Audiodescrição sem fronteiras

Pela primeira vez, pessoas cegas de todo o país puderam acompanhar pela internet uma transmissão ao vivo e na íntegra de um evento com audiodescrição: foi no encontro que reuniu quase 120 participantes de vários estados, quase todos cegos, de 5 a 9 de junho no Hotel Novotel Jaraguá, em São Paulo, promovido pela Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB) em parceria com a Secretaria Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência e Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação (FAPCOM).

A transmissão pelas web rádios Mundo Cegal e Ponto de Vista, dirigidas ao público com deficiência visual, foi comandada por Leon Deniz, mais conhecido como Diniz, também cego, incansável à frente de seu laptop durante todo o tempo. Em uma de suas participações, relatou que o evento teve picos de 250 ouvintes em três das palestras e que a maioria dos comentários referia-se à audiodescrição : “Muita gente em todo o país está ouvindo AD pela primeira vez, as pessoas estão adorando!”, disse, entusiasmado. A notícia só reforça a importância e a necessidade do recurso em cada vez mais eventos, programas de televisão, filmes, livros, exposições, peças de teatro – e, quem sabe, mais gente nessa luta.

Vai aqui também um trecho do email que o Diniz enviou ao blog dois dias depois do encontro: “…Esse evento foi um pouco mágico. E certamente consolidou um marco histórico. Eventos sem audiodescrição, agora, já não terão mais o mesmo brilho. E assim vamos construindo um hábito cada vez mais presente de buscar a AD em diversos contextos”*. É ou não é para comemorar?

A CAMISA ROSA DO BETO PEREIRA

Embora, como sempre, tenha sido significativo o número de participantes que recusou ou pouco utilizou os fones de ouvido para a audiodescrição, alegando principalmente não haver necessidade em palestras, houve os que usaram pela primeira vez e gostaram tanto do recurso que não o largaram mais até o último minuto do evento. Foi assim que palestrantes e coordenadores cegos ficaram sabendo quem saía ou voltava ao auditório, informação que evitou, por exemplo, que se dirigissem a alguém que já não estava presente; ou quantos participantes estavam na plateia; quem levantava o braço pedindo a palavra; quantos disseram sim, não ou se abstiveram em cada votação; ou ainda o tempo exato que faltava para o encerramento de uma palestra e até que o café já havia chegado.

Outras histórias serviram para despertar ainda mais o interesse pela AD, como a do participante sem os fones de ouvido que pediu a palavra e ouviu sua própria descrição – um “senhor grisalho”- do coordenador da mesa, o presidente da ONCB Moisés Bauer Luiz, e indignou-se em meio aos risos da plateia: “Não gostei dessa audiodescrição, não!” Os homens encantaram-se com as descrições das musas Karoll Sales e Lorena Oliveira; as mulheres, com o charme do colombiano grisalho e de cavanhaque Dean Lermen; muitos riram com o encontrão de uma organizadora do evento e um cego no corredor do auditório; riram também com um dos integrantes da mesa, que chegou atrasado na manhã de sábado e não parou de tomar água depois de abrir os trabalhos do dia com voz cavernosa e irreconhecível; e houve surpresas com algumas características físicas de companheiros de longa data ou com a roupa de outros como a do popular Beto Pereira e sua camisa polo… cor de rosa!

A informação foi recebida com espanto e imediatamente várias cabeças se viraram na direção da voz do Beto, que falava em pé da plateia, e na hora começaram os assovios, as risadas e comentários na internet como: “Uuuii!!! Camisa rosa e labrador bege? Bege tô eu!” Sorte dele que a camisa só foi vista de costas, porque se a audiodescrição ainda dissesse que na frente havia a marca inscrita no peito em grandes letras de forma douradas, o auditório vinha abaixo!… Em um dos intervalos e depois de muita gozação, ele concluiu: “Foi até bom, porque assim muitos cegos da antiga que não acompanham a moda e acham que rosa é para mulher e gay ficaram sabendo que há muito tempo os héteros também usam, é comum”. No dia seguinte, pelo menos quatro participantes exibiam camisas e malhas cor de rosa…

DIGA SEMPRE : “À DIREITA E À ESQUERDA DO CEGO”!

