Filme dublado, filme legendado, audiodescrição

Vejo hoje, no Blog da Audiodescrição do Paulo Romeu, mais um capítulo da atual, polêmica e interessantíssima discussão sobre o crescente aumento no número de filmes dublados exibidos nas TVs abertas e a cabo e nos cinemas, preferência das camadas mais pobres da população brasileira – que determinaram a mudança, agora que formam um mercado consumidor cada vez mais em ascensão -,  e que também acabou beneficiando, e muito, as pessoas com deficiência visual, versus a reação crítica de um grande número de pessoas que preferem os filmes legendados, para que possam apreciar o som original das vozes dos atores.

Em jornais, revistas e sites, já há algum tempo, o tema rende acusações dos dois lados: de elitismo e preconceito para os que defendem o filme legendado, de preguiça e ignorância para os que preferem os dublados e um espaço para a audiodescrição no meio disso tudo, ainda muito pouco compreendida: a grande maioria mal sabe o que é, que dirá quem é que faz ou deveria fazer a narração, se dubladores, locutores ou atores…

Bom, radicalismos à parte, acho que ambos os lados têm sua razão. Como cinéfila, não me agrada nem um pouco passar pelos canais a cabo e constatar que a maioria deles exibe filmes dublados, sendo necessário acionar o controle remoto para ter a legenda com áudio original toda vez. Mas a mudança agrada a maioria e, principalmente, é necessária para facilitar a compreensão das pessoas com deficiência visual. O grande problema  é que alguns canais a cabo NÃO oferecem a opção da legenda com som original, o que prejudica também as pessoas com deficiência auditiva e é tão desrespeitoso com o assinante quanto as interrupções frequentes no filme para a exibição de comerciais que, desde o começo, pagamos e caro para não ver e, em alguns canais, são tantos que invalidam totalmente o prazer de assistir qualquer coisa.

Como cinéfila, também, me surpreendi ainda ontem, ao comprar um ingresso em em dos melhores cinemas de São Paulo e ouvir da atendente, na bilheteria, a pergunta inédita: “Esse filme é legendado, pra você tudo bem”? O filme, claro, era um blockbuster, ou um grande sucesso do cinema americano, imbatível em filmes de ação, suspense e de efeitos especiais, aliás de um povo expert em riqueza, tecnologia, consumo e ufanismo, mas ainda muito longe de ter o apreço à cultura como característica marcante.

Tem outra coisa:  quem é apaixonado por cinema de qualidade sabe que as vozes são fundamentais na composição do personagem e, por melhor que sejam os dubladores, o som original é absolutamente insubstituível para apreciar, compreender e avaliar o trabalho dos atores. E também não deixa de ser preconceituosa a ideia de que quem prefere o filme legendado é elitista – não é preciso pertencer à elite cultural ou financeira para gostar do legendado ou de bons produtos culturais, é só observar o público que frequenta alguns cinemas considerados “de arte” em São Paulo, ouvir algumas conversas nas filas e nos cafés: embora não seja a maioria, é grande o número de jovens estudantes pobres, com o dinheiro contado para o ônibus, o cinema e uma cerveja depois. Assim como tem muita gente da classe média que prefere, sim, o filme dublado, principalmente em casa, porque consegue acompanhar enquanto, por exemplo, lava a louça ou folheia uma revista. Dublados ou legendados, o importante é que o espectador tenha sempre as duas opções em todos os filmes.

É preciso, ainda, um olhar mais generoso com aqueles que falam e escrevem sobre este e outros temas relevantes sem parecer levar em conta as pessoas com deficiência visual: muitos são respeitados profissionais em suas áreas e certamente não o fazem por estupidez, egoísmo ou frieza e, sim, pelo total desconhecimento da questão, infelizmente, ainda restrita a quem é ligado ao meio. Acredito que uma postura mais respeitosa, com opiniões mais informativas e mais bem divulgadas funcionem melhor pela sociedade inclusiva que queremos.

E a audiodescrição? Gostaria que alguns aspectos também fossem discutidos com  o mesmo empenho. Começamos muito bem: os pioneiros da AD no país são referência pela qualidade dos roteiros que elaboram mas, pelas dificuldades inerentes a um recurso ainda pouco conhecido e pouco valorizado e por isso muitas vezes mal remunerado, nem sempre é possível, nem para eles nem para dezenas de outros bons audiodescritores roteiristas, a utilização de vozes profissionais na narração ou no voice over (leitura das legendas junto com a voz original, que também é ouvida, nos casos em que o filme não é dublado). Em uma profissão ainda no início e sem regulamentação, temos visto de tudo, em todas as etapas do processo: leigos fazendo AD em todo tipo de produto cultural, produtoras de dublagem sendo também responsáveis pela elaboração de roteiros (embora existam bons trabalhos, sabemos que algumas chegam a fazer um roteiro de um longa-metragem em uma tarde!), cursos de audiodescrição organizados e ministrados por pessoas qualificadas teoricamente, mas sem nenhuma experiência de mercado e outras, com um mínimo de teoria e quase nenhuma experiência! Cursos de AD, por melhores que sejam e como quaisquer outros, ainda mais com tão curta duração, são apenas uma pincelada, um primeiro passo: sozinhos, são incapazes de formar bons profissionais, que dirá professores de audiodescrição!

