As histórias da gente

"É muito legal mesmo teu blog, Lucia, mas, na boa, não tem sofrimento, né?", perguntou ontem um amigo. Eu, sabendo pra onde a conversa ia, já que não é a primeira vez que alguém entra nesse assunto, provoquei: "E você quer achar sofrimento justamente no meu blog? Abre o jornal, assiste uns programas na televisão, entra em sites sobre a África que você preenche essa lacuna rapidinho"! Ele: "Nem tô nessa área, mas a gente sempre vê em sites e propagandas todo mundo feliz com a deficiência que tem. De muleta, bengala, cadeira de rodas, ninguém fala da barra pesada que deve ser". "Precisa?", perguntei. "E nas propagandas de carro e cerveja, alguém mostra o lado B daquela moçada bonita? Problema na família, bebedeira, desemprego, depressão, vício em drogas?", disse, rindo. E prometi um post.

Outra pergunta comum: "Esse seu envolvimento nesse grau com audiodescrição e deficiência visual vem da sua história pessoal?" "Pode ser", respondi. "Você é engenheiro por causa da sua história pessoal? Tem alguém na família que também é?". Ele riu. Bom, nunca vi mais ou menos felicidade e sofrimento na maioria das pessoas com deficiência que conheci do que nas que não têm qualquer deficiência. Felicidade e sofrimento, dois conceitos extremos, são bem relativos, não dá para medir, não dá para estabelecer como verdade absoluta que alguém é sofredor porque é alvo de preconceito devido a uma característica física marcante, e muito menos que pessoas sem qualquer deficiência são felizes! Existem momentos na vida de muita felicidade; outros, de imenso sofrimento. É assim para todo mundo. Acho que conseguir um pouco de paz, com certo equilíbrio em cada um dos aspectos importantes da nossa vida, é possível e já está de bom tamanho. Com ou sem deficiência.

O que existem, claro, são grandes dificuldades impostas pela deficiência com as quais as pessoas aprendem a lidar e a se adaptar, sim. Lembro dos meus quatro anos de idade e meu pai, surdo, me ensinando a pronunciar palavras corretamente. Ele sentado, eu em pé, em frente, ele segurando minhas duas mãos e eu, já falando devagar e pronunciando bem as sílabas para que ele pudesse entender: "Lio Plêto". "Não, Lucia, Rrrrio Prreto." A surdez afetou seu casamento, sua vida social e profissional e a de todos nós em casa. Tive uma carreira em rádio, de cara muita gente elogiava minha dicção – devo a ele; minha voz ainda é meu principal instrumento de trabalho e meu pai jamais a ouviu. E foi em frente, até porque não havia outro jeito. E me ensinou a andar de bicicleta, nadar, dirigir, ler bons livros, assistir a bons filmes e mais um monte de coisas bacanas que sei do mundo.

E a Thays Martinez, que lançou sua biografia pela Editora Globo, "Minha vida com Bóris"? Já a conheço há alguns anos, tenho o maior carinho por ela, mas alguns episódios de sua vida só soube porque gravei o audiolivro, parceria das Editoras Globo e Cultura. A Thays perdeu a visão ainda criança, depois de uma caxumba. Foi a primeira pessoa com deficiência visual no Brasil a conseguir na Justiça o direito de entrar no Metrô com um cão-guia, o Bóris. A briga foi feia, um funcionário chegou ao ponto de parar a escada rolante, com ela e o cachorro em cima, para que não tomassem o trem. Em outro episódio, mais truculência: um motorista de ônibus, para impedi-la de entrar com o cão-guia, fechou a porta enquanto ela estava na escadinha e o Bóris na calçada! Só não acelerou porque os passageiros, revoltados, interferiram. Também teve o dia em que, na rua, ela bateu com força o rosto numa viga de uma obra – um dos perigosíssimos obstáculos aéreos. Chorou muito ali mesmo, não tanto pela dor e pelo susto mas, principalmente, porque seu grande amigo, já velho, deu o sinal definitivo de que já não tinha mais condições de cumprir sua missão. E em restaurantes, já aconteceu de instalarem os dois em mesa de sala de espera como se fosse o salão principal, só por causa do Bóris. Isso porque ela é branca, bonita, advogada e estamos em São Paulo, imaginem o que não acontece por esse país afora…

Lembro também quando um ex-colega de trabalho, gente boa de tudo, engravidou a namorada. Os dois cegos, com pouca instrução, morando com os pais. Cheguei ao departamento em que trabalhávamos, vazio àquela hora de almoço, e o encontrei, testa sobre as mãos cruzadas em cima da mesa, chorando. Ainda tem a Ana Lídia, cadeirante, que contou por e-mail as muitas vezes em que sai com as amigas para um bar, paquera alguém que está no balcão e é correspondida. O sujeito se aproxima da mesa e, em todas as vezes, ao ver a cadeira de rodas, diz alguma coisa como "Pô, desculpa aí" e se afasta. Ela fica observando a cara de pena com que as amigas a olham. A Ana Lídia tem só 22 anos.

