Coisas que encontramos pelo caminho

Depoimento de Frederico Rios, cadeirante e criador do site Acessibilidade na Prática

“Era um sábado de manhã e fui trocar uma lâmpada do farol da minha moto, uma CBR 600, daquelas esportivas em que você anda inclinado para a frente, meio deitado mesmo. Estava  voltando para casa por uma rua preferencial quando um carro cruzou a minha frente. Foi tudo muito rápido: freei, a moto abaixou e eu mais ainda, voei e entrei de cabeça na porta traseira. Meu capacete era muito bom, amorteceu bastante o impacto e só rachou; apaguei por um tempo no chão, abraçado ao pneu traseiro do carro, mas acordei e ainda passei a alguém o número do telefone do meu irmão, o Diego. Graças a Deus ninguém mexeu em mim até eu ser transportado pelo resgate até a Santa Casa aqui de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Era dia 23 de agosto de 2008 e eu tinha 26 anos.

Tive uma lesão na quinta vértebra cervical e soube depois que lesões na primeira e segunda vértebras geralmente são fatais. Meus pais foram avisados e vieram, estavam a quatrocentos quilômetros daqui. Fui operado, mas, como não havia vaga no CTI, fiquei em cima de uma maca durante dois dias, isso com 1,90 de altura, nem cabia direito nela e acabei ficando com a canela para fora. Depois disso, foram 24 dias no CTI, onde peguei uma infecção grave, e mais 28 dias no quarto. Muito tempo na mesma posição e fiquei com escaras na região sacral, dois buracos nas costas do tamanho de laranjas, com as bordas infeccionadas e tão fundos que dava para ver os ossos. Foram necessárias duas operações plásticas para remover as bordas e favorecer a cicatrização.

Depois fui para um hospital particular, com debilitação nutricional e ainda com a infecção do CTI da Santa Casa. Foram 21 dias à base de antibióticos. E eu, preocupado com o estrago da moto e achando que podia encontrar meus amigos dos grupos de motociclistas no final de semana (risos)… Neste hospital comecei a ter uma noção melhor, uma dimensão maior do que havia acontecido comigo conforme passava por consultas e exames. Nenhum médico afirmava nada com certeza. Foi somente na AACD de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, que minha suspeita foi confirmada: ouvi com todas as letras que eu estava tetraplégico e nunca mais ia andar. Minha mãe não aguentou e saiu da sala para chorar. Meu pai ficou mudo. Eles sempre tiveram muito mais esperança que eu. O médico continuou falando e eu lá, já totalmente baqueado e sem vontade de nada.

Nasci em Paranaíba, também no Mato Grosso do Sul, e vim para Campo Grande com 14 anos. Sou médico veterinário de animais de grande porte, com mestrado em produção e gestão agroindustrial. Estava feliz, trabalhava em uma das maiores empresas de nutrição animal do país, chegava a viajar de cinco a sete mil quilômetros em um mês, de fazenda em fazenda. Depois do acidente, eu fiquei revoltadíssimo, não me conformava em não ter minha vida de volta do jeito que era. Estava muito deprimido e sem a menor receptividade à terapia, que fiz nos dois primeiros anos. Ficava era com raiva do discurso da psicóloga que me atendia, de que eu teria de me adaptar a outras opções como, por exemplo, ser veterinário de cachorros, sendo que escolhi exatamente o que eu queria fazer aos 12 anos de idade, justamente por um teste vocacional aplicado também por uma psicóloga. Ainda hoje acho que, se voltar a chegar perto de um boi em uma fazenda, vou chorar lá, dar um piti (risos)… Tomava dois antidepressivos que acabei largando por conta própria um ano depois do acidente.  

