Outro Olhar – Entrevista com Marcus Aurélio de Carvalho

Em seu primeiro dia no primeiro emprego com carteira assinada, na Rádio Tupi do Rio de Janeiro, em 1984, Marcus Aurélio de Carvalho foi submetido a uma prova de fogo e, na opinião de muita gente, de má-fé: ler no ar um calhamaço de páginas com resultados de jogos de futebol, isso com apenas 10% de visão em um olho e uma prótese no outro, implantada quando tinha oito anos de idade. A baixa visão só aumentou o nervosismo da estreia e a leitura foi um desastre, uma sucessão interminável de gaguejadas e erros, como falar Barbacena em vez de Barcelona.

O episódio não derrubou Marcus, que foi em frente e construiu uma longa e bem-sucedida carreira como jornalista e radialista: de plantonista esportivo virou repórter e apresentador, em doze anos de Rádio Tupi; na Rádio CBN foi âncora  e depois Coordenador Nacional de Esportes, chegando a gerente executivo da Rádio Globo Rio e, até o ano passado, da Rádio Globo São Paulo e afiliadas. Ministra palestras sobre inclusão pelo Brasil e pelo mundo desde o ano 2000 como diretor executivo da UNIRR  (União e Inclusão em Redes e Rádio), ONG que atua, entre outros projetos, na capacitação profissional para o rádio de jovens de comunidades carentes  e pessoas com deficiência, em São Paulo e no Rio. Também é professor no curso de Rádio e TV da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado), em São Paulo.

Marcus é carioca, tem 51 anos, é casado há dez com Luciana e pai de três filhas do primeiro casamento: a enteada Mônica, de 37 anos, mãe de seus três netos; Mariana, com 27 e uma deficiência visual menor do que a dele; e Marcela, de 25 anos. Didático e metódico, é também bem-humorado e carismático; discorre rapidamente sobre dois ou três assuntos sem perder o fio da meada e dá um show de bola quando o tema é a inclusão de pessoas com deficiência.

PRECONCEITO SÓ NO COMEÇO

Enfrentei uma boa resistência do pessoal da rádio por ter baixa visão. Diziam: "Como esse menino vai ler? Não vai dar, tem que encostar o papel na cara!" Eu respondia: "Eu encosto, qual é o problema?" Havia insegurança e medo quando pensavam em me colocar na escala para a cobertura de um jogo de futebol, até que a chefia confiou em mim, me deu uma chance e eu, com 23 anos, em março de 1985, estava em Belo Horizonte cobrindo a preparação da Seleção Brasileira para as eliminatórias da Copa do Mundo! Essa resistência comigo durou dois anos, não mais que isso. Em um primeiro momento, todo mundo olha com desconfiança para a pessoa com deficiência, duvidando que tenha um bom desempenho profissional. A convivência inclusiva vai criando solidariedade e derrubando preconceitos.

DUAS MARLYS

Nasci no subúrbio do Rio de Janeiro, no pé do Complexo do Alemão. Meu pai consertava tevês e rádios. Fui para a escola pública e recebi carinho mas também hostilidade, sentimentos de pena e preconceito; me saí bem profissionalmente porque lido com tudo isso desde o primeiro ano do Ensino Fundamental. Tive ali uma professora maravilhosa, Marly Machado, que ampliava os textos e as provas para mim; os colegas da sala ditavam o que estava escrito na lousa. Minha mãe também era Marly e sempre me incentivou. Falo sobre as duas no livro que prefaciei junto com o jornalista Luís Nassif, "Direito da Pessoa com Deficiência, Igualdade na Diversidade", de Eugênia Gonzaga, da Editora WVA. Digo que as Marlys não contavam com legislação nem livros sobre inclusão, mas sabiam que este era o caminho.

