Nem livro braile, nem livro digital: os cegos ao deus-dará

Impressoras braile que são enviadas a alguns estados e nunca saem das caixas ou, quando saem, não podem ser utilizadas porque faltam peças; livros didáticos em braile que chegam às crianças cegas nas escolas de todo o país com atraso de até seis meses, apostilados e com pontos apagados, isso tudo sem qualquer fiscalização por parte do governo. É esta a realidade que,  finalmente, vem sendo denunciada nas redes sociais por pessoas cegas há algum tempo.

Sem impressoras espalhadas pelo país – e funcionando -, a maior parte do livro braile no Brasil continua sendo produzida com verbas públicas por uma única instituição assistencialista para cegos no país (!), localizada na capital paulista, que tem em seu acervo apenas seis mil títulos disponíveis, número absolutamente insignificante e impossível de se equiparar aos cerca de 80 mil novos títulos lançados anualmente pelo mercado editorial brasileiro.

Se o braile é fundamental para a alfabetização dos que nascem cegos ou perdem a visão ainda crianças, os que ficam cegos já adultos – a imensa maioria – quase não o dominam e, por isso, até pouco tempo atrás tinham nos livros gravados pelas instituições assistenciais a única opção de acesso à informação e ao conhecimento escritos. Isso mudou. Há anos, o mundo digital vem substituindo rapidamente tanto o braile como os livros gravados de maneira irreversível. Com a enorme revolução trazida pelos programas ledores de tela para computadores e celulares, todo o conteúdo digital é lido em voz alta para o cego, transformando textos em áudio e a briga, neste caso, é para que cada vez mais os sites sejam acessíveis.

Mas as editoras não vendem livros nos formatos digitais acessíveis e as bibliotecas não dispõem de scanners de voz para que os cegos possam digitalizá-los e ouvi-los gratuitamente – a próxima biblioteca classificada como “acessível”, com inauguração prevista para setembro na capital paulista, dentro do Parque Villa-Lobos, conta apenas com um conversor de texto para braile! Alguns museus e bibliotecas deveriam começar a substituir o enganoso termo “acessível” por “com alguns recursos de acessibilidade”, não?

Como, então, uma pessoa cega faz para ter acesso aos livros? Quem pode, compra um bom scanner de voz ou recorre a uma das várias empresas que oferecem o serviço de digitalização de textos. Quem não pode, fica sem. Ou pede à instituição paulistana, entra na fila e espera meses até receber seus livros gravados gratuitamente. Por isso é que para estudar, por exemplo, é cada vez maior o número de cegos que preferem os cursos virtuais, nos quais estão em pé de igualdade com todos os colegas, já que todo o conteúdo didático é digital.

“Meu neto é cego, tem doze anos, adora livros e é claro que prefere mil vezes o digital ao braile! Ou alguém acha que ele vai querer aquele peso todo de mais de um volume em braile para cada livro em tinta que os colegas que enxergam lêem?”, diz a dona de casa Maria Eugênia. E continua: “Já pensou se as editoras inventam de vender livros em braile? Com os apartamentos pequenos de hoje em dia, meu filho, minha nora e ele vão ter de se mudar para um galpão!” (risos) “Hoje a meninada já nasce em cima de um computador, ele é cego e também usa o computador o dia inteiro como todo mundo, é fácil, rápido, compacto! É desumano não venderem livros digitais acessíveis da mesma forma que vendem em tinta para quem enxerga”, conclui.

Maria Eugênia tem razão. Segundo notícia publicada no site R7 em 27 de abril, pesquisa realizada pela empresa de tecnologia AVG com 5.423 pais de dez países indica que 73% das crianças entre 3 e 5 anos já utilizam algum aplicativo educacional. Outro resultado revelado é de que, no Brasil, 97% das crianças entre 6 e 9 anos já usaram a web, contra 89% no restante dos países pesquisados.

Segundo dois respeitados experts em acessibilidade e estudiosos das deficiências, ambos cegos e um deles português, ainda não temos no Brasil nenhum movimento ou organização com força e representatividade que realmente defenda os direitos dos cegos. Nem nesta, nem em nenhuma outra questão que envolva a verdadeira inclusão de quem não enxerga. Se esta árdua luta existisse, talvez a Lei 10.753/2003, a chamada Lei do Livro, que dispõe sobre a acessibilidade no mercado editorial, já estivesse em vigor e os cegos pudessem escolher e comprar seus livros das editoras e livrarias, como quem enxerga. Ou, pelo menos, que já existisse a obrigatoriedade de acessibilidade nos livros de qualquer editora que fosse participar de licitações públicas.

Os três recentes exemplos em São Paulo de quem por obrigação deveria promover a acessibilidade pelo menos em seus próprios livros só confirma o total descaso com que o tema é tratado. Atuando em cargos públicos na defesa dos direitos das pessoas com deficiência ou à frente de uma associação assistencialista para cegos, as autoras, quando muito, disponibilizaram apenas audiolivros em suas publicações – uma delas, nem isso! Segundo os dois estudiosos, não há confronto, questionamento ou ameaça a esse verdadeiro cartel do livro acessível que atua livremente no eixo São Paulo-Brasília e que só admite que os cegos tenham acesso ao braile e, no máximo, aos livros gravados por instituições assistenciais.

Felizmente, nota-se um ainda pequeno, mas combativo movimento de pessoas cegas, indignadas e contundentes em seus protestos, denúncias e reivindicações – fenômeno inédito em um segmento até então historicamente silenciado. Movimento que já conta com um também ainda tímido número de simpatizantes, que atuam no meio em todo o Brasil e manifestam seu apoio enviando as postagens a universidades, jornalistas, parlamentares e órgãos de defesa de direitos humanos, dentro e fora do país. Quem sabe, um passo além para a transformação que todos nós queremos e vai aqui, a todos eles, um agradecimento muito especial.

 

twitter: @OutrosOlharesAD

           

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