Bom, contei estas histórias mas não levanto nenhuma bandeira das dificuldades, não. Levanto as bandeiras em que as dificuldades muitas vezes se transformam: a da acessibilidade (que não é favor nenhum, é direito, viu?), a da solidariedade (que nada tem a ver com caridade) e a da esperança. E aí tenho que falar do Reginaldo, 30 anos, liderança da associação de moradores de uma comunidade carioca, professor de violão, incentivador de várias atividades culturais para crianças e adolescentes e campanhas pela acessibilidade. Eu o conheci em 2006.

De uma alegria genuína, apareceu de regata e jeans justíssimos, um monte de colares, braceletes, anéis e cabelos descoloridos, me presenteou com uma flor de papel cheia de purpurina, enquanto com voz aguda, alta e firme, ia falando: "Tu tá me vendo, né, amor? Sou pobre, preto, cego e gay, cê tá achando pouco ou quer mais? E te digo que, aqui, ninguém tira uma com a minha cara não, que eu viro macho e São Jorge tá do meu lado. E sabe por que eu tô podendo? Hein? Porque todo dia eu acordo e me sinto loira, chique e linda e não tem pra ninguém, tá sabendo"?

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O homem que queria ser cego

Isso faz mais de quinze anos. Eram sete e meia da manhã de um domingo quando todo mundo ouviu: "Meu Deus, acode aqui, não tô enxergando naaaaada"! Foi um susto e aquela correria. O avô havia ficado cego, de repente, e com as pernas paralisadas. Com quase setenta anos de idade, era um homem forte e saudável que, depois de viúvo, tinha ido morar com a filha, o genro e a única neta, grande amiga minha. Uma vez por semana, saía pra beber e jogar com os amigos, "um bando de vagabundos", segundo a filha.

No dia anterior, anunciou que tinha ido à falência, perdido todas as economias como corretor de imóveis na mesa de jogo. A gritaria e a confusão foram tamanhas que diziam que o nervoso que passou provocou a cegueira e a paralisia. Sim, porque depois de todos os exames, de uma investigação minuciosa, nenhum médico descobriu a causa. "Só pode ser psicológico", sentenciou o último bam-bam-bam consultado. "Este homem quis ficar cego e deixar de andar. O que será que ele não quer mais ver nem encontrar pela frente?", perguntou a psicóloga. "Que desgraceira, cego e paralítico por culpa nossa", a filha choramingava. A família, católica, começou a maratona por terreiros de umbanda, centros espíritas e cartomantes atrás de uma cura ou, pelo menos, de uma explicação. "Castigo de Deus por tanta bebida e tanto jogo", dizia um. "Isso aí é carma, aprontou muito na outra vida e nessa aqui paga mesmo", dizia outro. "Trabalho pesado contra tua família, minha filha. Tem que desfazer senão teu pai fica assim pra sempre!", disse a mãe-de-santo. (O que eu ouvi nos quatro meses que durou esta história me rendeu material para o blog pelo menos até a Copa.)

Só a velha empregada, a Zu, que nunca gostou mesmo do avô, "isso aí é trambiqueiro que só", dizia, é que continuou impassível: "Aafff, que esse véio não vale é nada", resmungava. O homem, sentado o dia todo em frente à TV, respondia: "Vai fazer o teu serviço, mulher, já não chega o que eu tô passando"? E todo mundo: "Zu, que horror, tenha dó, não tá vendo como tá esse coitado"? E dá-lhe rezas e novenas! Às vezes eu estava lá, ouvia e nunca deixei de estranhar, além dos erros de regência e concordância, esse tom de súplica e o português castiço do século dezenove para falar com Deus: "Senhor, tu pareces que nos abandonastes neste vale de lágrimas, pedimos-te a ti que nos concedas a nós a graça do perdão e da cura,  tu sois nosso Pai Eterno"… e iam longe. A Zu olhava tudo aquilo com cara de desdém e falava, implacável: "Arre, que esse véio é curva de rio"! (Curva de rio é o lugar onde só tem tranqueira, que acaba parando ali. E a Zu, que eu pensava que era diminutivo de Zulmira, era diminutivo de Zulu mesmo.)

