O cartunista da inclusão

O cartunista capixaba Ricardo Ferraz começou a desenhar aos cinco anos de idade, depois de contrair poliomielite. Sem ter o que fazer, passava a maior parte do tempo em cima de uma cama rabiscando em papel de embrulhar pão. “Muletante”, ainda garoto começou a trabalhar como engraxate.

Hoje, tem trabalhos divulgados pelo Brasil e em vários países, publicados em livros didáticos e revistas especializadas. Seu livro, “Bullying – Vamos Combater Esse Mal Pela Raiz?”, foi utilizado pela ONU por meio de suas agências espalhadas por todo o mundo.

Ricardo Ferraz também foi o vencedor de quatro dos sete concursos promovidos pela TV Globo para a produção de vinhetas animadas, exibidas nos anos 1980 durante os intervalos dos programas. A mais lembrada é a de dois cadeirantes, um ao pé e o outro no topo de uma escada: eles sacudiam a escada, que virava uma rampa. Então, se encontravam, se abraçavam sorrindo e as rodas das cadeiras se uniam, transformando-se no logotipo da emissora, acompanhado do clássico plim-plim.

Um dos dinossauros da luta pelos direitos das pessoas com deficiência no Brasil e militante de movimentos sociais desde 1981, Ricardo é afiado e preciso na crítica social e política com que retrata o cotidiano de cegos, surdos e cadeirantes. Em um dos cartuns da série “Lei Faz de Cotas”, um homem de terno e gravata diz, enquanto se afasta de um cadeirante que chama sua atenção para a escada que não poderá subir: “Cumpri a Lei de Cotas. Agora mostre sua ‘eficiência’ “.

Aos 62 anos de idade, firme no desenho e no apoio a movimentos sociais, Ricardo Ferraz é dos poucos que ainda preferem “incomodar a se acomodar” quando o assunto é deficiência.

TEMPLO É DINHEIRO

“Era adolescente, um menino bobo e ignorante da cidade de Lajedão, extremo sul da Bahia, quando cheguei a Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo. Fugia de casa ou da miséria de lá. Fui trabalhar como engraxate em um bar e morava em um porão na Casa dos Estudantes.

Uma tarde, estava engraxando quando ouvi por um alto-falante a voz de um pastor dessas igrejas caça-níqueis que só proliferam pelas esquinas, rádios e TVs do país e prometem a cura de cegos e cadeirantes. Fiquei animado com a possibilidade de abandonar as muletas e, incentivado por um grupo de jovens, fui até lá.

Enfrentei uma longa fila. Na minha vez, em frente à multidão, o pastor pressionava minha cabeça com uma mão enquanto gritava uma oração pelo alto-falante. A fé e a esperança tomaram conta de mim e, esperando o milagre, joguei longe as muletas quando ele mandou. Estava anestesiado com tudo aquilo até dar o primeiro passo e levar um baita de um tombo na frente de todo mundo, ouvindo do pastor: ‘Vejam, meus irmãos, eis um exemplo de um homem de pouca fé! Viram o que acontece com quem não tem fé? O próximo!’.

Comecei a chorar ali mesmo de dor, vergonha e decepção enquanto a maioria das pessoas ria e me ridicularizava. Estava perplexo e completamente humilhado. Alguém trouxe minhas muletas e me ajudou a levantar. Virei piada na cidade, fiquei uma semana sem sair do quarto e ainda me revoltei contra Deus, em vez de culpar o pastor! Foi um grande trauma em minha vida, levei anos para superá-lo.

Fico triste quando vejo que ainda hoje existem milhares de Ricardos, gente humilde e crédula, alvo preferencial dos profissionais da fé, que lucram horrores em nome de Deus.”

MATEI MINHA IRMÃ

“Quando era moleque, adorávamos provocar nossa irmã caçula. Demos a ela o apelido de ‘jega-toca’, que ela detestava. Um vizinho ouviu, gostou e espalhou pela rua. Em poucos dias, todo mundo a chamava assim. Pode parecer bobagem para quem brinca, mas aprendemos da pior maneira possível que para quem é alvo de apelidos a coisa é bem diferente. Por causa desse bullying, minha irmã fugiu de casa, pegando carona em um caminhão, e foi parar no Rio de Janeiro.

