Cegos fazem seus pedidos de Natal

O blog perguntou a dez pessoas, oito cegas e uma mãe e uma avó de cegos, quais são seus desejos inclusivos para o Natal: o que pediriam a Papai Noel?

Mas que ninguém se engane com o título deste post que, para leigos, pode facilmente remeter a lacrimosos agradecimentos a instituições assistencialistas, pedidos de ajuda ou qualquer outro estereótipo ligado a quem tem deficiência, como, por exemplo, o conformismo. Esse pessoal aqui tem interesses e conhecimentos que vão muito além de programas de rádio e TV, missas ou livros de autoajuda e espiritismo.

Não são os únicos com bom repertório acadêmico, cultural e político – como eles, existem milhares pelo país. Mas são, sim, alguns dos pouquíssimos cegos que botam a boca no trombone na hora de defender seus direitos.

João Filipe de Castro, 52 anos, advogado, português: “Estão aí duas coisas que não existem: Papai Noel e inclusão dos cegos!”. (risos)

Maria Ângela Almeida, 40 anos, professora universitária, mãe do Gabriel, 20 anos, cego: “Gostaria de ver uma campanha por inclusão na TV. Não há uma única campanha que divulgue direitos das pessoas com deficiência. Como querem inclusão sem conscientizar a sociedade? Só lembram deste segmento durante os Teletons da vida e sempre da pior maneira possível: pedindo dinheiro para os pobrezinhos incapazes. Essa é a única imagem que fica na cabeça das pessoas. Nas propagandas, nunca há um cadeirante ou um cego bem vestido, sorrindo, em um restaurante ou dentro de um avião. Os negros, as mulheres, os gays foram à luta e conseguiram enormes avanços no cumprimento de seus direitos. As pessoas com deficiência e principalmente os cegos precisam de tutela, ainda têm como principal caminho o assistencialismo. Continuam no século 19.”

Liliane Moraes, 36 anos, socióloga e mestre em Ciências Sociais: “Eu desejo a todos discernimento entre necessidades gerais do cidadão e específicas de minorias sociais, bem como acerca do ponto de interseção entre tais necessidades e a perspectiva das minorias. Que não se perca a percepção de cidadania preconizada pela Constituição Federal de 1988. Um exemplo: que todos se lembrem do combate ao racismo, antes de exigir cabelos lisos em escola, conforme aconteceu recentemente, ou das piadas que ferem a dignidade do negro. Que o negro veja a si mesmo e seja visto amplamente como cidadão, tanto quanto a pessoa com deficiência, ou como pessoas de qualquer outro segmento social; que todos entendam que a pessoa com deficiência precisa ser considerada em sua realidade material e não apenas de modo subjetivo, como alguém ‘genericamente a servir de exemplo’, e que tenha sua cidadania efetivada, como deveria ser com todos os outros segmentos citados; e que não se deixe de reconhecer os membros do segmento LGBT como cidadãos, tanto quanto a mulher heterossexual. Cidadania, em sentido amplo, é, a meu ver, o máximo que se pode esperar como fator de equidade numa sociedade de mercado. Portanto, que sejamos todos respeitados como cidadãos e tenhamos o básico à dignidade”.

Deise Fernandes, 59 anos, socióloga: “Meus desejos para o Natal são tantos! Não caberiam nessa página. E são os mais comuns possíveis. Natal me faz lembrar de árvores com bolas coloridas, luzes, músicas típicas, troca de um monte de presentes, comidas gostosas e com muitas calorias. Por que será que as pessoas acham que só porque eu não enxergo teria desejos diferentes?”.

Késia Pontes, 32 anos, mestre em História: “Desejo que saiamos do mundo de faz de conta natalino e possamos pensar em uma sociedade diversa, em que todas as pessoas tenham seus direitos fundamentais respeitados dentro do desenho universal. Nesta sociedade, as pessoas com deficiência deixariam de ser mercadorias e moedas de troca de instituições que deveriam defender direitos, porém, difundem visões caritativas e assistencialistas. Nela não haveria escolas, espaços culturais, eventos ou qualquer tipo de espaço classificado como‘especial’, pois nela as pessoas não seriam ‘especiais’, mas, sim, respeitadas em suas características humanas. Ao promover a diversidade humana, a transversalidade se faria presente, pois as demandas das pessoas com deficiência e grupos vulneráveis seriam discutidas em todas as pautas: saúde, educação, transportes, infraestrutura, esporte, lazer, cultura, proteção adequada e todas as esferas da vida humana. Em suma, desejo que todos nós possamos viver como seres humanos”.

