A audiodescrição na teoria e na prática

Primeiro dia do evento de consulta regional “Deficiência e Desenvolvimento”, realizado semana passada em um hotel aqui de São Paulo. Auditório cheio e vários cegos, todos com seus fones de ouvido, prontos para receber a audiodescrição. Dois deles, porém, e justamente dos que atuam politicamente na luta pelos direitos das pessoas com deficiência visual, usavam os fones pendurados no pescoço a maior parte do tempo – e não é a primeira vez que acontece.

Durante o intervalo para o almoço, uma militante bastante conhecida e respeitada na área levantou a lebre: "Deviam dar o exemplo. Reparem que o discurso é forte e lindo na defesa e no incentivo à audiodescrição, mas, na prática, quase não utilizam os fones". Fui listando, então, as principais respostas que já ouvi de cegos sobre a resistência ao recurso, embora a grande maioria goste imensamente: alguns acham que em palestras a audiodescrição não é necessária; outros não fazem questão, habituados que estão a não conhecer os elementos visuais que estão à volta ou contando com as informações do acompanhante; há também o caso dos cegos que não se acham cegos, portanto e obviamente, não precisam… Já a audiodescrição ruim é motivo mais do que suficiente para tirar os fones, mas, quando feita com seriedade e qualidade, como reconhecidamente o é em quase todos os grandes eventos voltados às deficiências que são realizados em São Paulo, fica difícil mesmo saber o motivo. Então, além da curiosidade, fica a sugestão: senhores militantes da questão da deficiência visual, utilizem os fones ainda que desligados, pelo menos por uma questão de coerência e antes que a coisa se espalhe…

Teoria e prática também estão distantes no mercado da descrição de imagens em livros didáticos. Cito como exemplo o único lugar em São Paulo e um dos pouquíssimos do país que vem tentando fazer um trabalho de qualidade para o MEC: uma editora que contratou profissionais experientes para ensinar e acompanhar as descrições elaboradas por um grupo de vinte pessoas, todas com formação superior. Foram muitas aulas, muitos exercícios, muitas dúvidas e muitas correções em um trabalho gigantesco no ano passado. Os prazos apertadíssimos para a entrega de grande volume de imagens revelaram, na prática, o que a teoria não previu: quanto maior a qualificação do descritor, menos disposição tem para tantas imagens, em um trabalho ainda muito mal pago e bem mais complexo do que imaginava quando saiu de um dos cursinhos de audiodescrição de 40 horas… O resultado é que são quase sempre os menos qualificados que produzem muito e rapidamente, tornando o processo contraproducente, já que a maioria das descrições precisam ser refeitas e a toque de caixa.

É também na prática que ficamos sabendo que, apesar de a audiodescrição ser absolutamente fundamental para quem não enxerga e de já ter tido muitas conquistas e avanços, a maioria dos cegos não luta por ela e, como ouvi recentemente de um amigo, “nem vai lutar”. Um outro amigo, também cego e grande apreciador e incentivador do recurso, afirmou que nossa geração está apenas plantando a semente e que, sendo realista, haverá AD em larga escala em um prazo de quinze, vinte anos. Na prática, vemos pessoas que atuam no meio das deficiências perguntando por que tamanha estrutura para audiodescrição nos eventos se, algumas vezes, comparecem “somente um ou dois cegos”! E é na prática que temos um programa de rádio voltado ao público com deficiência visual que, recentemente, inventou de brincar de falar sobre audiodescrição com quem brinca de fazer audiodescrição…

Aproveito e deixo aqui as boas-vindas oficiais do blog à Tagarellas, nova empresa de audiodescrição de Porto Alegre, responsável pela AD do premiadíssimo filme Colegas, uma moçada talentosa e raçuda que, junto com a Mil Palavras, também de lá, da Ver com Palavras e  Iguale, aqui de São Paulo, Bell Machado, de Campinas, Lavoro, do Rio de Janeiro, e Midiace, de Belo Horizonte, forma um baita time de audiodescritores de verdade. Na teoria e na prática.

email: outrosolhares@terra.com.br

twitter: @OutrosOlharesAD

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14 Respostas para “A audiodescrição na teoria e na prática

  1. Como sempre, um texto que é um aprendizado, com informações que gostaria não fossem verdadeiras. O caminho da audiodescrição ainda é longo e é preciso persistência e muito mais do que técnica e prática, é preciso amor e luta. Parabéns a todos os audiodescritores que não perdem a esperança. Parabéns a você pela coragem. Abraço.

