Como assim, cega?

“Sim, eu sou cega!”, começa Nathalia Santos, 23 anos, na apresentação de seu recém-lançado canal no You Tube, o didático e bem feitinho ‘Como Assim, Cega?’. O título faz referência à pergunta que ela ouve com mais frequência, já que, como suas pupilas se movimentam normalmente, fica difícil acreditar que ela não enxerga.

Nathalia, para quem não sabe, é repórter da GloboNews e comentarista do programa dominical ‘Esquenta!’, da TV Globo. O estigma de “mulher, negra, moradora de comunidade no Rio de Janeiro e cega” desaparece diante dessa bela jovem, segura e determinada, que sempre teve a independência incentivada pelos pais, sempre estudou em escola regular e conta com simplicidade e leveza as dificuldades que enfrentou e enfrenta em seu dia-a-dia, dos ônibus errados que toma a uma vez em que foi acusada por um homem que a ajudou a atravessar a rua de ter furtado sua carteira “fingindo-se de cega”. Ou do verdadeiro alívio ao ficar completamente cega porque em um dia enxergava, no outro não, e quando não viu mais nada só pediu à mãe que não a deixasse ficar feia e fora de moda.

O pedido foi atendido. Nathalia chama atenção por estar sempre bem vestida e maquiada e vai aqui uma breve e necessária descrição de seu visual nos dois primeiros vídeos do canal: no primeiro, está com os longos cabelos soltos e encaracolados, brincos compridos e veste uma blusinha branca rendada junto à gola e nas mangas curtas, por dentro de uma saia estampada com delicadas ramagens azuis e amarelas. Já no segundo, os cabelos estão presos em um grande coque, deixando à mostra pequenos brincos claros. Veste um blazer com estampa floral em verde, amarelo e vermelho sobre camisa branca de gola franzida e arrematada por um fino laço preto e um short também preto.

O que Nathalia ainda não contou no canal foram as inacreditáveis agressões que sofreu em uma noite do final de 2013 na PUC-Rio, onde cursava Jornalismo como cotista, quando cinco pessoas a agarraram, arrancaram sua bengala e a levaram para um lugar deserto da faculdade, torceram seu braço para trás e durante meia hora um dos homens a ameaçou, dizendo que o lugar dela não era ali, que a vida dela na faculdade seria um inferno e que tomasse muito cuidado com as escadas! As duas mulheres do grupo riam.

Apesar de, a partir daí, Nathalia ter passado a andar com seguranças cedidos pela PUC-Rio, acabou pedindo transferência para a ESPM, também do Rio. Os agressores jamais foram identificados e a história não teve nem de longe a repercussão que merecia na grande imprensa – e olha que ela já trabalhava na Globo… Este foi apenas mais um exemplo (e dos mais leves) de covardia e preconceito que acabam ficando por isso mesmo e que acontecem todos os dias a milhares de pessoas com deficiência em todo o país.

A importância do canal criado pela Nathalia está no protagonismo de uma pessoa com deficiência ao falar por si mesma e fora do meio, compartilhar suas experiências e histórias para divulgar direitos, minimizar diferenças e desfazer preconceitos, expor com franqueza as inúmeras dificuldades que enfrenta nas tarefas mais simples do cotidiano e que poderiam ser solucionadas, por exemplo, com a implementação de transporte público acessível, por meio de simples aplicativos em celulares que avisam à pessoa cega que seu ônibus está chegando ao ponto, e semáforos sonoros.

É a realidade que contradiz o fictício mundo da inclusão construído pelos governos, com suas ações prioritariamente midiáticas, que servem basicamente à autopromoção de políticos e gestores de secretarias da deficiência; ações em grande parte desnecessárias, ineficazes, excludentes ou até mesmo… inexistentes, como o recente e alardeado lançamento da Central de Libras pela Secretaria Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo. Pensou que já estivesse funcionando a todo vapor? Pois o projeto não passa de um belo protocolo de intenções assinado junto ao Ministério Público. De concreto mesmo, só mais uma estratégia para mostrar serviço, tão manjada quanto a de inventar na hora uma ação inclusiva qualquer e que jamais existiu apenas para ter uma resposta aos repórteres que perguntam demais.

Em um meio tão fechado, dominado principalmente pela passividade e pelo silêncio, com blogs cheios de textos técnicos e acadêmicos, ou escritos em cima do muro ou, pior ainda, claramente do tipo chapa branca, iniciativas como a da Nathalia são muito bem-vindas e mais do que necessárias. Que sirva de inspiração para outras pessoas com deficiência. Começar a falar por si mesmas e sem medo já seria um bom começo. Boas histórias – sabemos muito bem – é o que não faltam.

twitter: @OutrosOlharesAD

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