Na época, também fiquei revoltado contra Deus e minha fé ficou abalada. Venho de uma família católica, muito religiosa, e já tive várias provas da existência e do amor de Deus. Tocava violão e cantava com um grupo da pastoral de uma igreja aqui de Campo Grande. Quando estava internado na Santa Casa, mais de quarenta amigos ficaram na porta em oração. Ainda evito ir à igreja para não ficar triste e sentir saudade ao ver o pessoal tocando e cantando; é bem doloroso saber que eu, que era um dos mais animados, não posso tocar mais. Quanto ao homem que provocou o acidente, um senhor de 83 anos que parou e me socorreu, soube que entrou em depressão logo depois, chegamos a conversar e numa boa mesmo. Só que ele continuou dirigindo e ainda deu umas batidas por aí, dá para acreditar?

Em 2010, continuava muito desanimado e uma amiga de infância, a Graciela, sugeriu a ideia do site na tentativa de me distrair e me tirar de casa. Surgiu, então, o Acessibilidade na Prática (http://www.acessibilidadenapratica.com.br ), que registra nas ruas tudo que é ou não acessível  para quem tem deficiência e as fotografias são publicadas junto com elogios ou críticas e orientações claras e objetivas sobre como deveria ser, tudo feito pela nossa equipe, formada por experts em leis, normas técnicas e acessibilidade arquitetônica que é para não sair nenhuma bobagem (risos)… Um dos principais objetivos é informar e buscamos atingir também quem não tem deficiência. Nós mesmos fotografamos aqui em Campo Grande e quando viajamos, mas também recebemos material de todo o país; aos poucos, fomos conquistando o respeito e a amizade de um número grande de pessoas.

Mesmo assim, algumas vezes ainda me dá um desânimo enorme na luta pela acessibilidade. Deixei de participar de audiências públicas aqui porque dificilmente dão algum resultado e porque um tetraplégico sair de casa acaba sendo um evento, tantas são as providências e dificuldades. Houve uma audiência para a criação de uma Secretaria Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência e o presidente da Câmara dos Vereadores disse ser “contra a acessibilidade a qualquer custo”. Nessas audiências ninguém se entende, cada um quer defender unicamente os direitos de sua própria deficiência e nisso, os cadeirantes parecem ter uma preocupação maior pela acessibilidade para todo mundo, é só entrar nos blogs deles. Eu mesmo acabei conhecendo, tendo interesse e divulgando audiodescrição e Libras, por exemplo. E muita coisa, sem dúvida, aprendo com os blogs de temas específicos, que aprofundam e exploram melhor os recursos de acessibilidade para os vários tipos de deficiências.

Digo que é bem complicado ser cadeirante no Brasil, onde o que mais provoca lesão medular é, em primeiro lugar, acidente de carro, seguido por mergulho e, em terceiro, acidente provocado por arma de fogo, com os homens como maioria das vítimas. As opções em tecnologia assistiva são poucas e caras. O básico já é muito difícil: uma boa cadeira de rodas nacional, feita sob medida, não sai por menos de sete mil reais e os preços das cadeiras manuais importadas começam em doze mil; uma fisioterapia de qualidade custa, em média, cem reais a hora; os medicamentos são caríssimos e não dá para contar com eles nos postos de saúde porque são cortados de repente, não há continuidade. Com as cadeiras de rodas fornecidas pelo governo, mais um problema: dificilmente são tiradas as medidas dos usuários, como acontece nas lojas, fora a demora no recebimento por causa da burocracia; quem mais sofrem são as crianças, que vão crescendo e precisam de novas cadeiras e órteses com urgência.