O próprio mercado vai filtrando e selecionando os profissionais, mas claro que disciplinar a profissão é necessário  – só torço para que aconteça sem um possível monopólio desta ou daquela categoria. Certa vez, perguntaram à atriz Fernanda Montenegro o que ela tinha contra as modelos que viravam atrizes, no auge desse fenômeno, e ela respondeu: “Nada, desde que virem”!

Pois bem: bons audiodescritores roteiristas costumam ter um sólido repertório que inclui uma boa formação acadêmica em Letras, Jornalismo, Cinema, Filosofia e outras áreas relacionadas; um grande poder de síntese, o que exige texto e vocabulário excelentes; conhecem a fundo o universo da pessoa com deficiência visual; e, acima de tudo, gostam do recurso – um bom curso de audiodescrição é, então, um complemento fundamental. Já os melhores narradores são mesmo os profissionais da voz: atores, locutores e dubladores (para ser dublador é necessário o registro de ator), todos igualmente capacitados para o trabalho, desde que também façam um curso de audiodescrição.

outrosolhares@terra.com.br

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Namorados

“Vou transar com ele amanhã”, comunicou, decidida. “Aleluia, demorou!”, respondeu a tia, sorrindo. Vinha nessa indecisão havia uns meses, desde que conheceu o grande amor da sua vida na faculdade. Os dois com vinte e três anos. Apaixonados. Ela, cega desde os dezenove.

Há quatro anos não tinha nada com ninguém e achava que nunca mais teria. Antes disso, namorava “e bastante”, dizia. E agora, como sentia falta! Bastou chegar perto dele, tocar sua mão e ouvir sua voz para se apaixonar. Ficaram amigos. Saíram. Teve pedido de namoro e tudo. Rolaram uns beijos, uns apertos e… ela parou por aí, insegura, cheia de dúvidas e medos, coisa que não aconteceu nem na primeira vez, quando era bem mais nova. Meio envergonhada, contou para as duas melhores amigas. Ficou um silêncio meio constrangedor, se arrependeu na hora pensando que sexualidade de pessoas com deficiência é meio tabu, incomoda, e aí ou é ignorada ou é ridicularizada. Uma delas disse pra ela ir mesmo, mas sem muitas expectativas, porque “homem… você sabe como é, né?”. A outra achou melhor não, “até ter certeza de verdade do amor dele”. “Pronto”, pensou, “voltamos ao século dezenove.” Quando elas, que enxergavam, ficavam a fim de um cara, iam sem pensar duas vezes. “Como eu, quando podia ver”, concluiu com tristeza.

Pior ainda foi ter contado à mãe, a essa altura do campeonato, e ouvir o conselho cauteloso:  “Vai devagar, filha, espera mais um pouco. Tem muito preconceito, é difícil um rapaz ficar com uma moça com deficiência, no fim quem se machuca e feio é você. E tem mais: sei que você vai contar pra despirocada da sua tia, então toma cuidado com as coisas que ela vai dizer pra não fazer besteira, tá? Ela fuma tanto daquela porcaria e há tanto tempo que um dia ainda aparece aqui toda verde, com umas antenas na cabeça!”.

Não deu outra: procurou a tia, cansada de opiniões que só reforçavam seus medos. Sabia que ela diria o contrário. Diria exatamente o que queria ouvir, daria o aval que precisava para fazer o que queria fazer.

“Mas ainda não rolou?! Não entendi a dúvida, é a primeira vez que uma menina da sua idade quer saber o que eu acho de ela transar. Achei que o problema estava em NÃO transar”, respondeu, divertida. ”Você entendeu, tia. Eu sou cega.” Com um copo de cerveja em uma mão e o cigarrinho na outra, brincou: “E daí? Nessa hora, na idade de vocês, ninguém enxerga nada mesmo! Para de pensar tanto e vai lá logo, se o mundo acabar no fim do ano, como estão dizendo, pelo menos você se divertiu!”. Mas a sobrinha ainda tinha muito que perguntar: ”E se ele me der um pé na bunda depois?”. A tia arregalou os olhos: “Nem parece que você tem vinte e três anos e faz uma faculdade, que conservadorismo é esse? Se der um pé na bunda, você entra pro nosso clube que já reúne, deixa ver… uns bons 99% das mulheres do planeta! Deixa de ser boba que, na sua idade, homem é como biscoito: caiu um, tem mais dezoito”…

Dava risada com aquela tia alegre, leve, simples e feliz. Gostaria de também ser assim. Quem sabe um dia porque, agora, só sentia um nó no estômago ao lembrar do namorado contando a ela o que a mãe havia dito ao saber que estavam juntos: “Mas, meu filho, você já pensou em como é que vai ficar a sua vida?”.