  2. Boa noite, Lúcia.

    Mais um post que revela os desconhecidos bastidores da audiodescrição com consistência e respeito. Há que se ter força em uma profissão nova cuja principal dificuldade parece estar no público a que se destina, historicamente excluído. Falta o reconhecimento necessário a um recurso de extrema importância. Que os cegos tomem consciência disto e cada vez mais façam sua parte. Grande abraço.

  3. Olá, Lucia

    É assim, nesse trabalho de formiga, que a audiodescrição irá crescendo de maneira sólida e um dia será realidade em todo o país para milhares de cegos, na televisão, no cinema, teatro e tantos outros.

    Belo trabalho, bela luta, como sempre um excelente e esclarecedor texto.

    Um grandeabraço!

  4. Sou um curioso interessado em audiodescrição e concordo integralmente com cada palavra deste post e de outros anteriores. Esta briga seria em primeiro lugar dos cegos que não estão nem aí em sua maioria, a audiodescrição não é prioridade quando é preciso sobreviver, mas mesmo os cegos de classe média não dão importância mesmo sendo fundamental para eles e po rtodos os motivos que você listou, TODOS mesmo. O cego que chegou ao poder? Ao EGO basta acrecentar a letra C rsrsrs… Parabéns pelo blog, é idealista e ótimol, o único a falar de verdade sobre o meio, parabéns a esta turma corajosa que conheço, admiro e acompanho há anos.

  5. Cheguei a este blog curiosa pela entrevista com MAQ e encantei-me primeiramente com o poético nome, Outros Olhares, e depois com o restante. Concordo com um leitor do qual não recordo o nome, de que não imaginava que houvesse tantos aspectos desconhecidos dos leigos nos temas audiodescrição e deficiência visual.

    É um trabalho tão bonito, traduzido em textos muito agradáveis de ler! Estou lendo todos os posts aos poucos e vejo neles enorme força, coragem, dignidade. Parabéns.

  6. Muito obrigada pela mensagem, Maria Regina, fico feliz que goste do blog e entre em contato com um universo tão pouco conhecido. Um abraço carinhoso!

  7. Lúcia
    Lendo o post, achei que foi “injusto” responsabilizar somente os cegos.
    Claro que se eles não valorizarem o recurso, quem mais dará o devido valor?
    Mas, historicamente sempre foram muito injustiçados… sabe aquela famosa frase dos videntes…”nossa nem parece que você não enxerga”. Isto potencializa o sentimento de pertencimento (sem pertencer!). Um engano! (para quem fala e para quem ouve).
    Mas isto, é sustentado há séculos.
    E não podemos negar… gera uma emoção boa. Uma relação facilitadora… É no mínimo, reconhecido como “simpático”.
    O “faz de conta” é sempre justificável (prá quem prefere assim).
    É a sociedade sim, que não reconhece, não respeita. E claro, as pessoas todas que tem acesso a esta informação, fazem parte desta sociedade (inclusive as pessoas com deficiência).
    O fato é que poucos puderam experienciar a utilidade do recurso nas suas vidas (pessoal, familiar, social, profissional).
    Será que não é isto que faz a maioria não “ligar” , querer (ainda)?
    Falo isto, porque a maior parte dos cegos que conheço e que sabem o que é a AD, querem e querem muito mais, se possível, o tempo todo (ao meu ver, com razão!). Estes, foram estimulados, se não pela família, pelos parceiros, pela vida. Estes, não abrem mão do recurso. Engraçado… todos (que me lembro agora) são pessoas incluidas.
    Talvez fosse preciso intensificar a divulgação junto à massa.
    Hoje mesmo, conversando com um amigo (da área) sugeri uma campanha, feita por todos nós que trabalhamos com AD, de colocarmos nas nossas redes, informes e ações práticas para serem compartilhadas.
    P. Ex.: Talvez se os radialistas se apropriassem deste novo conhecimento, conseguiriam agregar valor às suas transmissões e – sem dúvida, beneficiariam ao público com deficiência visual e, para quem sabe, todos os ouvintes?
    Já pensou?
    É o veiculo mais usado por pessoas cegas, com bx visão e de maior acesso em território nacional.
    Os radialistas já sabem muuuuiiiiito, e se aceitarem incluir mais “alguns elementos”, treinarem, praticarem… terão atendido as necessidades específicas da maior parte dos ouvintes.
    Não sei se é ilusão minha, mas esta história de alguns profissinais dizerem que já fazem AD (e nós sabemos que o que eles sabem e fazem, não é AD – profissional), é no máximo, descrição bem intencionada; quem sabe divulgando mais, todos passam a reivindicar qualidade, frequência e diversidade (abrangência)?