Isso tudo e mais as atitudes das pessoas, que parecem achar, em sua maioria, que acessibilidade é construir uma rampa e adaptar um banheiro para cadeirante. Vou a São Paulo a cada três meses para tratamento em uma clínica e não escapo do aeroporto de Congonhas. Na volta, chego cedo para evitar o trânsito da cidade e tenho que esperar um tempão sentado em uma cadeira de rodas dura e apertada, enquanto a minha vai para o avião e vai daquele jeito, aos trancos, tanto que já quebraram a alavanca de uma motorizada, mas pagaram pelo conserto. Uma vez, quiseram apreender as ferramentas para manutenção da cadeira de rodas alegando que não era permitido que fossem na bagagem de mão; convenci o funcionário com muito custo e ele consentiu como se estivesse me fazendo um favor. Se no transporte batem a cadeira e entorta qualquer coisa, você precisa ter uma ferramenta na mão para arrumar logo e ir embora! Mas o que me deixa louco mesmo é a falta de respeito e educação no dia a dia. Meu pai me levou a uma colação de grau aqui em Campo Grande e tinha um sujeito escutando música dentro de um carro estacionado na vaga reservada para pessoas com deficiência. Meu pai foi pedir a ele que saísse e o cara deu risada e continuou lá. Como a gente faz? Estacionamos longe e eu ando cinco, seis quadras de cadeira de rodas nestas calçadas esburacadas? Outra situação muito comum é ficarem buzinando atrás de você quando está saindo de um carro adesivado com o símbolo internacional da pessoa com deficiência! Eu até hoje deixo de sair pelas dificuldades de acessibilidade. Está todo mundo muito preocupado consigo mesmo.

Mas hoje, também, já vejo que posso melhorar cada vez mais, só não sei até onde posso ir, a medicina vai nos ajudando e surpreendendo. Uma boa saúde é importante: nunca bebi nem fumei; faço fisioterapia cinco vezes por semana, duas horas por sessão, e tenho movimentos que uma pessoa com as minhas condições normalmente não teria: sensibilidade até os mamilos, movimento dos braços, sensibilidade a pressão e toque nas pernas e nos pés; só não flexiono as mãos e mexo muito pouco os dedos, tanto que uso duas órteses para o teclado do computador. Dei um grande passo em março: fui morar sozinho em uma casa adaptada, com uma cuidadora. A independência foi primordial para mim, o ponto de partida para ter vontade de fazer outras coisas. Também voltei a dirigir em um carro adaptado, mas tudo, absolutamente tudo é uma redescoberta, tudo você quer fazer como antes e não me envergonho de dizer que ainda é difícil aceitar que nada mais pode ser como antes. Quando dirigi de novo pela primeira vez, a primeira coisa que pensei foi: “Eu fazia tudo isso aqui brincando!” A dificuldade maior agora é subir no carro, passar da cadeira de rodas para a tabuazinha elevatória ao lado do banco do motorista.

Com o sexo também foi assim. Uma redescoberta. Namoro desde fevereiro a Maria Alice Furrer, parceira do site. Mas antes do acidente eu só pegava, fiquei anos sem namorar ninguém. Era o único solteiro na área da empresa em que trabalhava, na segunda-feira os caras faziam rodinha para me ouvir contar as histórias com a mulherada no final de semana. Depois do acidente, o sexo foi como se fosse a primeira vez e demora até conseguir aproveitar as coisas boas sem a ideia de que você está mesmo é bem pior do que antes. Há dois anos consigo ter ereção sem medicamentos e também há remédios que estimulam a ejaculação, porque no cadeirante ela é retrógrada, quer dizer, o cara tem orgasmo, ou alguma coisa parecida com o orgasmo que ele tinha, e o sêmen vai para a bexiga por falta de força muscular para expelir. A dúvida de muita gente em relação a um cadeirante é: de que adianta, por exemplo, receber sexo oral se ele não sente nada? O que acontece é que a fantasia é um estímulo muito forte, então ver a mulher fazendo ou dar prazer a ela nos dá muito prazer também. Conheço o relato de um cara que teve orgasmo só de ver a mulher estimulando seu polegar!