O simpático participante Jackson Bulhões estava ensinando à audiodescrição a maneira correta de contar aos cegos o que está no palco: “Diga que o presidente está à esquerda do cego, a assistente está à direita do cego. É a melhor forma de entendermos, lá no Maranhão é assim!” Como as dúvidas em relação à lateralidade na hora de audiodescrever são bastante comuns também nos cursos de AD, sempre é bom lembrar que é consenso entre os estudiosos que os elementos visuais sejam localizados sob a perspectiva de quem está assistindo ao evento, ao filme, à peça, sem necessidade de mencionar o cego como referência.

No auditório do hotel, com capacidade para 120 pessoas, havia dois blocos de assentos divididos por um corredor ao meio, o palco à frente com dois telões laterais e a cabine de AD ao fundo, tendo à esquerda a mesa de áudio e à direita a mesa do café, encostada à parede e ao lado da porta. Os cegos receberam estas informações no início e aí ficou fácil localizar os participantes: no palco, à esquerda; ao centro, em pé entre o palco e a plateia; ao fundo, em frente à mesa do café.  Agora, se estivermos falando de algum objeto em uma das mãos do palestrante ou do personagem da peça ou da tela, basta especificar que está em sua mão direita ou esquerda.

Jackson ainda deu inéditas instruções para quem  conduz cegos oferecendo o braço: jamais dobrar o cotovelo! E por quê, se é assim que fazemos desde sempre e ninguém nunca reclamou? “Porque espeta a barriga da gente, ora!”, respondeu, sempre bem-humorado. E continuou: “Estica o braço para baixo, bem durinho, que a gente vai nele que nem bengala, lá no Maranhão é assim!” Bom, o método, se não é unanimidade, certamente é bem vantajoso para as mulheres que conduzem os cegos com o cotovelo dobrado e junto ao corpo e de vez em quando reclamam das roçadas de dedos na lateral do seio. Fica a dica: estiquem e afastem um pouco o braço do corpo, digam que lá no Maranhão é assim e pronto!

E O AUDIODESCRITOR DEVE CONDUZIR E ORIENTAR CEGOS NOS EVENTOS?

Teoricamente, não. O ideal é que haja uma equipe preparada e em número suficiente para atender aos cegos, mas estamos bem longe do ideal e o que temos é apenas o possível, pelo menos por enquanto. E uma coisa é ter dois audiodescritores na função de suporte (à cabine e ao equipamento utilizado pelos cegos) e nenhum atendente para oito, dez pessoas com deficiência visual em um seminário, o que é o mais comum e fácil de dar conta. Outra, bem diferente, é ter mais de cem hospedadas em um hotel durante cinco dias, em um encontro que dura o dia todo, entrando e saindo do auditório, subindo e descendo elevadores, indo aos quartos, ao restaurante e aos banheiros, querendo água e café e dividindo-se à tarde em grupos de debate em salas diferentes e com pouquíssima gente contratada para o atendimento, ainda que atencioso e dedicado, e os mesmos dois audiodescritores na função de suporte.

Faltou mesmo uma equipe maior e, por isso, acabou que os audiodescritores foram também responsáveis pelo atendimento às pessoas cegas principalmente dentro do auditório, quando precisavam do microfone para as participações, quando movimentavam-se em direção à saída que não encontravam e acabavam perdidas atrás da cabine de audiodescrição, quando queriam um café, uma água ou ir ao banheiro. Ainda é preciso cantar, dançar e representar neste difícil começo da profissão no Brasil, mas que já traz cada vez mais resultados compensadores para quem é cego e para os que gostam e se dedicam de verdade ao ofício de audiodescrever.

email: outrosolhares@terra.com.br                 

twitter: @OutrosOlharesAD  

   

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