DEFICIÊNCIA VISUAL NAS RÁDIOS

Fui a primeira pessoa classificada como baixa visão a trabalhar com esportes em uma grande emissora de rádio comercial. Outras pessoas com deficiência visual também se animaram e algumas empresas começaram a ver que era possível, o resultado era o mesmo. Na CBN de Natal havia um cego, o José Jorge, também plantonista esportivo (*profissional que apura e faz a locução ao vivo dos resultados de outros jogos simultâneos ao que está sendo transmitido pela rádio*), que ia ouvindo pelo rádio os jogos e gravando os resultados com a própria voz em um gravadorzinho de fita cassete; depois, ouvia tudo o que havia gravado e ia para o estúdio falar. Os cegos costumam ter uma excelente memória auditiva. No Brasil, hoje, existem mais de cem rádios transmitidas via internet que são feitas por cegos. Nas rádios comerciais, são pelo menos trinta profissionais cegos ou com baixa visão entre locutores, apresentadores e produtores, só entre os que eu conheço pelo país. Mas é aquela coisa: a maioria está em rádios de pequeno porte, em um horariozinho no final de semana, ou à noite, ou de madrugada, ou ainda em rádios comunitárias já legalizadas. Melhorou, mas ainda há muito preconceito.

CEGUINHO NO SISTEMA DE COTAS

Vou contar uma história para ilustrar o que acontece, na prática, com o sistema de cotas para a integração de pessoas com deficiência no mercado de trabalho: tem um rapaz cego que trabalha no atendimento ao ouvinte em uma grande emissora de São Paulo há mais de dez anos e nunca saiu dessa função. Também nunca concluiu o curso que ganhou para aprender a usar o computador, não deve saber usar até hoje. Sempre havia um obstáculo para frequentar as aulas como, por exemplo, um problema qualquer para utilizar o metrô. Todo mundo é muito bonzinho com ele, que é visto como o coitadinho, um incapaz. Também não vai ser demitido porque a emissora precisa dele para cumprir o percentual da cota que a lei exige. E é assim que funciona na maioria das empresas. Começa com o erro de não haver critério para a seleção, ou melhor, há, sim, um único critério que é: "Tô precisando de uma pessoa com deficiência!", que é contratada e vai atuar em funções de pouca qualificação; a equipe não é preparada para recebê-la e perpetua-se um tratamento preconceituoso, paternalista; enfim, ela mesma acaba se acomodando, porque sabe que é "*imexível*"…

MUDANÇAS NECESSÁRIAS

Há quatro, cinco anos, o Ministério do Trabalho e a Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência estão mais atentos não somente aos números mas ao modelo de contratação de pessoas com deficiência pelas empresas, que por isso estão mais preocupadas. Participo neste dia 15 do Segundo Forum da Rede Empresarial de Inclusão Social, no Rio de Janeiro, e digo com certeza que de dezoito a vinte empresas brasileiras já implementaram o processo correto de contratação e outras cinquenta estão no mesmo caminho: recrutar, selecionar e, se necessário, capacitar quem tem deficiência; preparar a equipe e promover a inclusão plena dentro da empresa, o que inclui acessibilidade arquitetônica e outras intervenções como, por exemplo, solicitação à Prefeitura para instalação de um semáforo com sinal sonoro para a travessia de quem tem deficiência visual; e ter uma política de retenção e de capacitação para que este profissional evolua dentro do plano de carreira da empresa. Contratar pessoas com deficiência de maneira eficiente significa apostar no talento sem preconceitos, sem superproteção e sem privilégios.

EDUCAÇÃO ESPECIAL QUE INTEGRA MAS NÃO INCLUI

Gente estuda com gente no ensino regular e gente com deficiência deve ser preparada para o mundo real e desde cedo. As instituições de educação especial tiveram um papel importantíssimo a partir do século 19, quando as pessoas com deficiência passaram a ter o direito de estudar e andar pelas cidades, e continuam tendo extrema importância na reabilitação e no apoio oferecido pelas salas de recursos, mas não podem mais continuar ministrando disciplinas das escolas regulares porque isto não é inclusão, é integração: acolhe e ensina, mas sem mexer na sociedade. Nestas instituições, a expectativa para um cego, por exemplo, continua sendo a mesma de antigamente: estudar, passar por reabilitação e voltar para casa. Pode perceber como semáforos com sinais sonoros só existem em frente a elas. A mensagem clara é: pode ir estudar! Vai entrar pela porta do ônibus que não paga, chegar com segurança, ficar só com quem é parecido com você e depois voltar para casa! E se o cego se apaixonar por uma menina lá dentro e quiser ir a um motel? Ah, aí não dá, porque lá não tem semáforo com sinal sonoro (risos)… E se quiser tomar um chopp? A mesma coisa, só vai se for levado por alguém que enxerga. Um modelo comodista e que acabou gerando muitos beneficiários indiretos, que enriqueceram à custa desta não inclusão com o argumento de que o governo tinha de repassar dinheiro para as instituições porque os cegos não poderiam estudar em escolas regulares.

