Cegos feios, sujos e malvados

O desabafo vem do Vanderlei, 59 anos, morador de uma cidadezinha de Minas Gerais e cego há quase vinte anos depois de um grave acidente de trabalho como mergulhador em uma plataforma de petróleo: “Quando fiquei cego, a dor de não enxergar foi menor do que a dor de ser banido, excluído da sociedade. Perdi tudo: mulher, amigos, emprego. O mundo deixou de ser um bom lugar para mim. Virei alguém menor e descartável. Não era mais considerado igual aos outros. Briguei sozinho e durante muito tempo por direitos básicos para no final conseguir apenas ser chamado de radical, chato, mala e xiita. Ainda assim, tenho orgulho de minha única vitória: o legado que deixei a minha filha, hoje uma grande lutadora pela acessibilidade”.

Entre o bom humor e a melancolia, o Vanderlei desfia histórias de discriminação e humilhações semelhantes às de milhares de cegos, com a diferença de não deixar barato nunca: “Quase fui preso uma vez por avançar em um safado de um vereador! Mas depois de tantos anos tentando ser ouvido, tentando mudar as coisas, quem é que não perde a paciência? Vou te dizer uma coisa, se eu fosse mais jovem, ia até São Paulo e ficava pelado ao meio-dia de uma sexta-feira em frente ao MASP, na avenida Paulista, que hoje em dia é assim que se chama a atenção. Não tem aquelas meninas lindas do FEMEN? Mostram os peitos e na hora viram manchete no mundo inteiro. Então, o ceguinho pelado pode não ser um espetáculo tão bonito, mas que eu ia falar no Jô, na Marília Gabriela e no Fantástico, ah, isso eu ia!” (risos)

O relato do Vanderlei ilustra bem o que vemos diariamente: de um lado, a omissão do poder público, o descaso da sociedade e o inexplicável silêncio e os braços cruzados dos cegos diante de históricos abusos e desrespeito; de outro, a luta árdua de no máximo meia dúzia de gatos-pingados, os radicais e xiitas, assim chamados porque denunciam a violação de seus direitos fundamentais com todas as letras e sem concessões. Já são muito poucos e a forma com que lutam, com contundentes opiniões e cobranças, acentua ainda mais o contraste. Postura comum e muito melhor compreendida quando vem de videntes reivindicando ou denunciando alguma coisa; de emails, artigos, entrevistas inflamadas, concentrações e passeatas nas ruas até invasões de órgãos públicos e barreiras de fogo bloqueando estradas, fazem com que as manifestações destes cegos pareçam amenas conversas ao redor de uma mesa de chá às cinco da tarde.

Fora que a luta de videntes encontra muitos e variados espaços de discussão em todo o país, o que também não acontece quando o assunto é deficiência e muito menos quando é a visual. No caso dos cegos chamados de radicais e xiitas, é só chegar mais perto, ouvi-los, acompanhar suas postagens e discussões em fóruns virtuais para constatar o que realmente importa: sua luta é justa, legítima e limpa.

Só para citar uma discussão recente, como aceitar calados o não cumprimento da lei federal do ano 2000 que prevê a instalação de semáforos sonoros nas cidades brasileiras, dispositivos básicos, de fundamental importância para quem é cego? São Paulo só tem dois! Vale a pena destacar um trecho de entrevista concedida a este blog pelo jornalista e radialista carioca Marcus Aurélio de Carvalho, baixa visão, com quase trinta anos de carreira em rádios, até o ano passado gerente executivo da Rádio Globo São Paulo e afiliadas: “…Pode perceber como semáforos sonoros neste país só existem em frente a instituições para cegos. A mensagem clara é: pode ir estudar! Vai entrar pela porta do ônibus que não paga, chegar com segurança, ficar só com quem é parecido com você e depois voltar para casa! E se o cego se apaixonar e quiser ir a um motel? Ah, aí não dá, porque lá não tem semáforo com sinal sonoro (risos)… E se quiser tomar um chopp? A mesma coisa, só vai se for levado por alguém que enxerga”.

Será que os cegos sentem-se satisfeitos, respeitados e atendidos na defesa de seus direitos por  secretarias de governo e pela organização criada para representá-los? Ou parecem mal saber para que servem? Existem eficientes políticas públicas para a acessibilidade da pessoa com deficiência visual? Há punição para o descumprimento de leis? Será que estão contentes com a altíssima tributação sobre a tecnologia assistiva? Compram seus livros acessíveis das editoras ou pegam emprestados das bibliotecas públicas, como fazem os videntes que não têm dinheiro para comprá-los? A resposta é, invariavelmente, não.  

Enquanto isso, assistimos este ano à choradeira emocionada por conta de um tratado internacional que facilitaria o acesso dos cegos aos livros, notícia reproduzida e comemorada sem que ninguém soubesse o que era – aliás, até hoje não foi divulgada uma única linha informando com clareza  o conteúdo do acordo! E foi cego chorando no twitter, o cantor e compositor Stevie Wonder chorando em cima de um palco, toda uma comoção  pelo que já era esperado: o fortalecimento ainda maior do monopólio das instituições para cegos sobre o livro acessível. Isso, sim, é de chorar! E, para citar mais um episódio recente, o veto à ampliação da audiodescrição na televisão brasileira, que nem com reza brava sai de algumas míseras horinhas semanais de programação nas emissoras abertas, justamente na TV, a principal forma de lazer do brasileiro e, portanto, o veículo que permitiria o acesso muito maior da maioria dos cegos do país à informação, à cultura, à diversão.

Um amigo cego diz que a última grande revolução na vida de quem tem deficiência visual chama-se leitor de tela e não teve nenhum dedo do governo ou de qualquer instituição assistencialista. Com exceção da Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, não temos muito o que comemorar em conquistas significativas no presente, daí, então, a exaltação contínua ao passado de vitórias que, embora louváveis e de extrema importância, principalmente pela união e garra nunca mais vistas, foram um primeiro passo. Na falta de bons projetos, eis que governantes vão ainda mais longe no tempo e dizem à exaustão em palestras que “avançamos muito, porque até pouco tempo atrás as pessoas com deficiência eram atiradas em rios, poços ou precipícios”. Ou esta, totalmente vaga e também repetida feito um mantra: “Aos poucos, vamos conquistando o que é preciso.” Os cegos radicais e xiitas assim são chamados porque vão muito além das belas frases e mensagens de otimismo e esperança, inconsistentes e tolas quando desacompanhadas de ações efetivas e por estas, sim, são eles os únicos a lutar.

 

twitter: @OutrosOlharesAD

   

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