Entre Deus e o Diabo

Depoimento do músico e produtor Humberto Pires do Carmo (Bebeto Pires), cego 

“Tinha cinco ou seis anos de idade quando ganhei um velocípede no Natal. Eu ainda enxergava, pouco mas enxergava, e adorei o presente, mas o que me lembro mesmo é de meu pai dizendo: ‘Papai Noel não existe e trata de aproveitar esse velocípede o máximo que puder, porque você vai ficar cego’. Íntegro e generoso, mas rígido, ele queria que eu aceitasse a realidade o quanto antes, ao contrário de minha mãe, que vivia dizendo que Papai Noel iria trazer de volta a minha visão.

Nasci na Chapada Diamantina, na Bahia, e sou o caçula de dez irmãos.Tive glaucoma e fui perdendo a visão aos poucos. A transição para a cegueira foi entre os nove e os doze anos e, na verdade, eu mal percebi: quando vi, não via mais nada (risos)… Seria um ser humano fraco se não enfrentasse a cegueira com a força e a raça com que enfrentei. Cresci com independência, com menos de treze anos estava na estrada como músico, viajando sem a família. Sempre fui um rebelde, só que com causa (risos).

Aos onze anos de idade tive minha primeira experiência sexual com uma menina linda de dezenove e aí foi um novo mundo que se abriu diante de mim: mulher é a coisa mais gostosa e mais maravilhosa que Deus colocou aqui. Se tem alguma coisa melhor, ele guardou para ele (risos). Não existe nada melhor do que beijo na boca, mão na mão, aquilo na mão, a mão e a boca naquilo (risos)… Porque cego, minha gente, faz sexo como qualquer pessoa e faz gostoso, viu?

Tenho 46 anos, moro em Salvador, sozinho. Faço minha comida, lavo banheiro, passo roupa. Sou músico profissional e sempre viajei por este país encontrando coisas que os teóricos e intelectuais da deficiência precisavam conhecer para aprender que o mundo não é binário, ou 0 ou 1; que além do preto e do branco tem o cinza e que, às vezes, a gente acende uma vela para Deus mas acaba tendo de ter uma boa conversa com o diabo.  

Considero uma estupidez, por exemplo, o ataque radical à gratuidade em produtos e serviços para cegos; a defesa radical de uma única opção, como a escola especial ou a regular, o braile ou o livro digital. O braile, por exemplo, só segrega quando vira uma religião, quando é a única escolha. Mas é imprescindível durante o ensino fundamental, é como o cego congênito aprende a escrever direito. O resultado desta não aprendizagem pode ser conferido todos os dias nas redes sociais, em erros de grafia que são um verdadeiro show de horrores.

A questão do braile é gravíssima neste país. As dificuldades que eu tive para ser alfabetizado com o recurso há mais de trinta anos são as mesmas de hoje! A criança cega recebe o livro didático em braile com até seis meses de atraso! Muitas vezes, só recebe o livro da primeira série quando já está na terceira! Os livros chegam apostilados, ou seja, incompletos e com pontos apagados, cada um é produzido de um jeito, não há padronização no Brasil. Outra: cansei de estudar em livros da década de 1950 e aprendi a escrever palavras como senhora e ele com acentos circunflexos: senhôra, êle. As bibliotecas ainda têm muitos desses livros e, ao contrário de quem enxerga, o cego não tem acesso a livros novos e acaba se confundindo com a grafia.

E por que tanta resistência em resolver este problema se basta a simples implementação de impressoras braile em todos os estados brasileiros? Porque o governo, desinteressado da questão da deficiência, delega a produção do livro braile a uma certa instituição paulistana de atendimento aos cegos, boa de lobby e que jamais vai largar esse osso e abandonar o lucrativo monopólio do livro acessível, ainda que à custa da exclusão do estudante com deficiência visual. Uma única empresa particular – porque é isso o que ela é na prática, uma empresa – não pode ser dona do livro acessível no país, o que é isso?

