No mundo encantado da Cegolândia (as mentiras que parecem verdades na vida de quem não enxerga)

Não estamos nem na metade do ano e as invencionices para vender a falsa ideia de inclusão já saem pelo ladrão. Da criação em São Paulo da excludente delegacia de polícia só para pessoas com deficiência, tema que mereceu um post inteiro no blog, ao lançamento do telefone em braile, as notícias são reproduzidas rapidamente e porque costumam convencer leigos e crédulos, que em geral acreditam que pessoas que trabalham em prol da deficiência são sempre muito bondosas e totalmente desapegadas, sempre vale a pena chegar mais perto e conhecer algumas histórias um pouquinho melhor.

Abril deste ano, São Paulo. Na décima terceira edição da Reatech, considerada “a maior feira de acessibilidade e tecnologias para pessoas com deficiência da América Latina”, o visitante cego ainda não consegue percorrê-la nem conhecê-la sozinho, com autonomia. Este ano não havia nem pisos táteis e, mesmo quando estavam ali, de nada adiantavam sem um dos simples e baratos dispositivos eletrônicos que fazem com que, por meio de fones de ouvido, ele receba as informações gravadas sobre os estandes ao passar por cada um deles. Sim, existem monitores para guiá-lo e informá-lo sobre a feira, mas mesmo assim, são muito poucos para os dias de maior movimento, quando assistimos a cada um conduzindo vários cegos em fila – como compreender este único recurso em um evento voltado à acessibilidade e à tecnologia?

Em compensação, havia em dois estandes os chamados “túneis sensoriais”, totalmente escuros, com sons, aromas e texturas para que o visitante experimentasse como é ser cego, ainda que por alguns instantes. “Não se cansam desses túneis ou jardins sensoriais, que só servem mesmo para que quem enxerga saia deles dando graças a Deus por não ser cego e morrendo de pena de nós”, diz o advogado português João Filipe. “Já fiquei na saída de alguns com minha esposa, que enxerga, e só ouvimos coisas como: ‘nossa, como é que eles fazem, coitados?’; ‘ah, a gente tem muito a agradecer mesmo’; ‘quanta dificuldade, né?’; ‘Deus me livre!’ e por aí vai”.

Já as secretarias estadual e municipal da pessoa com deficiência de São Paulo divulgaram várias ações inclusivas para este ano, entre elas o cadastro de todas as pessoas com deficiência e o levantamento dos obstáculos à acessibilidade na cidade, fotografados ou filmados por voluntários com deficiência física. As perguntas inevitáveis: a esta altura do campeonato, ainda não sabem quem são as pessoas com deficiência? Ainda não conhecem as dificuldades de acessibilidade pelos bairros? Como é possível a implementação de qualquer política pública eficaz sem estas informações?

Em pleno ano de eleições, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) também deu um truque na obrigação de promover acessibilidade ao solicitar que os eleitores cegos transferissem suas seções originais para seções acessíveis e anunciou a iniciativa como se fosse uma grandiosa ação inclusiva! Só que o eleitor cego pode e deve exigir votar em sua seção original porque todas as urnas dispõem de um software de acessibilidade que basta ser acionado pelos mesários. Que papelão…

E o lançamento do telefone com teclado em braile, divulgado à exaustão como se fosse a reinvenção da roda? Basta contar quinze minutos no relógio a partir da divulgação pelos sites de uma notícia como essa e acessar as redes sociais e listas virtuais de discussão para conferir a explosão de comentários indignados dos cegos: “O que aconteceu com o velho e bom teclado universal, com o número 5 ao centro e a bolinha em relevo para marcá-lo, conhecido e utilizado desde sempre em todo o planeta e por todo mundo?”; “essa é boa! mais um engana-trouxa para cego no mercado!”; “enquanto criam mais uma inutilidade para cegos, cadê a acessibilidade nos menus e controles remotos das tvs?” Pois é.

E, por fim, o polêmico e recém-lançado livro em braile que reúne textos inéditos de alguns dos mais conceituados autores brasileiros (palavras que, além de invisíveis, são também incompreensíveis até mesmo para os cegos, já que a imensa maioria não domina o braile e deverá ouvi-lo como quem enxerga: em computadores e celulares). Jornalistas, desinformados e/ou desinteressados do tema como a maioria dos leigos, caíram feito patos nessa bela e comovente, porém óbvia armadilha marqueteira que, enviada aos chamados “formadores de opinião” de todo o país, cumpriu seu objetivo: reforçar ainda mais o estigma do cego que tem como únicas opções o braile e a caridade.

A obra foi lançada pela produtora oficial do livro braile no país, a instituição assistencialista para cegos que prega inclusão, quando inclusão significa garantia de direitos e não caridade; que em carta aberta declara seu apoio a todos os formatos acessíveis dos livros, inclusive o digital – mas desde, claro, que continue sendo a única a produzi-los no Brasil e para isso faz o que pode… e o que não pode. Pior: com as eternas bênçãos (e verbas) dos governos.

João Filipe resume: “A história mostra que o assistencialismo virou meio de vida para muita gente porque sempre ocupou os espaços abandonados pelo Estado. As entidades filantrópicas deveriam ser apenas auxiliares, centros de apoio aos governos e não as únicas responsáveis pelas políticas de acessibilidade das pessoas com deficiência. Um belo de um nicho de mercado para onde foram e continuam indo homens engravatados, que abrem mão de suas profissões em nome da caridade (risos) em lugares onde antes só existiam dedicadas voluntárias, geralmente senhoras religiosas da alta sociedade”.

O arquiteto Renato Barbato, cego, define: “São as pessoas com deficiência quem sempre devem ser ouvidas nas questões que as envolvem e não entidades e organizações que falam por elas. É  o único caminho para que nossas necessidades sejam realmente atendidas”. Bom, a boa notícia é que se tanta gente finge há tanto tempo trabalhar pela inclusão, pelo menos agora – a julgar pelo número de comentários críticos abaixo das matérias de divulgação do livro em braile – já nem todo mundo finge que acredita.

 

twitter: @OutrosOlharesAD 

 

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