Sem condições de se sustentar, acabou virando moradora de rua. Um dia, agrediu fisicamente outro morador de rua ao reagir a um insulto e foi presa. Ficou em uma cela imunda. Para escapar daquilo, fingiu estar louca e conseguiu uma transferência para uma instituição psiquiátrica, achando que teria melhores condições de vida. Foi pior ainda: passou a receber choques e medicação pesada, o chamado ‘sossega leão’. Quando, depois de muitas tentativas, meu pai conseguiu sua transferência para Belo Horizonte, onde morávamos, minha irmã estava louca de verdade! Continuou sendo moradora de rua e morreu, vítima de uma série de doenças causadas por essa vida.

Sempre conto essa história nas palestras que faço em escolas. A culpa pela morte dela também é minha.”

ESMOLAS X DIREITOS

“Comecei a militar em movimentos sociais em 1981 e uma de nossas principais bandeiras sempre foi o fim do assistencialismo. A briga é antiga e todas essas instituições caritativas ainda estão aí, muitas delas sem um único gestor com deficiência.

O que as pessoas não percebem é que essas entidades filantrópicas que detêm o monopólio de tudo de que precisamos nunca lutaram e jamais lutarão por nossos direitos. Em uma sociedade inclusiva, elas vão viver de quê? Precisam da exclusão para sobreviver!

Pior é saber que grande parte das pessoas com deficiência adora uma caridade, o cara não quer nada que não seja de graça. Foi convencido de que é incapaz, mas muitas vezes sabe que não é e mesmo assim não levanta um dedo para conquistar sua cidadania.

Antigamente, fazíamos panfletagem de porta em porta. Lá ia eu de muletas, com aquele bolo de folhetos para distribuir. Era comum tocar a campainha em uma casa e sair lá de dentro uma mulher com uma esmola na mão, um horror. Não queremos nenhum tipo de esmola. Queremos direitos, dignidade e respeito.”

CADÊ VOCÊS?

“Não vejo hoje nos governos representatividade na defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Não há gente que lute verdadeiramente por nossa causa. Vários líderes dos movimentos cansaram e desistiram porque essa questão é uma pedreira mesmo; outros migraram para cargos públicos e defendem apenas seus salários, se acomodaram embaixo do ar-condicionado de suas salas.

Políticos, coordenadorias, conselhos, organizações e todas as instâncias de poder que deveriam defender nossos direitos, fazem o quê? Servem para quê?

É por isso que enquanto não houver uma base de luta com uma boa linha ideológica, nada, absolutamente nada vai mudar.”

HAJA PACIÊNCIA

“Fora das grandes cidades, prefeitos e vereadores não sabem coisa nenhuma sobre inclusão e acessibilidade. Há cerca de quatro anos, fui à Câmara de Vereadores aqui de Cachoeiro para reclamar da total falta de acessibilidade para idosos e pessoas com deficiência nos três andares do prédio. Na Casa de Leis que deveria atender a todos os cidadãos, o único elevador serve apenas aos vereadores!

Cheguei à tribuna e simplesmente ninguém dava a mínima ao que eu falava! Conversavam entre eles ou estavam distraídos. Não tive dúvidas: bati minha muleta ali com força, chamei a atenção de todos e consegui ser ouvido, consegui dar o meu recado. E só. O prédio continua inacessível até hoje.

É preciso estabelecer o comprometimento de prefeitos e vereadores dos municípios com políticas públicas de inclusão e acessibilidade. Uma carta de compromisso, um acordo atrelado à liberação de verbas, por exemplo. É só assim que vai funcionar.”

NA PAZ

“Conquistei muitas coisas, sou um cara realizado. Faço o que gosto, moro sozinho por opção, tenho uma filha e a primeira neta que moram bem perto daqui e, de vez em quando em um final de tarde, vou jogar uma conversa fora encostado no balcão de um boteco, com uma cerveja bem gelada e uma linguicinha frita (risos). Tá bom demais.”

twitter: @OutrosOlharesAD

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