Cego e, ainda por cima, gay!

“A primeira vez que fiquei com um homem tinha 19 anos e foi durante uma festa em Porto Alegre. Bebi um pouco para conseguir relaxar, fomos dançar e, quando dei por mim, começaram uns beijos e amassos fortes, rápidos, deliciosos. Impossível esquecer o que senti, um mundo novo se abriu para mim naquele momento e soube que aquilo era tudo o que eu sempre quis e bem melhor do que eu sonhava. Saímos dali para um motel, onde rolou de tudo e foi uma das melhores sensações de toda a minha vida: intensa, profunda, completa. Meu nome é Alexandre, tenho 31 anos e sou cego.

Sempre soube da minha homossexualidade, os outros é que não sabiam ou fingiam não saber. Tinha quatro ou cinco anos e gostava de brincar só com meninas, adorava as bonecas da minha prima, ficava um tempão penteando os cabelos longos delas, colocando as roupinhas que minha mãe costurava. Sempre gostei de tecidos, texturas, relevos, trabalharia com moda se enxergasse. Em casa, diziam que era curiosidade de cego, apenas uma entre as centenas de bobagens que já ouvi e continuo ouvindo na vida, mas meu pai não gostava nem um pouco dessa preferência e perguntava por que é que eu não tinha curiosidade pelos carrinhos ou pela bola (risos).

Não sou afeminado, não tenho trejeitos nem qualquer afetação e, por ser cego, minha sexualidade nunca foi uma questão em casa. Quando entrei na adolescência, comecei a sentir atração por alguns meninos, mas confuso, cheio de medos e culpa, ficava na minha. Minha mãe começou a dizer que só ficaria tranquila quando me casasse com uma ‘moça boa’ que cuidasse muito bem de mim. A ‘moça boa’ apareceu quando eu tinha 17 anos. Ela tinha 22, era uma vizinha nossa, extrovertida, gostosa e… cheia de fogo! (risos). Ficamos amigos e logo percebi que ela se sentia atraída por mim. Fiquei envaidecido e embarquei na história. A torcida da minha família para o namoro foi grande. Já a família dela mal disfarçava a preocupação e o constrangimento. Tempos depois, soube que os pais só concordavam que fôssemos a festinhas e ao cinema porque achavam que era mais um namorico sem importância da filha.

Um dia, ficamos sós em casa e fomos para meu quarto ouvir uma música, como fazíamos sempre. Deitada na cama ao meu lado, uma hora ela pegou uma das minhas mãos e começou a esfregar sobre os seios nus, já tinha aberto a blusa e levantado o sutiã. Minha outra mão ela colocou entre suas pernas, dentro da calcinha porque já tinha levantado a saia também, e beijou minha boca. Fiquei assustado, mas correspondi um pouco para não magoá-la com uma rejeição tão rápida porque não senti absolutamente nada além da vontade de tirar minhas mãos dela e pedir que se vestisse. Levantei dizendo que estava nervoso, que não estava preparado. Foi bom porque ali tive toda a certeza do mundo de que mulher nunca foi e jamais seria a minha praia (risos). Alguns anos depois, rindo, ela me contou que soube que eu era gay quando, naquela hora, perguntei a ela qual era o nome do perfume que estava usando e aproveitei para saber também a marca do xampu, adoro cheiros e aqueles eram maravilhosos.

Saíamos sempre juntos e foi essa querida amiga quem me mostrou um mundo solidário, generoso, respeitoso e acolhedor de amigos instruídos e sem preconceitos, que me ajudaram a entender os contextos social e político de minha deficiência visual e de minha homossexualidade, a me aceitar melhor e, com isso, economizei anos e anos de sofrimento dentro do armário graças ao bem mais valioso que alguém pode ter: informação. Com dezoito anos, contei a meus pais que era gay e aí a casa caiu.

Minha mãe começou a chorar, meu pai gritava que não admitiria um ‘filho boiola’ dentro de casa de jeito nenhum. ‘Cego e, ainda por cima, gay!’, ele repetia. Ouvi essa frase muitas vezes, de muitas pessoas. Alguém me explique o que tem uma coisa a ver com a outra. Duas tragédias na vida da mesma pessoa? Cego só pode ser assexuado, como os anjos? ‘Duas vezes discriminado’, explicou minha mãe. E sentenciou: ‘Meu filho, de cego as pessoas têm pena, mas de gay têm raiva’. E é isso mesmo: sou considerado coitado por ser cego e sem-vergonha por ser gay, olha que legal! Depois disso, junto com tios e primos, quiseram me arrastar para terreiros, centros espíritas, médicos e psicólogos para resolver o meu ‘problema’. Eu não fui a lugar nenhum. Apelaram até para minha amiga, pedindo que ela ‘desse um jeito’ em mim. Com delicadeza, mas com firmeza, ela respondeu: ‘Desculpem, mas quem precisa tomar jeito são vocês’.

