com quem está muito feliz e nós todos também.

    Nunca deixamos de incentivá-la a gostar de si mesma e deixar de lado expectativas irreais e crenças equivocadas que acompanham as mulheres cegas ou não durante toda a vida.

    Adoramos este texto, realmente leve e motivador.

  2. Lúcia, gosto imensamente de suas crônicas, das quais sinto falta por que são sempre muito interessantes pela forma da narração e na reflexão sobre aspectos que nunca são abordados. Nesta gostei particularmente da abordagem que inclui a todos como alvo de preconceito, independente de terem ou não alguma deficiência. E somos todos responsáveis pela perpetuação desse preconceito, em que acreditamos e do qual muitas vezes não conseguimos escapar. As mulheres são mais vitimizadas, que venham mais Ritas com seu inconformismo e capacidade de enfrentamento. Um forte abraço.

  3. Lucia, que delícia de post! É como bater um papo em uma roda de amigas, com esse jeitinho leve de falar sobre assuntos sérios que de leveza tem muito pouco! Este blog vai muito além da audiodescrição, fala de sentimentos, do humano, da vida e serve para todos nós. Gostei do post e mais ainda do seu amigo, quanta sensualidade em suas palavras e dicas!!! Um beijo !

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