Já o avô nunca havia sido tão paparicado: comidinhas e docinhos especiais, visitas e presentes, era o centro das atenções. Alma boa, perdoou a todos e aparentava uma serenidade que só podia ser divina: "O sofrimento ensinou ele. Está resignado e em paz. Deus escreve certo por linhas tortas", diziam. A Zu, quando não lançava uma farpa, olhava feio. Um dia não aguentou e me disse: "Tinham que por ele lá fora, sentado, pra vender bilhete de loteria. Assim não ficava à toa". O que será que o avô tinha feito a ela? Tinha de ficar sozinha cuidando dele a semana toda, de manhã à noite, enquanto todo mundo trabalhava.

Um dia, sei lá por que motivo, minha amiga voltou para casa no meio da tarde, o que era raríssimo. Foi procurar o avô, no quintal dos fundos, e simplesmente não acreditou no que viu: ele, deitadão em uma espreguiçadeira, de calção, lendo o jornal, as duas pernas dobradas, ouvindo samba no rádio! Esticava as pernas, fazia círculos com um pé, depois com o outro, dobrava os dedos pra frente e pra trás. Na porta da cozinha, ela virou a cabeça lentamente para olhar a Zu que, do seu lado, com as duas mãos apoiadas na vassoura, dizia: "Ééééééééééhh…", um som longo e rouco que parecia uma porta rangendo. "Esse véio é o cão."

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Aula

"Lucia, mas o que é que o cego quer com cinema???" "O mesmo que você", respondo. "Se divertir, relaxar." "Ué, mas eu enxergo e ele não." "Por isso que ele não vai, só vai quando tem audiodescrição!" Ou: "Mas… o que é isso mesmo que você faz… audiodescrição? É coisa pra cego, né?" "É", suspiro. "É coisa pra cego." E esta, então, que é de matar e muito mais comum do que se imagina: "Mas não é mais fácil como era, alguém contar pra ele o que está acontecendo em vez dessa trabalheira toda de roteiro e microfone"? Ah, Deus… Mas eu vou em frente. Aproveito as poucas oportunidades que aparecem para falar sobre AD no dia a dia e pareço professora de cursinho: pra não ficar chata, tento despertar o máximo de interesse em um mínimo de tempo, só falta cantar definições e conceitos com aquele chapéu cheio de pontas com sininhos.

Ontem, sábado e feriado, foi em um restaurante, durante uma comemoração em um daqueles mesões que reúnem família e amigos. Apontei o batente todo trabalhado de uma porta e, quando vi, já eram seis pessoas descrevendo (ou, pelo menos, tentando) e olhando para mim à espera de aprovação. Eu me divertia com aquilo enquanto lembrava da minha primeira aula com a Lívia Motta, quando ela mostrou uma fotografia de um par de botas cobertas por limo em cima de uma pedra e pediu a descrição. Quase ninguém viu as botas. E elas estavam lá, gigantes! O leitor pode achar um absurdo, mas é exatamente assim que acontece. Com a audiodescrição, a gente percebe que vê muito pouco de tudo e reaprende a olhar. Presta atenção de verdade e vai redescobrindo as coisas.

Ontem, no restaurante (e na semana passada, e em tantos outros dias), contei da pesquisa necessária para descrever com o máximo de precisão, por exemplo, interiores de igrejas, artefatos militares, afrescos do Michelângelo e murais do Diego Rivera que estão nos livros, tem imagem que leva mais de uma hora entre pesquisa e descrição, e aí surgiu uma velha e recorrente questão: "Mas por que detalhar para o cego uma coisa que nem quem enxerga tá vendo ou não sabe? Não é preciosismo, não? Dá pra simplificar, falar o básico". Vamos lá: o olhar comum é muito superficial, por isso é necessário o trabalho profissional de um audiodescritor, que estabelece o que é prioritário e relevante em cada imagem, mas descreve o máximo possível dela e o único critério que usa (ou pelo menos deveria usar) para um maior ou menor número de informações é o tempo ou o espaço que tem para cada descrição, e jamais elimina elementos que decide não serem importantes só "para simplificar" ou porque "nem quem enxerga tá vendo ou não sabe". Quanta pretensão acharmos que podemos decidir o que é que a pessoa com deficiência visual (ou qualquer outra) quer e precisa saber ou não sobre um assunto! E não podemos nivelar por baixo, a partir da nossa própria ignorância, não é?