AUDIODESCRITORA PARTICULAR

Sou grande adepto da audiodescrição. Não tem imagem que não deva ser descrita. Em minhas aulas na UNIRR, tenho meu método para que o aluno cego se sinta totalmente ambientado, como, por exemplo, a disposição das carteiras em meia lua com números imaginários. Ele chega e eu aviso: as carteiras de número tal e tal estão vagas! Aí ele vai pelo tato e encontra fácil. Na FAAP já tive uma aluna cega e fui procurado recentemente pela coordenação para dar um curso de orientação sobre inclusão de alunos com deficiência para os professores. E minha mulher, a Luciana, integra a equipe da UNIRR e por isso fez em julho de 2012 um curso de audiodescrição com o professor Francisco Lima, então, ainda ganhei uma audiodescritora particular, 24 horas por dia. Chique, não? (risos)…

email: outrosolhares@terra.com.br

twitter: @OutrosOlharesAD

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8 Respostas para “Outro Olhar – Entrevista com Marcus Aurélio de Carvalho

  1. “A convivência inclusiva cria solidariedade e derruba preconceitos”. A frase dita por Marcus define a inclusão. Começa com as famílias, matriculando seus filhos com deficiência em escolas regulares e fortalecendo sua auto-estima e o resto é consequência.

    Belíssima trajetória de vida, Marcus Aurélio, parabéns pela entrevista lúcida, crítica, abrangente, necessária e, acima de tudo, rara.

  2. Outros Olhares melhora a cada dia. Entrevista brilhante, uma verdadeira aula de inclusão. Parabéns, Marcus Aurélio de Carvalho, obrigado mais uma vez, Lucia.

  3. Lucia, esta entrevista é obrigatória para todos os que tem interesse pelo humano. Da luta pessoal do extraordinário Marcos à crítica às instituições, passando pela análise do sistema de cotas para o deficiente, um enriquecedor aprendizado sobre a vida, com muitas lições. Encaminhei a vários amigos. Só tenho para vocês a palavra de sempre, acompanhada de grande admiração: PARABÉNS.

  4. Olá, Lúcia.

    Gostei demais da entrevista com o Marcus. Fico emocionada pois tenho um filho cego ainda pequeno e temo o sofrimento dele que virá pelo preconceito.

    Mas depoimentos assim fortalecem minhas certezas, minha coragem e minha esperança em um mundo melhor e Marcus soube fazê-lo com maestria como o blog faz sempre.

    Esta luta é de todos nós e começa mesmo com as Marlys.

    Entrevista franca, maravilhosa, para ler sempre.

    Parabéns, Marcus, virei sua fã!

    Parabéns, Lúcia, o blog está no meu coração.

  5. Excelente entrevista!!!

    Parabéns, Marcus Aurélio, por discorrer com tanta precisão e coragem sobre aspectos importantíssimos da deficiência visual!

    Estou encaminhando a vários conhecidos.

  6. Bom dia,

    Uma alegria muito grande ler sobre a realidade da contratação de pessoas com deficiência pelas empresas e principalmente saber que finalmente as coisas começam a mudar.

    Entrevista necessária e rara como diz a leitora Elisabete, parabéns ao Marcus de quem também virei fã, e parabéns a Outros Olhares, sempre trazendo uma abordagem diferenciada.

  7. Primeiramente, parabéns Lucia Maria pela qualidade do blog e pela fidelidade do texto aos comentários que foram feitos por mim na entrevista. Você é uma jornalista muito cuidadosa com o texto e com a responsabilidade editorial.

    Obrigado Elisabete, J.C., Roberto, Maria Eugênia, Ricardo e Ana Cláudia pelos comentários. Quando tiverem críticas, fiquem à vontade também.

    Um convite: conhecer nossa página no Facebook, que tem notícias e debates sobre inclusão social, comunicação, educação popular e rádio – http://www.facebook.com/Unirrong.

    E nosso site: http://www.unirr.org.br .

    Seguirei acompanhando as novidades de Outro Olhar.

    Um abraço,

    Marcus

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