A audiodescrição no Festival Sesc Melhores Filmes

O CineSesc, em São Paulo, exibiu durante o mês de abril mais uma edição do Festival Sesc Melhores Filmes, há 39 anos trazendo os escolhidos pelo público e pela crítica como melhores do ano anterior e há quatro anos oferecendo, em todas as sessões, audiodescrição ao vivo e legendas open caption a cargo da Iguale Comunicação de Acessibilidade.

Foram vinte e um dias, 42 filmes e 96 sessões, sem contar as apresentações de Mistérios de Lisboa, com 272 minutos, e City Life, com 251.  A média era de quatro sessões por dia, mais eventuais apresentações extras às 23h00 e aos domingos de manhã  às 11 para o público infantil. "Fiquei praticamente sem ir pra casa", brinca Maurício Santana, diretor da Iguale. Ele conta que montou uma espécie de quartel-general no CineSesc, com computador, impressora e até "bolachinha e café para a moçada", como diz.

Em dupla com o diretor de audiodescrição da empresa, Leo Rossi, fez o trabalho de suporte ao narrador na cabine, medida mais do que necessária em caso de imprevistos inerentes às apresentações ao vivo. Como o que aconteceu em uma das sessões de um filme infantil, em que o roteiro de audiodescrição foi feito em cima da cópia dublada enviada à Iguale e a cópia que estava sendo projetada era legendada! O Leo salvou a lavoura: correu para a cabine e fez a narração das legendas para o público com deficiência visual.

Se um episódio como esse não é corriqueiro no mercado, também não é incomum, segundo Maurício: "Às vezes, a cópia que vem para a gente roteirizar, a chamada cópia de trabalho, tem uma edição e a cópia de veiculação tem outra. Ou tem cena nova ou cortaram uma cena. Daí a importância do improviso para o narrador, que ainda tem de ficar buscando o ponto certo de continuidade no roteiro".

A Iguale conta com uma equipe de dezesseis audiodescritores, oito roteiristas e oito narradores, sendo que dois deles desempenham as duas funções. A maioria participa do Festival Sesc Melhores Filmes desde o primeiro ano e os novos recebem treinamento em encontros periódicos meses antes, para que haja um padrão na elaboração dos roteiros.Todos eles têm formação superior em Rádio e TV, Cinema ou Artes Cênicas. Para a narração, Maurício trabalha somente com atores: "A experiência mostrou que, de uma maneira geral, o ator é mais versátil e por isso responde melhor à direção".

E qual foi o aprendizado mais importante em quatro anos de audiodescrição no Festival?  Maurício responde que entendendo melhor o processo de produção, tiveram de aumentar a equipe e foram melhorando o ritmo, fazendo um planejamento melhor, com mais tempo para a elaboração e revisão dos roteiros e preparação da narração. "Os filmes vão chegando aos poucos para nós, o tempo para roteirizar a audiodescrição é curto. No primeiro ano, não tínhamos a dimensão do Festival, era tudo novo. Acabou que o filme Avatar, por exemplo, longo e complexo também por termos de descrever coisas que não existiam, estava começando a ser exibido e eu ainda descrevendo os três últimos minutos…"

Este ano, novidades no CineSesc: um mapa tátil na entrada do cinema e monitores preparados para o atendimento às pessoas com deficiência, inclusive buscando-as e levando-as até o metrô. Além disso, todos os funcionários do CineSesc aprenderam, em uma tarde, noções básicas e práticas para recepção e atendimento adequado a cegos e surdos com Alexandre Melendes, que falou sobre deficiência auditiva; com a consultora expert em inclusão de pessoas com deficiência, Marta Gil; e com o principal articulador do movimento pela audiodescrição no Brasil e criador do Blog da Audiodescrição, Paulo Romeu Filho, que abordou a deficiência visual.

Com toda esta estrutura, mais a localização privilegiada do CineSesc, muito bem servida de ônibus e metrô, mais o ingresso a apenas dois reais e a média de cegos por sessão foi de seis e chegou a quinze nos filmes mais concorridos, número ainda baixo, embora supere e muito a média na maioria dos eventos audiodescritos em São Paulo. Mas a audiodescrição no Brasil está só no começo e já tivemos avanços: "Houve um aumento de 30 a 40% do público com deficiência visual do primeiro ano do Festival até agora", revela Maurício.

A coordenadora de Comunicação do CineSesc, Renata Wagner, diz que o SESC tem como política a difusão e a acessibilidade da cultura: "A ideia é integrar a todos, quaisquer que sejam as condições sociais, físicas ou intelectuais e o Festival Sesc Melhores Filmes possibilita esta integração. Queremos que o Festival seja a cada ano mais acessível e que mais e mais pessoas participem". Maurício conclui: "Belo exemplo a ser seguido por mais cinemas e teatros pelo país". Vamos continuar na torcida.

email: outrosolhares@terra.com.br

twitter: @OutrosOlharesAD

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6 Respostas para “A audiodescrição no Festival Sesc Melhores Filmes

  1. Desconhecia o modo de produção de filmes com acessibilidade e a preocupação do Cinesesc em garanti-la à pessoas com deficiência. Parabéns Cinesesc, parabéns Iguale, parabéns Outros Olhares por trazer ao leitor mais uma vez as saborosas historias dos bastidores.

  2. Boa noite, Lúcia.

    Admiro ainda mais e parabenizo o Cinesesc pela iniciativa em investir em audiodescrição e legendas para surdos, também torço para que mais cinemas e outros espaços culturais façam o mesmo e que aumente a presença das pessoas deficientes.

    Adorei o post, conheci melhor o trabalho profissional e cuidadoso da Iguale e o seu nem preciso comentar, é o tema aprofundado com aspectos inéditos sempre.

    Bjs

  3. Lucia

    Seu trabalho, de nos oferecer Outros Olhares, sempre importantes e gostosos de ler e de conhecer, é da maior importância!

    Realmente, o Cine SESC está de parabéns, por sua atitude inclusiva, que começou em 2006, com uma mostra sobre Direitos Humanos, aos cuidados da Bell Machado. Desde então, só faz crescer, desde a acessibilidade arquitetônica até aos cuidados com a recepção de frequentadores com deficiência.

    A Iguale está de parabéns, também! Mauricio e equipe aliam apuro técnico, competência profissional a comportamentos inclusivos de vida – são inclusivos de corpo e alma.

    Espero que esse exemplo maravilhoso do Cine SESC – que até agora é único – se propague pelos cinemas, de São Paulo e de todo o Brasil e que o público com deficiência saiba do Festival e compareça em números cada vez maiores.

    Um beijo

    Marta

  4. E você, Marta, está de parabéns também, pela dedicação e competência na incansável luta pela inclusão das pessoas com deficiência. Beijo!

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