Bom, tinha um quadro em uma das paredes do restaurante que eu já conhecia e um familiar descreveu: "Quadro de uma estátua de mulher seminua em um pedestal, é isso?" "É", respondi. E continuei: "Mas eu também tô vendo um quadro redondo, com uma fotografia em preto e branco de uma estátua de mármore de uma mulher de frente, ocupando quase toda a foto, com o rosto de perfil, cabelos longos, encaracolados e semipresos, braço esquerdo dobrado atrás da cabeça, braço direito sobre os seios nus. Usa uma saia longa e transparente e está com os pés descalços sobre um pedestal cilíndrico." "Ahhh, agora eu entendi", ele disse. E uma tia, toda orgulhosa porque estava mandando muito bem na brincadeira das descrições, viu uma pintura e perguntou: "Acho que é um soldado ali. Quando a gente não tem certeza, como faz?" "Pesquisa, amplia a imagem. Sem ter certeza, não diga", respondi. Esta regrinha ficou engraçada na mesma aula da Lívia, que pediu que descrevêssemos a foto de um alpinista, de longe, já na metade de uma das várias e altíssimas montanhas ao redor. Pensando na regra, muita gente escreveu "pessoa escalando montanha" e ela, rindo: "Gente, pelo amor de Deus! Na altura em que está, se não é alpinista, só pode ser… o Homem-Aranha"!!!

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Cría cuervos

Ouvi, esses dias, um comentário de muito mau gosto feito por dois adolescentes a respeito de um pequeno grupo de pessoas com deficiência visual, bem perto deles, em um lugar público. Ainda pior foi a reação do pai, que riu alto, encorajando ainda mais os dois. Em volta, o constrangimento era geral e os três se afastaram quando perceberam. Lembrei do filósofo Mário Sérgio Cortella, que adoro e recomendo (além dos livros, tem um monte de palestras interessantíssimas no YouTube), que sempre diz: “O mundo que deixaremos para nossos filhos depende muito dos filhos que deixaremos para o mundo”.

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As crianças

Rafaela tem 11 anos. É magrinha, morena de cabelos encaracolados, curiosa e falante. Mora em Osasco e, sempre que sobra algum dinheiro, vem de ônibus com a mãe a alguma sessão gratuita de cinema com audiodescrição ou a uma das grandes livrarias de São Paulo escolher um desses livros infanto-juvenis escritos em série (agora cada história tem vários volumes, não acaba nunca, o que será que aconteceu com o bom e velho livro único e clássico?). Já é a terceira vez que encontro as duas, uma do lado da outra, cada qual sentada em uma poltrona, Rafaela com as pernas esticadas, bengala no chão, e a mãe lendo trechos de livros para a filha escolher. No final, saem para procurar alguma coisa entre as poucas opções em audiolivros.

Já sobre o Diego eu só ouvi falar. Foi o ano passado, no Teatro do SESI, em uma sexta-feira, primeiro dia da apresentação do Festival Internacional de Bonecos – as outras apresentações aconteceram no Parque do Ibirapuera. À noite, minutos antes do último espetáculo, já não havia nenhuma pessoa com deficiência visual e a equipe já estava indo embora quando chegou o Diego. Cinco anos de idade, esperto, ansioso para conhecer os bonecos sobre os quais ele tanto havia ouvido falar. Ficou todo orgulhoso quando soube que a sessão seria só pra ele. Com os fones de ouvido, sorria, batia palmas, às vezes pulava na cadeira de tanta alegria. Depois da sessão, foi até o palco para conhecer de perto os bonecos. Pegava em cada um deles e contava a história gritando, feliz: “Olha, mãe, esse aqui! Ele deu cambalhota e andou de ponta cabeça na bicicleta, ele tem nariz comprido e roupa dourada, que brilha!”

