Mulheres cegas ficam em casa

Pelo segundo ano consecutivo, o Núcleo dos Direitos da Universidade de São Paulo (USP) promoveu o Seminário Cidade, Espaço e Pertencimento, nos dias 21 e 22 de agosto, trazendo debates de altíssimo nível sobre políticas públicas para a cidade em seus mais variados aspectos. A mesa mais concorrida, com auditório lotado, foi sobre diversidade, diferenças e direitos e foi aí que o bicho pegou.

Ao falar sobre a violência contra mulheres com deficiências, a palestrante, cega, em nenhum momento mencionou a palavra “direitos”. Em seu lugar, fez a defesa das associações assistencialistas como único caminho possível para que essas mulheres recebam alguma orientação. Afirmou que as delegacias de polícia não estão preparadas para atendê-las, assim como os médicos também não estão e, já que também não há acessibilidade nas cidades, as mulheres com deficiências ficam em casa, isso tudo com o tom de quem retrata uma situação sobre a qual nada há a fazer.

Questionada por uma professora na plateia, que classificou as associações assistencialistas como “guetos ultrapassados que segregam pessoas”, a palestrante respondeu que ela mesma nunca foi associada porque “teve uma família bem orientada” – e esta conveniente, porém falsa e perigosa ideia que atribui apenas ao indivíduo e a sua família uma responsabilidade que é social, apenas reforçou a sensação de total desperdício de uma raríssima oportunidade de debater com liberdade, informação e consistência (e, principalmente, fora do meio) um tema quase desconhecido pela maioria das pessoas.

Também na plateia, um professor contou que teve um aluno cadeirante com quem aprendeu que “pessoas com deficiência não precisam de pena, precisam de ajuda”. Dessa vez, a salvação da lavoura veio do secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, Rogério Sottilli, que foi curto e grosso: “Professor, seu aluno não precisa de ajuda. Precisa de direitos: os direitos dele têm de ser cumpridos como os de qualquer pessoa e para isso só existe um caminho que é o da educação inclusiva e ponto final”.

Duas semanas antes do seminário, discutiu-se na imprensa a necessidade ou não da implementação dos chamados vagões rosas no metrô de São Paulo, a exemplo dos que existem nos trens do Rio de Janeiro: vagões exclusivos para mulheres, que, assim, ficam livres de assédios sexuais. De um lado, mulheres que defendem o vagão especial com o argumento de que é a maneira mais rápida e eficiente de garantir sua segurança. De outro, as que são contra dizendo que o vagão segrega e não resolve o problema principal que é o machismo, a covardia masculina que agride, intimida, constrange e humilha.

“O próximo passo será termos de andar em calçadas diferentes porque tem homem que não respeita mulher”, brincou uma moça em um programa na televisão. “Se o vagão rosa está lotado, e sempre está, e a mulher toma outro, é olhada como alguém que não se importa ou está ‘pedindo’ o abuso”, diz outra. Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, edição de 09 de agosto, a historiadora Mary del Priore afirma: “O vagão rosa é uma alternativa para aquelas que possam se sentir mais visadas, mas é preciso uma política de educação, como vem sendo feita nos países desenvolvidos”.

As mulheres não podem esperar que as políticas de educação sejam implementadas com bons resultados para só depois saírem de casa e tomarem trens, ônibus e metrôs e contam com algumas medidas estabelecidas nas estações, como a distribuição de apitos amarelos por uma ONG, para serem utilizados no momento da agressão, ou os funcionários que entram nos vagões apenas para perguntar: “Tudo bem aí, meninas?”

Para milhares de mulheres, porém, o problema começa bem antes do transporte público. Daniela, 20 anos, moradora da zona leste de São Paulo, anda seis dias na semana por um bom trecho deserto e de matagal ao longo de uma linha de trem até o ponto de ônibus, isso às cinco e meia da manhã. “Vamos em um grupo pequeno de meninas, mas toda vez que vou sozinha, visto moletom com capuz ou boné, para esconder os cabelos compridos, além de calça larga, tênis e mochila, para parecer menino e escapar de estupros. Todas nós fazemos isso”, conta.

E para as mulheres cegas, é pior? Certamente que sim. Assim mesmo, os riscos não impedem que estudem, trabalhem e saiam à noite e exemplos não faltam. Em peças de teatro com audiodescrição em São Paulo, já é comum vê-las com namorados e amigos, todos cegos, ou até mesmo sozinhas, como a menina conhecida pela paixão por rádio que, na porta do Teatro do SESI, na Avenida Paulista, desistiu da lanchonete que ficava em uma das travessas escuras por uma questão de segurança e resolveu jantar em casa, ou a garota que em frente ao Teatro Sérgio Cardoso, no bairro do Bixiga, esperava a companhia de estranhos para dividir um táxi até o metrô – e isso às onze e meia da noite.

As mulheres cegas há tempos já não têm como única opção as associações e entidades assistencialistas, históricos vagões rosas sobre os quais não há discussão, nem debate, nem polêmica nos jornais e na televisão. Vagões rosas que também não são acompanhados de “políticas de educação” que, neste caso, seriam as campanhas de conscientização para promoção de acessibilidade. Vagões rosas que simplesmente perderiam sua função se direitos fossem cumpridos e respeitados.

Enfim, ninguém melhor para falar sobre o assunto (e tantos outros relacionados à deficiência visual) do que essas mulheres inteligentes, sensíveis e corajosas, cuja lucidez e histórias de vida falam por si: Elizabet Dias de Sá (sempre), Deborah Prates, Deise Fernandes, Liliane Moraes, Vilma Roberto, Késia Pontes, Aline Wanderer e Fernanda Almada, só para citar algumas. Ministrando palestras, ou em textos que vão do mais sofisticado ao mais simples, ou ainda com suas irônicas tiradas nas redes sociais e francas reflexões em listas de discussão, fazem muita diferença e, em um mundo digital, até mesmo quando ficam em casa.

twitter: @OutrosOlharesAD

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