As deficiências na mídia: quanto mais lágrimas, melhor?

 
Sérgio é expert em tecnologia em uma multinacional. É casado, pai e cego. Já aconteceu de contar a algumas pessoas que tem uma filha e ouvir coisas do tipo: “Mas, como assim, tem uma filha? Como é que você fez?” Gilson, baixa visão, mora próximo a uma entidade assistencialista para cegos que nunca frequentou, passa em frente a ela quase todos os dias para ir à faculdade e, quando está um pouco à frente, é comum alguém gritar: “Você passou, volta! A entrada é mais atrás!” Ele sempre diz que as pessoas parecem acreditar que cego na rua só pode estar indo a três lugares: ou a alguma instituição assistencialista, ou ao médico ou à igreja. E as inúmeras vezes em que tem de explicar que, sim, usa computador e celular e o tempo todo? “Se digo que vou mandar alguma coisa por email, lá vem a pergunta: mas cego manda email?”, conta, rindo. 
 

Já Andreia toma ônibus cheio todos os dias para ir ao trabalho e, quase todos os dias também, alguém oferece a ela um assento, sendo que muitas das vozes gentis são de pessoas maduras. “Sou jovem e saudável, só não enxergo. Não preciso sentar”, explica. A coisa é pior quando engata uma conversa com alguém, que ao saber que ela está indo trabalhar, comenta: “É bom, né? Distrai um pouquinho…” (a jornalista Lia Crespo, cadeirante, um dos principais nomes da luta pelos direitos das pessoas com deficiência no país, já ouviu a mesma coisa de um taxista e respondeu que seu trabalho não era distração e que para se distrair preferia fazer muitas outras coisas…) E tem o Beto, alto e forte, cego também, que ao visitar um museu e deixar sua mochila no guarda-volumes, ouviu do atendente: “Pode pegar seus remédios, se for precisar, tá?” E um morador de rua que, bêbado, disse um “Deus te ajude” para o sempre elegante Paulo, assim que viu a bengala branca?  

As histórias são muitas e, infelizmente, a dependência, a incapacidade, a pobreza e o sofrimento parecem ser as únicas características que a maioria das pessoas associa às deficiências. A mesma ideia, fruto da falta de informação, faz com que jornais e emissoras de rádio e TV apenas perpetuem essa imagem. “Não somos considerados um público consumidor, essa é a razão para tanto desinteresse”, resume o aposentado J.C., cego. Um pouquinho de filosofia ajudaria a compreender como são construídas certas verdades absolutas nos mais diversos campos sociais, há muito tempo arraigadas no imaginário das pessoas e muito, muito difíceis de modificar.        

“Hoje já não existem espaços nos jornais para análises, discussões e debates profundos, com textos longos e reflexivos. As matérias são curtas e superficiais; editores muito jovens querem entender um assunto em cinco minutos e o que vale é a quantidade de informações em detrimento da qualidade”, explica uma respeitada jornalista de São Paulo, dona de uma assessoria de imprensa e de um currículo que inclui alguns dos principais veículos de comunicação do país, além de uma longa história de luta por causas sociais. “Temas específicos e complexos, ainda que urgentes, como a questão da falta do livro digital acessível no país ou o descumprimento de outras leis que garantem os direitos de quem tem deficiência, levam tempo só para ser compreendidos e não despertam interesse. O que atrai e vende mesmo são histórias chorosas de superação com a ajuda da caridade ou aquelas que passem a ideia de novidade e vanguarda, ainda que algumas vezes estejam muito longe disso”, conclui.

Um exemplo gritante de como a avidez por “novidade e vanguarda” pode não dar certo foi a divulgação pelo jornal Folha de S.Paulo do recente e desastroso desfile de moda para cegos, realizado na capital paulista, que apresentou inacreditáveis calças com elástico na cintura, bolsos com números em relevo e peças com texturas diferentes na frente e atrás, tudo para “facilitar” a identificação e o vestir! Um festival de bizarrices que provocou imediata e indignada reação de dezenas de pessoas com deficiência visual em todo o país. Se você, leitor, enxerga e não tem nenhuma dificuldade motora, certamente algum dia já se vestiu no escuro sem problemas e sem a menor necessidade de roupas especiais, não?