Fui morar no Rio de Janeiro, com uma prima. Trabalho e estudo, conquistei liberdade e independência, mas o preconceito ainda é muito grande, no meu caso em dose dupla. Gays são extremamente vaidosos e muito exigentes com a aparência de seus parceiros. Nesse meio, os egos são bastante inflados. Já tomei muitos ‘nãos’ pela internet assim que contei que era cego, mas os poucos ‘sins’ vêm de pessoas incríveis, sensíveis, desarmadas e capazes de fazer o outro completamente feliz.

Adoro o jeito sensual dos cariocas e a doçura dos baianos, mas confesso que tenho um fraco mesmo é pelos gaúchos, já fiquei com alguns, dois cegos e dois com baixa visão. Eles têm ‘pegada’ boa, que enlouquece qualquer um junto com aquela fala cantada, cheia de ‘tus’ (risos). Lembro bem da minissérie A Casa das Sete Mulheres, adorava as músicas e minha prima ia narrando as imagens para mim, com aqueles homens a cavalo, de ponchos, chapéus e lenços vermelhos no pescoço, acho que minha paixão pelos gaúchos começou ali (risos)…

Sou um cara simples, discreto e procuro levar a vida com bom humor, otimismo e esperança. Gosto de alegria, de uma praia, uma cerveja, um samba, uma balada. Me cuido muito também. Tenho uma alimentação saudável, faço esteira em casa quase todos os dias, uso bons cremes no rosto e no corpo e adoro moda: as amigas estão sempre me levando para as lojas para eu conhecer as novidades!

Isso não significa que não brigo por meus direitos: política não é algo distante que acontece em Brasília e que só merece atenção durante as eleições. Política se faz todos os dias, em casa, na rua, na escola, no trabalho, para a construção de uma sociedade melhor, de uma vida melhor para as pessoas. É a política que rege a vida da gente e é a velha história: se você não gosta dela, vai ser governado por quem gosta. E nisso, infelizmente, as pessoas com deficiência ainda estão lá atrás. Invisíveis. Os cegos, principalmente. O que temos são leis e mais leis que ninguém conhece, nunca saíram do papel. E não vão sair enquanto os interessados não se mobilizarem de verdade pelo cumprimento de seus direitos. Não é fácil e, algumas vezes, um belo de um piti costuma funcionar bem (risos). Respeito é bom e eu gosto.”

twitter: @OutrosOlharesAD

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13 Respostas para “Cego e, ainda por cima, gay!

  1. Olá, Alisson! O único que conheço é o grupo “Deficientes Gays”, que se apresenta como um “projeto voltado à interação entre deficientes gays e não-deficientes que desejam relação homoafetiva”. O blog está no endereço deficientesgays.wordpress.com, mas certamente devem existir outros grupos, é só pesquisar na internet. Um abraço!

  2. Alexandre, boa noite. Primeiramente, gostaria de te parabenizar por sua coragem e força. Achei sua história incrível.
    Para mim, todas as pessoas no mundo são deficientes, uns com deficiências físicas e outros com não físicas, como incapacidade de amar ao próximo, incapacidade de perdoar, incapacidade de ver e enxergar além do que é visível aos olhos. Acredito que há cegos que enxergam mais do que uma pessoa com boa visão, pois cegos não vêem aparências. Isso, em meu pensamento, é um lado bom de ser deficiente visual (eu não sou deficiente visual, corrija-me se eu estiver enganado, por favor).
    Fico na torcida para que seus familiares percebam a tempo o mal que fizeram e possam de alguma maneira compensar o tempo perdido. Que Deus te abençoe e te conceda muitas vitórias.

    Abraços.

    Eduardo.

  3. Adorei a história… tenho loucura e sonho um dia em se apaixonar por gay com acuidade visual diminuída… sou de Bauru. tb mto discreto…

  4. Olá me chamo Júlio, não sou cego, mais já senti mto preconceito por ser gay. Vi e achei lindo o filme HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO. Eu seria feliz e me entregaria de corpo e alma a alguém assim, deve ser legal ser os olhos e as pernas de alguém

  5. Eu sofro muito de solidao por ser deficiente visual. Sou bisexual e ninguem sabe de minha sexualidade. Para piorar ja sou velho. Se eu tivesse espirito velho eu nao sofreria tanto mas dentro de mim mora um jovem que quer sair dancar cantar fazer amor dar carinho ser feliz e fazer feliz. Mas enxergar MUITO POUCO se torna uma montanha fisica e social intransponivel. Quer ver um exemplo. Fui pesquisar no youtube onde se acha de tudo MENOS coisas sobre deficientes visuais e suas opcoes sexuais, Mesmo assim agradeco a Deus por ter um pouco de visao que me permitiu escrever esse texto. BEIJAO pra todos

  6. Meu nome é C. Henrique. Sou e gosto de homens e não faço a menor ideia de onde encontrar cegos gays. Tenho atração por homens com deficiência visual, sei lá pq, mas sempre tive mais sensibilidade que a maioria.
    Quem quiser me conhecer, atualmente moro em Belo Horizonte, tenho carro, emprego e superior completo. Afim de ter experiência com alguém assim. Meu email para contato: carlosfilhotinho2@gmail.com ou meu whats 31 98808-3804

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