    Claro está, que não nos resta mais nada, a não ser, seguir em frente.
    Sou otimista (ainda), e acredito que em menos de 5 anos estaremos vivendo outra realidade.
    Através da informação, sensibilização, conscientização… as atitudes das pessoas, mudarão. E esta, certamente , será a maior barreira a ser superada.
    Depois, as coisas acontecerão (como tem que ser), espontaneamente.

    Bom trabalho!!!
    Audiodescrição Já!

    bj
    Rô Barqueiro

  8. Oi, Rô!
    O post ressaltou que a maioria dos usuários da AD gosta imensamente do recurso; a ideia foi apenas refletir sobre os motivos apresentados pelos próprios cegos para a recusa dos fones. Outros posts do blog aprofundam melhor a questão da exclusão histórica, da pobreza, do papel das instituições etc. Mas estes fatores não podem virar justificativa para que todos se conformem com o fato de que um dos principais motivos para ainda não termos mais AD e de qualidade na televisão, no cinema, teatro e nos livros didáticos seja o não envolvimento dos cegos na reivindicação e luta pelo recurso. Se tanto faz para quem recebe, tanto faz a forma como a AD é feita, é isso que constatamos no dia a dia. A ideia do rádio com audiodescrição ou com uma grade maior para divulgação dos recursos de acessibilidade existentes para quem não enxerga á ótima, já que é o principal – e, para muitos cegos, o único – veículo de comunicação acessível.
    Agradeço a participação sempre informativa, antenada e bem embasada!
    Beijo!

  9. salve, lucia!
    envergonhada e de joelhos no milho, confesso que só hoje atualizei a leitura do outros olhares.
    então é assim, atrasada e rubra de vergonha, que agradeço as gentilíssimas boas-vindas aos tagarellas. na verdade, a gente está na luta desde 2011, mas a entrada do blog no ar parece que nos oficializa, né? então que estamos aí, aprendendo, praticando e partilhando com colegas de todos os cantos deste mundão pra tentar ajudar a girar mais rápido a roda da AD. e tua postagem só confirma o tantão de forças e vontades que ainda precisamos articular pra espalhar acessibilidade por todo lado. e não faltam obstáculos! a ideia da rô barqueiro sobre cada um assumir seu quinhão na defesa e promoção do recurso é algo que temos tentado fazer nesses dois anos de caminhada. e sabe que, tempos atrás, quando convidamos alguns parceiros locais pra assinar conosco spots sobre o conceito e as aplicabilidades da AD (pra veicular nas redes sociais e em rádios comunitárias), ouvimos (só) um (diga-se) inesperadíssimo e desconcertante NÃO? fomos acusados de “usar” a AD pra nos “promover”… pode? mas, ah, a gente não desiste! somos, antes de profissionais, ativistas teimosos. e acreditamos de verdade, como diz lá no tagasblog, que só se promove acessibilidade em rede, unindo forças, competências e aspirações. que, juntos, podemos chegar muito mais longe, né? e vamos em frente! parabéns, sempre, pelas necessárias reflexões proporcionadas aqui no outros olhares.

  10. Mimi, mil desculpas!!! E que a Tagarellas, então, seja muito bem-vinda ao mundo dos blogueiros, compartilhando com mais pessoas esse trabalho cheio de idealismo, dedicação e talento!

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