Enquanto publicam matérias como essa ou divulgam praticamente na íntegra textos que chegam das assessorias dos cachorros grandes da chamada indústria da deficiência, sem jamais questionar suas ações nada inclusivas, a cruel realidade de quem tem algum tipo de deficiência visual – e qualquer outra – no país continua totalmente desconhecida. Os brasileiros não têm acesso nem mesmo a óculos de grau, o que dificulta imensamente suas atividades diárias e compromete seriamente a aprendizagem escolar de milhares de crianças. Óticas brasileiras chegam a ter um lucro de 200% a 300% em cima da venda dos óculos e o Sistema Único de Saúde (SUS) não pode fornecê-los à população simplesmente porque não são considerados materiais médicos, segundo informações apresentadas durante o Simpósio para Prevenção e Diagnóstico da Cegueira, promovido pela USP no início de abril em São Paulo, com a participação de oftalmologistas da universidade e convidados estrangeiros.

Ainda segundo dados do Simpósio, pesquisas apontam que a cegueira tem tanto impacto na qualidade de vida de uma pessoa quanto o câncer e a diabetes; esse impacto é ainda maior do que o causado por um AVC com sequelas importantes; muitos dos pacientes com doenças oculares ficam cegos porque não recebem informação nem orientação adequadas sobre a doença e seu tratamento – como poderiam, em consultas que não duram nem cinco minutos?  

Tem mais: somente 50% dos pais brasileiros levam seus filhos a consultas com oftalmologistas; as doenças oculares infantis costumam ter um tratamento longo e penoso para as crianças, geralmente à base de colírios que devem ser administrados algumas vezes por dia, o que fica inviável quando os pais trabalham o dia todo e elas ficam em casa, sozinhas ou com irmãos pequenos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 80% dos casos de cegueira em todo o planeta ocorrem em pessoas com 50 anos de idade ou mais, sendo que mais da metade dos casos são evitáveis e recuperáveis com tecnologia. A detecção e o tratamento das principais doenças oculares que levam à cegueira são rápidos, fáceis e de baixo custo. E o consenso é o de sempre: o que falta no Brasil é vontade política.

Por fim, mais um obstáculo à disseminação de conhecimento e informação da área é o fato de não haver, nos principais veículos de comunicação do país, jornalistas especializados no tema deficiências, a exemplo do que acontece nas áreas de economia ou educação, para as quais não faltam grandes articulistas com análises críticas e politizadas. As pautas sobre as deficiências são encaminhadas a repórteres cadeirantes ou com baixa visão, o que sem dúvida ajuda, mas não é nem de longe o desejável, nem suficiente e muito menos determinante para a produção de bons artigos e matérias.      

Para isso, basta o interesse genuíno pelo tema, acompanhado do suporte de consultores éticos,  independentes, com sólido conhecimento teórico e experiência no tema em seus mais variados aspectos, além de entrevistados com deficiência, politizados e não institucionalizados, que possam retratar sua própria realidade com liberdade, seriedade e coragem. E aí, a maior surpresa certamente será a rápida constatação do mais poderoso obstáculo à inclusão: as próprias pessoas com deficiência, mais de 45 milhões em todo o país, uma legião de gente historicamente silenciada, manipulada e vitimizada, que dificilmente lutará por direitos que nem sabe que tem, acostumada que está à dependência trazida pela caridade, eternamente grata a ela e que parece ficar satisfeita somente porque, vez ou outra, a quantidade de migalhas aumenta. Pensando bem, motivo é o que não falta para sentar e chorar mesmo.

 
twitter: @OutrosOlharesAD 

 

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