Olhe, como é que uma pessoa, cega ou não, vai exercer sua cidadania, reivindicar seus direitos, ter um bom desempenho profissional, desenvolver potencialidades e ter uma vida plena sem educação básica de qualidade? Ficamos discutindo o telhado enquanto o alicerce está frágil, capenga. O cego pobre não sabe que pode lutar por seus direitos porque existe toda uma rede para mantê-lo como está. E o cego que tem dinheiro, cultura e tecnologia a sua disposição e não luta precisa cair na real e saber que é tão invisível aos olhos da sociedade quanto o cara do interior do Brasil que usa um pedaço de pau como bengala.

Existe uma política proposital que tem o objetivo de manter a pessoa cega nesta situação. Ainda não temos no país um movimento forte e representativo de cegos. A maior organização brasileira não é capaz de nos representar, não é capaz de lutar por nós. Não é livre. É controlada pelas duas principais instituições paulistanas de atendimento a pessoas com deficiência visual que não poderiam, de jeito nenhum, ter qualquer tipo de participação ou parceria com ela. E o controle é tamanho que, no ano passado, o presidente de uma delas sentiu-se absolutamente à vontade para me insultar durante uma discussão no fórum virtual da organização, sem que nenhum de seus dirigentes se manifestasse.

E, enquanto isso, continuamos assistindo ao circo de horrores pelo país. Conheci um garoto cego com um buraco no lugar do olho direito, extraído como consequência de uma conjuntivite que se agravou porque nunca foi tratada; conheci uma menina cega que teve de tirar o útero, o ovário e as trompas por causa de uma infecção mal curada, provavelmente uma doença sexual sumariamente ignorada pelos pais porque, afinal, cegos não têm vida sexual; e uma criança cega que não conseguiu utilizar o Dosvox que chegou à escola porque estava sendo usado pelo diretor para ouvir música no computador, vê se pode isso!

Aí você vai dizer: mas essas são histórias comuns à pobreza e à ignorância, independem da deficiência! Eu respondo que a pobreza e a falta de informação são mil vezes piores quando associadas à deficiência. Quantas profissões pode ter quem enxerga? E um cego? Esta é uma bela balança para se medir as coisas. Nem ladrão ele pode ser, nem roubar comida para sobreviver ele pode, o que seria legítimo.

Não sou defensor da gratuidade em produtos e serviços para quem tem deficiência, mas não a condeno totalmente, assim como não condeno a educação especial, que deve ser complementar à escola regular. Professores sobrecarregados e mal pagos não dão conta de atender nem as crianças sem deficiências e não estão minimamente preparados para atender as que têm alguma deficiência. Se acusam a escola especial de excluir, é exatamente isso o que vai acontecer na prática em uma escola pública com vinte, trinta crianças com os mais variados tipos de deficiência.     

O que o cego precisa, antes de mais nada, é de um livro didático braile de qualidade e desde o primeiro dia de aula, padronização de calçadas e desníveis nas ruas, semáforos sonoros, orelhões e placas muito bem sinalizados, isenção de impostos sobre as ajudas técnicas e tecnológicas; quem tem deficiência não deveria pagar imposto onde 180 milhões não pagam – ou quem enxerga paga imposto sobre uma bengala ou sobre um computador? O leitor de tela importado entrou ‘inbox’, tem de pagar. 

Falando nisso, 98% dos cegos não sabem usar corretamente uma tela de computador. Devem precisar de atalho até para acertar o caminho até a mulher na hora do sexo (risos). Isso porque nenhum congresso ou ‘punhetódromo’ intelectual coloca na cabeça deles que são eles quem têm de se adaptar ao mundo e não o contrário. Cego tem de entender o básico: todo mundo pede ajuda, isso é normal, e se não pede vai pedir em algum momento da vida. O desenho universal é uma mentira, uma utopia, uma esperança tola. A multiplicidade de formas de se fazer a mesma coisa, como uma simples torneira, as diferenças entre os seres humanos, o dinheiro e a política nunca vão deixar tudo igual para todo mundo.

E com tantas questões importantes que afetam a vida de milhões de pessoas com deficiência no país, agora vem o governo estadual de São Paulo com uma delegacia especializada, era só o que faltava. Sugiro que criem também um banheiro público só para ceguinhos, mas com meninas lindas e de mãos macias para arriar nossas calças, segurar e mirar para nós no vaso porque nós não conseguimos sozinhos (risos). Nesse dia, pode apostar, eu me mudo para São Paulo.”

      

twitter: OutrosOlharesAD

     

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