Um cego no Templo dos Ratos

Imagine visitar um santuário onde as divindades são… ratos de verdade! Milhares e milhares de ratos e ratazanas que ocupam todos os espaços possíveis, de pátios e escadas a nichos e frestas. Sim, este lugar existe: é o Karni Mata ou Templo dos Ratos, na Índia. Lá, o visitante só pode entrar descalço ou de meias (e tentar evitar pisar em urina, fezes e restos de comida espalhados por todo canto). Se matar acidentalmente algum rato, deve pagar o peso dele em ouro ou prata na saída.

Os ratos são tratados pelos devotos com respeito e cuidados: voluntários hindus, todos os dias, deixam grandes tigelas de leite para eles, que se espremem lado a lado nas bordas para bebê-lo. De vez em quando, um rato perde o equilíbrio, cai dentro da tigela e sai rapidamente. De vez em quando, também, os hindus sentados ao lado levam a mão em concha ao centro da tigela e bebem daquele leite.

Luís Felipe ouve a história, fascinado. Ele tem 13 anos e é cego. Alegre, curioso e falante, adora viajar, mas só para “lugar que interage”, como ele diz: praias, parques aquáticos ou de diversões, com brinquedos que unem velocidade e altura. “Quando alguém tem de ficar contando como é, não tem graça. Se é só para ouvir, tanto faz estar lá como aqui em casa”, explica.

Proponho, então, três roteiros de viagens “interativas” que duvido que ele tenha coragem de encarar, mas, já no primeiro, a surpresa: ele simplesmente adorou o Templo dos Ratos. Já teve hamster e é fã da animação Ratatouille, que conta a história de um rato que tem o sonho de virar chef de um restaurante para humanos – e consegue. “Já pensou eu lá no templo? Ia sair espanando os ratos com a bengala, haja dinheiro, quando eu for você vem comigo para me guiar”, ele sonha. Esquece, Felipe: “Nossa cultura aqui é outra, eu tenho certeza de que vou ter um AVC assim que a primeira ratazana subir no meu pé. Ainda caio dura em cima delas. Vou lá pedir proteção e prosperidade e saio morta ou endividada!”, brinco. Ele gargalha.

Felipe interrompe a conversa no skype e vai provocar a avó com a história do templo. Ao longe, ouço o comentário dela: “Deus me livre, Lipe, ai, me deu até arrepio… Isso lá é passeio?”. Ele volta confiante: “Eu vou mesmo, acho que vou ser o primeiro cego a visitar o templo, quem sabe ainda fico famoso. Qual é a outra viagem?”.

Mergulhar com tubarões brancos. O turista vai de barco até onde eles se concentram e desce em uma jaula para observar e fotografar. Não demora e lá vêm uns dois ou três, alguns mais curiosos e agressivos do que outros – tentam morder as grades, mas se afastam logo. Fácil, não? Pois é. Mas, de vez em quando, acontece de o tubarão não cumprir o roteiro e, de repente, ele sobe e avança com tudo no cabo que liga a jaula ao barco! Morde com força, seu corpo sacode todo, ele se afasta um pouco e ataca outra vez. O bicho tem uns seis metros de comprimento e duas ou três fileiras de dentes triangulares e pontiagudos em cada arcada. O turista, coitado, aterrorizado, fica grudado no fundo da jaula, braços e pernas abertos, os olhos arregalados do tamanho de pires por trás da máscara de mergulho. Lá em cima, os caras do barco começam a puxar a jaula rapidamente e na manivela mesmo. Aí, o mais comum é o sujeito sair da jaula mal se aguentando em pé e cair deitado no chão do barco para se recuperar.

Dessa vez, Felipe fica impressionado: “E se o tubarão arrebenta o cabo? Se a jaula desce até o fundo? O que acontece? Quem vai resgatar?”. Nessa história ele não achou graça e olha que é fã de filmes de terror. Mas disse que ia assim mesmo, com medo e tudo. E, falando em filmes, só por curiosidade, pergunto quem é que narra para ele. Felipe responde que às vezes é a avó, às vezes a mãe. “Minha avó se atrapalha mais e fica falando ‘ai, meu Deus’ a toda hora, em todo susto, e quando consegue contar a cena, ela já passou faz tempo. Minha mãe conta melhor, mas porque assiste antes.”

Vamos, então, ao terceiro roteiro. Tem uma cidadezinha no Canadá, Churchill, onde uma lei proíbe que os carros sejam trancados! Isso porque o cidadão pode a qualquer momento topar com um urso na rua e tem de ter algum lugar próximo para se proteger. São 900 moradores e cerca de mil ursos! Cada vez que alguém sai de sua casa ou do trabalho tem de olhar para todos os lados e continuar superatento até chegar ao destino. “E como é que um cego faz lá? Anda acompanhado 24 horas por dia por alguém que enxerga?”, pergunta o Felipe. E arrisca uma teoria: “Se eu estiver lá e encontrar um urso, não vou ter medo porque não estou vendo e ele vai estranhar tanto que não vai mexer comigo”. Sei. Vai nessa. E bate o martelo para o Templo dos Ratos: “Lá eu não corro o risco de morrer,né?”.

Ele mesmo ri. A gargalhada do Felipe faz a gente rir também. É espontânea, alta, limpa, vigorosa. Faz parecer que nada é impossível (e para alguém tão jovem,não é mesmo), que basta ter vontade e coragem para que tudo no mundo se resolva rapidamente e que lidar com os ratos, tubarões e ursos do dia a dia nem é tão complicado assim. Ah, quanta sabedoria na frase do imortal Eduardo Galeano: “Os cientistas dizem que somos feitos de átomos, mas um passarinho me diz que somos feitos de histórias”.

twitter: @OutrosOlharesAD

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