Um golpe contra as pessoas com deficiência

Daniela é moradora de uma comunidade na periferia de São Paulo. Há coisa de duas semanas, ela e o irmão voltavam a pé de uma festa por volta de uma da manhã quando foram abordados por policiais militares. O rapaz, que utiliza muletas por conta de uma deficiência de nascença, foi interrogado aos gritos de “tá aleijado por quê? Tomou tiro onde?”, enquanto era revistado com tamanha agressividade que perdeu o equilíbrio e caiu. Ao tentar ajudá-lo a se levantar, pedindo aos policiais que fossem embora porque eles não eram bandidos, mandaram que calasse a boca e ainda foi chamada de “piranha” porque usava vestido curto e salto. Amparando o irmão, que gemia de dor, foi chorando para casa.

Ela falou de sua revolta, de como os pobres sempre foram desconsiderados e humilhados, que a discriminação é ainda maior por serem negros e já constatou que a violência policial aumentou nos últimos tempos. “Eles ‘cresceram’ em cima da gente, estão pouco se lixando se vai ter denúncia ou não”, concluiu.

Os pobres sempre viveram em um Estado de Exceção, expropriados de seus direitos. Se a diferença, agora, é que todos estamos no mesmo barco, a coisa é muito pior para quem não tem dinheiro, não é jovem, branco, de classe média, nem heterossexual e sem deficiência. Se as instâncias que deveriam cumprir as leis agem ilegalmente com presidenta e ex-presidente, o que não farão com o cidadão comum? Estamos nas mãos de um governo ilegítimo, autoritário, corrupto, retrógrado e entreguista, que busca apenas implementar seu projeto de poder, garantindo privilégios e sua própria impunidade à custa da destruição de direitos sociais e trabalhistas, muitos deles conquistados a duríssimas penas.

O vazamento dos áudios que comprovam que um dos objetivos da farsa do impeachment de Dilma era impedir a continuidade da Lava-Jato, que os atingiria em cheio, não deixa dúvidas quanto à definição: foi e continua sendo um gol-pe, golpe parlamentar, golpe da toga ou golpe branco, denunciado por alguns dos mais importantes jornais do mundo. O esgoto vem à tona mais e mais todos os dias porque essa gente já não se dá nem mesmo ao trabalho de fingir que cumpre a lei. É um perverso jogo de cartas marcadas que começou há anos, embora previsível para aqueles que sabem que informação confiável deve ser obtida em outras fontes que não a mídia tradicional – infelizmente, a única à qual milhões e milhões de brasileiros têm acesso.

Mas, vamos voltar à Daniela. Aqui, o que chama atenção em seu relato não é apenas o fato em si, não menos importante, mas bem mais leve do que os inúmeros episódios diários de violação de direitos de populações vulneráveis. O que chama atenção é, principalmente, o silêncio de seu irmão. Os dois têm quase a mesma idade, os dois são universitários, os dois namoram, se divertem e participam de movimentos sociais de luta por direitos. Por que é que somente ela contou a história? Talvez, pelo mesmo motivo pelo qual não vimos um único documento, uma única reação, uma única nota que fosse de indignação ou repúdio de movimentos de pessoas com deficiência a um golpe contra a democracia brasileira, orquestrado pelo Legislativo, pelo Judiciário, pela mídia. Nenhuma menção nem mesmo a este Congresso repulsivo, formado por uma maioria hipócrita e oportunista, um bando de Odoricos Paraguaçus, alguns sociopatas e outros tantos falsos moralistas de carteirinha que o país, chocado, conheceu de repente.

Para não dizer que a coisa passou totalmente em branco, circulou pelas redes um manifesto pela volta da Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Apesar de ter sido criada com a melhor das intenções, sejamos sinceros: em que é que esta secretaria melhorou a vida de quem tem deficiência? De tudo o que se propôs, basicamente não fez outra coisa senão transitar entre a omissão absoluta e a submissão ao assistencialismo. E só.

Eis algumas opiniões de leigos consultados pelo blog sobre a ausência de manifestações de quem tem deficiência: “Ah, eles não devem ter uma opinião mesmo…”; “Coitados, não têm preparo nenhum, não devem nem ficar sabendo…”; ou “Mas, o que eles podem fazer? Tem que perguntar para a família ou para a instituição que cuida deles!”. E essa: “Vai ver que apoiam, por isso estão quietos!”. Pode ser. Concordando ou discordando, o silêncio do segmento apenas reforça o preconceito de que pessoas com deficiência são incapazes e precisam de tutela. Continuam invisíveis. São excluídas até mesmo dos discursos de ativistas de direitos humanos, que com frequencia dizem:…”Negros, mulheres, população LGBT, índios etc”. Quarenta e cinco milhões de pessoas no país reduzidas a um… etc. Como dizem alguns dos próprios gestores de secretarias da deficiência, enquanto não se mobilizarem na luta por seus direitos, nada vai mudar.

Tempos sombrios, estes que estamos vivendo. E pode piorar muito. A boa notícia é uma resistência como nunca houve antes: dos movimentos organizados nas periferias aos coletivos feministas em escolas de elite das grandes cidades, tem sido enorme o número de manifestações e manifestantes em todo o país na luta pela democracia. Faltam somente as vozes da deficiência. E, quem sabe um dia, alguém com a ética e a coragem de um Jean Wyllys (eleito ano passado pela revista britânica The Economist uma das 50 personalidades que mais lutam pela diversidade em todo o mundo), para que realmente sejam representadas no Congresso.

twitter: @OutrosOlharesAD

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