Hoje já consigo ver um pouco mais de graça nas coisas, como a conquista de pequenos movimentos. Minha mãe chorava de alegria a cada vitória e eu pensava: “Esse dedo está mexendo, mas, e aí? O que eu vou fazer com isso?” Antes do acidente, eu era um cara acelerado, dinâmico, me cobrava muito profissionalmente. A TV vem me entrevistar e quer a história da superação, das conquistas, do herói. A comparação com outros tetraplégicos que já conseguiram um monte de coisas provoca em mim um sentimento de inferioridade. Agora carrego comigo que a gente tem de se dar o direito de errar e de não ser tão bom quanto todo mundo espera, as pessoas colocam muita expectativa na gente. Cada um tem seu tempo, seu ritmo, sua história. Só não dá para acreditar é na menina que, trinta dias depois de ficar tetraplégica, posta uma foto no Facebook sorrindo, toda feliz, com um monte de frases bonitas embaixo. A real do começo é à noite, na hora de botar a cabeça no travesseiro, quando você está lá, chorando, imóvel e cheio de medicamentos.”

email: outrosolhares@terra.com.br

twitter: @OutrosOlharesAD      

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8 Respostas para “Coisas que encontramos pelo caminho

  1. Gostaria de mandar um abraço com muito carinho para este rapaz, Frederico.

    Estou até agora muito emocionada com seu relato, de virem lágrimas, e mostrei a meu marido e filhos que ficaram também.

    Por mais que todas as histórias mostrem heróis da dficiência e acho que eles também existem, sabemos que a realidade é difícil demais e ele foi muito honesto, é assim mesmo que vive um cadeirante, as dores e dificuldades são muitas.

    É cedo ainda e a superação virá, tenha certeza. E na hora certa você voltará para Deus.

  2. Lucia

    Excelente texto, excelente história, forte como sempre e como sempre digo, mais um grande aprendizado sobre uma realidade muito distante de quem é leigo. Gostei muito desta abertura a outra deficiência, como o próprio Frederico diz que os cadeirantes costumam fazer. Um grande abraço a você, rapaz, não tinha idéia do dia-a-dia de um tetraplégico e sua sinceridade é tocante.

  3. Parabéns pelo post, o Frederico trouxe informações valiosas e uma história humana que muito me emocionou. Ofereço minha solidariedade, senti o mesmo e posso dizer a ele que é muito jovem que o tempo é um amigo e a aceitação do que não se pode mudar é a única opção. O site dele é sério e bem escrito e é possível a um cego compreender as fotografias pelo detalhamento do que é acessível ou não na cidade, também uma aula de acessibilidade arquitetônica. Um forte abraço, Frederico.

  4. Boa noite, Lucia.

    Também gostei demais desta abertura à outra deficiência, afinal todas envolvem alguns aspectos em comum e a luta é de todos.
    Este relato como aos ouros leitores emocionou-me demais, chorei porque vivo esta mesma realidade bem de perto na família.
    Existem muito mais coisas tristes que encontramos pelo caminho (este título é lindo), o Frederico ainda tem uma boa estrutura para enfrentar dificuldades. Mas neste caminho existem também muitas coisas alegres e lindas e tenho certeza de que ele vai vivê-las cada vez mais.

    Um beijo a vocês

  5. Nossa Fred,
    A cada dia que passa te admiro mais. Suas palavras tocam demais, pela sinceridade e honestidade!
    Sem palavras…

  6. Parabéns pela narrativa envolvente, impactante e diferenciada, as histórias parecem filmes,estou encantada.

    A história do Frederico mexe com todos pelo realismo, não há floreios nem o cultivo da imagem do herói. Bom para as pessoas conhecerem um pouco da realidade de quem vive a deficiência.

    Trabalho com deficiência auditiva e também gostei muito da abordagem de questões do cadeirante, não conhecia quase nada sobre o assunto.

    Gostei demais do site dele, é informativo e didático.

    Emocionei-me bastante, o Frederico é daquelas pessoas de quem dá vontade de ser amiga. Além de bonito, tem uma expressão de bondade, doçura e simpatia.

    Abraços ao Frederico e ao pessoal do blog.

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