Que pisada na bola, Mara Gabrilli!

No último dia 17 aconteceu o lançamento do livro Depois Daquele Dia, da deputada federal pelo PSDB Mara Gabrilli, na livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo. Evento com o merecidíssimo e devido prestígio à conhecida, respeitada e influente defensora dos direitos das pessoas com  deficiência, ela mesma tetraplégica, não fosse por uma lamentável falha: a versão acessível para pessoas com deficiência visual não passava de um improviso, um audiolivro gravado às pressas por uma instituição paulistana e, pior, distribuído gratuita e indiscriminadamente aos cegos presentes, quer comprassem ou não o livro impresso! 

Antes que o leitor incauto, principalmente o leigo, considere a crítica um exagero – afinal, houve a preocupação de fornecer uma versão acessível e ainda por cima de graça – e misture alhos e bugalhos, vamos esclarecer novamente que acessibilidade nada tem a ver com gratuidade e muito menos com caridade; acessibilidade, neste caso, seria se o cego tivesse a versão acessível à sua disposição para compra e no mesmíssimo dia em que quem enxerga pôde pegar seu livrinho,  pagar por ele e levá-lo para casa.
 
A coisa toda é um pouco pior porque, com alguma antecedência, assessores da Mara telefonaram para Naziberto Lopes, o maior representante da luta pelo livro acessível no país, para obterem informações sobre as opções e características dos formatos existentes. Mas o telefonema também serviu para comunicar que já não haveria tempo de produzir o formato acessível ideal para o dia do lançamento, daí, então, a ideia do audiolivro com a promessa de que uma  versão digital acessível estaria disponível para venda em trinta dias. 
 
Enquanto aguardam, alguns integrantes experts em informática do Movimento Cidade para Todos, grupo de militantes cegos de todo o país, mobilizados em prol de ações concretas e efetivas pela acessibilidade, estão testando vários aplicativos para leitura de livros digitais em seus desktops, notebooks, iPads e celulares e a grande maioria já encontrou dificuldades em baixar o livro da Mara já na primeira etapa, a do cadastro no site da livraria Cultura, que não é acessível. Sobre as discussões em torno dos aplicativos e sua utilização por quem é cego, outro integrante do Movimento comenta: “Eu nem tenho ideia do que é isso tudo que vocês estão falando!”,  traduzindo e resumindo o que já é sabido: os formatos digitais acessíveis mais simples, mais rápidos e que atingem o maior número de pessoas cegas no país, neste momento, são mesmo o pdf, o txt e o doc, já prontos e de facílimo acesso.
 
E,  já que o assunto é esse, cumprimentos ao professor da USP José Leon Crochík, autor do recém-lançado livro Inclusão e Discriminação na Educação Escolar, e à Editora Alínea, de Campinas, interior de São Paulo, que atenderam prontamente à solicitação de venda do livro digital acessível a uma pessoa cega, vendendo, então, o livro impresso para efeito de emissão de nota fiscal e fornecendo junto o pdf. Mais uma editora inclusiva somando-se a outras em um número ainda pequeno, mas crescente em todo o país.
 
E o audiolivro? Embora útil para o cego que não domina informática ou não tem acesso a um computador, a principal crítica é de que não tem acessibilidade total, já que não há o recurso de soletração de palavras, o que compromete e muito a escrita das pessoas cegas, e obviamente também não permite a impressão braile. Mesmo assim, foi com o lançamento de audiolivros mais dois grandes exemplos de posturas e atitudes inclusivas que  não podem ser outra coisa senão inegociáveis, principalmente para autores que possuem alguma deficiência ou atuam no meio.
 
O primeiro é o da promotora Thays Martinez, cega, que na época do lançamento de seu livro Minha Vida com Bóris, foi informada de que não haveria tempo de lançá-lo juntamente com o audiolivro, na mesma livraria Cultura. A argumentação precisa e indignada sobre inclusão e a enorme contradição que seria não haver disponível o formato acessível no lançamento resolveram o problema e no dia lá estavam as torres com os audiolivros à venda. E Thays, certamente, teria adiado a data do evento se preciso fosse para que houvessem os lançamentos simultâneos.
 
O segundo, o da professora Lívia Motta, referência em audiodescrição no Brasil, e Paulo Romeu Filho,  principal articulador do movimento pelo recurso no país, organizadores do primeiro livro brasileiro sobre AD, Transformando Imagens em Palavras; sem hesitar, bateram o pé, condicionaram a publicação do livro à acessibilidade e o resultado foi o lançamento do CD encartado com os formatos pdf,  txt e doc, além do audiolivro e do Daisy disponibilizados nos sites de ambos – mas já preparados de antemão para pegar seus bonezinhos e irem atrás de outra editora diante de um não. Deu certo, mas poderia não ter dado. O que seria, de longe, bem melhor do que prestar mais um entre tantos desserviços às pessoas cegas. 
 
 
twitter: @OutrosOlharesAD
 
 
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