Carla Maria de Carvalho, 28 anos, bióloga: “Gostaria que a mídia não consultasse ou entrevistasse pessoas com deficiência apenas para falar de sua deficiência. Tenho uma vida legal, igual a de todo mundo, e opiniões sobre uma infinidade de temas, como todo mundo também! E gostaria de ver leis sobre inclusão que fossem cumpridas de verdade e, para isso, tem de haver punições em caso de descumprimento. Não podem ser apenas cartas de intenções. A recente Lei Brasileira de Inclusão não prevê penalidades significativas, por isso deve acabar indo para a vala comum das anteriores: a do esquecimento”.

Naziberto Lopes de Oliveira, 50 anos, psicólogo: “Meu desejo de inclusão seria que a palavra ‘inclusivo’ fosse extinta de todo dicionário, seja em português ou qualquer outro idioma. Dessa maneira, ninguém mais ficaria alegando que sua peça de teatro, seu filme no cinema, seu show, seu espaço, seu livro, seu raio que o parta é ‘inclusivo’. Assim, ou as pessoas fariam seu evento ou produto realmente para todos, e para todos significa única e exclusivamente respeitar o desenho universal, ou então acabariam com essa papagaiada de dizer que isso ou aquilo é inclusivo e o restante todo, não”.

Maria Eugênia, 65 anos, dona de casa, avó do Luís Felipe, 13 anos, cego: “Eu gostaria de ver uma grande e verdadeira mobilização de cegos em prol de seus direitos. Essa organização de cegos brasileiros é uma nulidade, não existe um único órgão oficial que realmente defenda os direitos das pessoas com deficiência. Sabe o que é que pais e mães de filhos cegos e cadeirantes conseguem quando levam denúncias e reivindicações a conselhos municipais, estaduais e o nacional que deveriam defendê-los? Apenas números de protocolos de atendimento que nunca dão em nada. Aliás, as únicas pessoas a lutar de verdade por quem tem deficiência são parentes sem qualquer deficiência. Prova disso é a força dos movimentos Down e de autistas, formados por pais e mães, alguns bem famosos, que conseguem o cumprimento de leis e a sensibilização da sociedade para sua causa. Enquanto os interessados não forem à luta e não fizerem uma boa pressão por seus direitos, tudo vai continuar do jeito que está”.

Bebeto Pires, 48 anos, músico: “Quero visibilidade!!! Tá certo que ser visível, às vezes, nos transforma em alvos fáceis. Mas com esta sombria capa da invisibilidade que nos envolve, somos um alvo bem maior. As pessoas passam por cima mesmo e nos esmagam, já que não estão vendo – e mesmo que vejam, fica mais fácil fingir que não”.

Renato Barbato, 51 anos, arquiteto: “Coincidência ou não, duas datas tão festivas se misturam, o Natal e o Ano Novo. A data exata do nascimento de Jesus nunca foi comprovada, tampouco a data do início do ano, determinada pelo calendário gregoriano, em detrimento do judeu, do hindu e de outros. Se temos duas datas que não são comprovadas,  o que dizer da inclusão ampla, geral e irrestrita, tão alardeada em nosso país? Uma mentira, como devem ser essas duas datas.
Dizer que temos inclusão, onde? As calçadas continuam causando quedas e fraturas em idosos e dificultando ou impedindo o direito fundamental garantido por nossa Constituição, o de ir e vir, inclusive sem direcionar os cegos ou pessoas com baixa visão por falta de piso tátil na esmagadora maioria das nossas cidades.
Cego na escola ou na faculdade?  Livros em braile chegando a tempo de nossas crianças acompanharem seus colegas? Cego não precisa ler. Afirmação comprovada pelo descaso do governo que ainda não regulamentou a Lei do Livro, impossibilitando um deficiente visual de ter acesso pleno aos milhões de títulos existentes no mundo, relegando a eles somente os ‘chiqueirinhos’ do livro para cegos.
Pegar transporte público coletivo?  Se até mesmo uma pessoa tida como normal tem dificuldade em subir os degraus,  imaginem um deficiente físico.
Educação, saúde, cultura, lazer e esporte, atividades a que todos temos direito, como reza nossa Constituição, são negadas às pessoas com algum tipo de deficiência.
Certamente será muito mais rápido e fácil descobrir as verdades sobre o Natal e o Ano Novo do que termos acessibilidade plena em nosso país tão discriminatório. Uma discriminação velada, mas presente. Para mudar isso temos de mudar nossa atitude, porque se queremos um mundo diferente, temos de ser diferentes e fazermos a diferença.
Deixo a todos meus desejos de um Natal cheio de graça e paz e um Ano Novo gregoriano com muita vontade de mudar – se já não podemos alterar a história dessas datas, podemos e devemos, sim, mudar a nossa história”.

twitter: @OutrosOlharesAD

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