Com os Smurfs foi a mesma coisa, no Shopping Frei Caneca: depois do filme com audiodescrição, as crianças puderam pegar um deles, de pelúcia, para conseguir entender melhor como são essas criaturas azuis. E no filme Operação Presente, animação americana de primeira, em 3D, também no Frei Caneca, tinha uma menininha de uns nove anos na fila de trás que eu não esqueço. Muito bonita, alegre e extrovertida, acompanhava o pai, cego. Não sei seu nome, mas a dupla é conhecida no meio. Antes da sessão, ouvimos os dois conversando, tanta risada, tanto afeto… E, quando acabou, lá estava ela, falando de novo: “A luz acendeu, pai. Tá todo mundo levantando e indo pra porta. Tá cheio e tem bastante criança da minha idade. Como chama essa caixa onde tava o cara que fez a audiodescrição? Do lado, tem uns adultos parados conversando, sabe aquele cara que você tava querendo encontrar? Ele tá lá, também, mas andando devagar pra saída, do lado direito, vamos logo senão não dá tempo”. Nós sorríamos. Os audiodescritores que se cuidem, vem aí concorrência forte…

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Entre gritos e sussurros

Recebi, há pouco tempo, proposta de uma pequena produtora para fazer audiodescrição em um pacote de filmes eróticos, encomenda de um único cliente. “A gente quer fazer com você”, disse o dono, todo animado. Pagava bem. Só que a linguagem do roteiro seria a mesma utilizada pelos personagens, descendo ladeira abaixo junto com o significado de audiodescrição, que ia virar, ali, mais um elemento erótico. Eu ia recusando e, antes que pudesse explicar, lá veio: “Não diz não, por favor! Preconceito isso, hein? Coitado do cara, também tem direito!” Coitada é da audiodescrição. Mas lembrei das muitas conversas que tive com cegos que prefeririam a PLAYBOY a qualquer outra leitura, esse mercado é escasso mesmo. Ele insistiu: “É só um trabalho, coisa profissional”. Ainda propus fazer somente o roteiro e expliquei, feito Madre Teresa, só que sem a menor esperança de que fosse dar certo, como deveria ser feito para ser “profissional”, e ele: “Não, só o roteiro, e desse jeito, não. E a gente quer a sua voz também”. Testei: “É um trabalho profissional, por que você não faz com um locutor?” Já de mau humor, respondeu: “Aí é que não dá mesmo, né? Tem que ser mulher e ter uma voz assim… legal”.  Hã-hã. Sei…

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Locução específica para cegos (existe?)

Em 2004, quando comecei a gravar audiolivros para pessoas com deficiência visual de uma instituição em São Paulo, recebi a orientação de que fosse uma locução “neutra, sem interpretação”, supostamente preferida pelos cegos para que eles mesmos fizessem sua própria interpretação, construindo imagens mentais a partir do que ouviam, como faz quem enxerga e lê um livro. Todos seguíamos esta regra, era assim e pronto. O padrão havia sido estabelecido pelos dois narradores que, durante anos, os cegos tiveram o imenso privilégio de ouvir: Carlos Campanille e Drausio de Oliveira, dois dos maiores dubladores do país, que marcaram para sempre a infância e a adolescência de quem tem hoje mais de trinta anos, nas vozes de alguns dos inesquecíveis personagens de seriados como Perdidos no Espaço, Túnel do Tempo, Terra de Gigantes. Ainda são os melhores locutores de audiolivros que já ouvi! Eu ia pensando sobre essa “neutralidade” toda ao mesmo tempo em que um dos locutores da equipe, o Marcelo Sanches, também dublador, ia começando a dar vida aos personagens dos livros, com diálogos cheios de interpretação e algumas vozes caricatas. E… começou a receber elogios, muitos cegos adoravam essa locução! Depois de uma reunião com a coordenação do setor no início de 2009, duas conclusões liberaram a equipe de locutores da “neutralidade” para sempre: a primeira foi um simples esclarecimento sobre alguns termos que eram utilizados de forma equivocada. Os audiolivros do Campanille e do Drausio sempre estiveram longe de qualquer “neutralidade”; são carregados de emoção, de interpretação, a gente sente e vê a história como se fosse um filme, o que acontece é que a leitura é linear. A segunda, é que essa também não é a questão: na verdade, todo mundo, cego ou não, gosta mesmo é de um bom contador de histórias, seja em uma leitura linear, seja “carregando” nas emoções ou criando as vozes dos personagens. Cegos não são todos iguais e têm preferências por esta ou aquela leitura, por este ou aquele locutor, igualzinho a quem enxerga. Simples assim.

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