A cegueira e os livros, uma (difícil) história de amor

 
Por Deise Fernandes
 

“Desde muito criança me encantei com os livros. As histórias, figuras coloridas, as fantasias que conseguia criar em meus sonhos me levavam para outras dimensões. Lembro-me como se fosse hoje do primeiro livro que ganhei, O Patinho Feio. Eu devia ter uns sete anos, logo depois de ter começado o meu primeiro ano na escola. Nem sabia ler direito, mas queria tanto conhecer aquela história, que me esforcei muito em aprender as letras e todos os dias abria o livro e tentava reconhecer o que tinha aprendido. Foi maravilhoso o dia em que consegui ler  todas  as palavras, frases,  o que queria dizer aquela história. Até hoje ela me  traz aprendizados.  Não raro, me lembro e me sinto trilhando os mesmos passos do Patinho Feio.

Depois desse clássico infantil, foram inúmeros os livros que li. Aqueles solicitados pela escola e muitos outros que encontrava na biblioteca, na casa de amigos, além dos que eu pedia como presentes de aniversário e de Natal. Mesmo assim, não conseguia ler tudo o que queria, porque nasci com miopia e naquela época existia a crença de que minha visão seria mais prejudicada se lesse muito.  Lembro-me de que, às vezes, acordava de madrugada para ler escondido de meus pais.

Até os meus 15 anos, consegui ler muitos livros, mas a partir daí as coisas mudaram. Nasci com miopia e em consequencia tive deslocamento de retina, perdi a visão e já não pude mais ler os livros impressos.

Aos 15 anos, por outros motivos,  fiquei cega e,  depois de aprender o braile, quis ler todos os livros que existissem nesse método. Qual não foi o meu susto ao descobrir que todos os livros que existiam em braile, ou eu já tinha lido, ou eram  infantis. Pior ainda foi quando, ao retomar os estudos, descobri que não existia nenhum livro indicado pelos professores que tivesse  sido transcrito nem para o braile nem gravado como Livro Falado. E aí começou a minha saga do Patinho Feio. Eu era a diferente  em todos os ambientes dos quais participava. Já não conseguia conversar com amigos sobre literatura, não conseguia acompanhar as aulas por não ter lido os textos indicados pelo professor, já não tirava as notas máximas, sempre por não ter material de estudos.  A minha única alternativa era gravar as aulas e depender da boa vontade de amigos em gravar os textos para que eu pudesse ler. O que nem sempre era possível por conta dos prazos apertados para ler muitas páginas.  Consegui me formar no ensino médio com notas medianas, para não dizer medíocres. Outro dano enorme e que me fazia sentir mais Patinho Feio ainda foi a impossibilidade de alimentar meus sonhos, minhas fantasias, minha imaginação. A falta da leitura nos impõe uma vida árida, seca e sem cor.

Nos anos de faculdade essa situação se agravou. Fiz Ciências Sociais na UNICAMP e a exigência de leitura era enorme. Precisei contar com a colaboração de professores e de amigos da sala e só nós  sabemos  as peripécias que tivemos  de fazer para conseguir ler o mínimo exigido pelo curso. Muitos dos livros que eu deveria ler na época da faculdade, dos anos 1976 a 1979, só consegui ler muitos anos depois, quando apareceram os softwares ledores de telas (programas que fazem a leitura em voz alta dos textos no computador para pessoas com deficiência visual).

Antes desses softwares, apareceram os Livros Falados, o que  me pareceu uma solução, porém, os títulos e autores oferecidos nem sempre, aliás, quase nunca eram os que eu gostaria ou precisaria ler. O que novamente me limitou muito o acesso ao  conhecimento. 

Quando chegaram os softwares ledores de telas, tive uma enorme esperança e até achei que tinha chegado a hora de virar cisne.  Afinal, agora seria possível ler tudo o que eu quisesse, poderia entrar em uma livraria ou biblioteca e escolher qualquer um entre os milhares de títulos disponíveis. Todos os livros seriam em formato digital. Outra vez me frustrei. Se eu quiser ler alguma coisa, terei eu mesma de digitalizar os livros, depois corrigir e só depois ler, ainda correndo o risco de levar um processo por estar reproduzindo obras sem autorização da editora e do autor.

Fico me perguntando: quando será que eu poderei ser o cisne da minha história? Quando eu poderei entrar em uma livraria e comprar o livro que quero ler em formato digital?

Espero que eu não vá embora da vida sem ter esse prazer.”

Depoimento extraído do site do PMLLLB-SP (Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca da Cidade de São Paulo) – pmlllbsp.com. O Plano tem o objetivo de ampliar o acesso à leitura na cidade e está sendo elaborado por representantes de editoras, bibliotecas e governo municipal, entre outros. O setor de acessibilidade é representado pelo Movimento Cidade para Todos e pelo MOLLA – Movimento pelo Livro e Leitura Acessíveis no Brasil.

 
twitter: @OutrosOlharesAD 
 
 
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