Mais uma pergunta à tia: “E se ele me trocar?”. Ela, fingindo preocupação: “Ah, meu Deus…”. E séria: “Tô te estranhando tanto, meu bem, você nunca foi assim. Tem homens e homens, mas acontece, ué, é um risco que todo mundo corre. E troca mesmo, ou porque tá gorda, ou porque é pobre ou velha, porque não é inteligente ou é inteligente demais, ou troca porque não enxerga e, acredite, porque enxerga demais. É assim mesmo, tem que ficar esperta e aprender a lidar com as coisas do mundo. E se tem uma coisa que eu aprendi, minha filha, é o seguinte: um homem, quando fica com a gente, fica porque gosta da pessoa que a gente é. Você é incrível, menina. Só não enxerga. Simples assim”.

Como era bom ouvir essas coisas… De repente, teve um sobressalto ao lembrar de novo da mãe do namorado, que havia dito a ela que o filho era bondoso como poucos. “Entendi”, pensou. “Só sendo muito bom pra aceitar namorar uma cega, não é? Vai ver, tenho de dar graças a Deus por ele estar comigo…”

“Nossa, você estava distante!”, continuou a tia. “Já pensou na possibilidade de… você não gostar?” Quem estranhou agora foi ela: “Como assim?” A tia revirou os olhos: “Tá vendo? Nem você considera a possibilidade de o sexo com ele ser meia-boca. À vezes não bate mesmo”. Ela riu: “Tia, você tem cada uma, eu amo ele e pelo beijo a gente já sabe. Eu vou é pegar fogo. E você, lembra quando foi que se apaixonou loucamente pela última vez?” A tia foi pra ponta do sofá e pôs as mãos na cintura: “Essa é boa! Eu tenho só 42 anos, tô bem longe de viver de recordações nessa área, viu? Eu ainda tô é na ativa, minha última lembrança tem menos de 24 horas!”. Riram.

Decisão tomada, já era noite e ela estava deitada no sofá, com a cabeça no colo da tia, que, carinhosamente, acariciava seus cabelos no escuro, no silêncio da casa. “Não tenha medo”, disse, baixinho. Vai dar tudo certo.” Ela: “E se não der? Vou sofrer mais ainda do que eu já sofri”. A tia deu um suspiro. ”E, como todo mundo, vai passar por mais isso também e não vai desistir. Esqueci de contar a outra coisa que eu aprendi: tem muita gente legal no mundo, muito cara bacana. E o seu me parece ser um deles.”

No dia seguinte, à tardezinha, lá estava ela, o coração aos pulos, caminhando com o namorado pelo corredor do prédio em que ele morava. Segurava a mão dela, gelada. Pararam em frente à porta do apartamento. “Tudo bem?”, ele sussurrou. Ela fez que sim com a cabeça. Ele a beijou. Entraram.

Já era bem tarde quando, do outro lado da cidade, a tia, com as mãos entrelaçadas em cima da mesa, olhava o telefone há horas. Finalmente tocou e ela correu para atender: “Alô!”, a voz apreensiva. “Tia, sou eu”, a voz trêmula. “Já estou em casa.” A tia foi disparando uma pergunta atrás da outra: “E aí, como foi? Tudo certo? Que voz é essa? Aconteceu alguma coisa?” E ela: “Aconteceu. Aconteceu que eu vou lembrar desse dia como o dia mais feliz da minha vida!!!”, disse quase gritando de alegria. A tia fechou os olhos, respirou fundo e sorriu.

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Desenhando um mundo para todo mundo

Sábado. Banheiro de um charmoso restaurantezinho aqui de São Paulo. Cris, que é cega, foi tateando procurar o botão da descarga do vaso sanitário. Procura daqui, procura dali, em cima do encosto, nas laterais, percorre a parede à volta e… nada. Tentou o quanto pôde e desistiu. Voltou para sua mesa, contou o episódio e alguém informou: “Ah, está no chão, perto da parede, do lado direito do vaso, é só acionar com o pé. Bem mais higiênico”. Ah, então, tá, ela pensou. “Ainda passei por mal-educada para a fila de pessoas que aguardava na porta. Afinal, era só pisar no botão, eu devia saber!”, comentou, irônica. Alguns dias antes, a Carolina, também cega, estava em uma padaria bacana em um bairro próximo e entrou no banheiro apenas para lavar as mãos: tateou a torneira e percebeu que não era a manual, giratória, então foi colocando as duas mãos embaixo dela, supondo que a abertura só poderia ser por leitura ótica. Nada da água. Tateou à volta toda. Voltou para a mesa e ouviu a mesma explicação: “É no chão, minha querida! Só apertar com o pé”.  A Cris e a Carolina dizem a mesma coisa: “Nossa, dá um desânimo, tudo pra nós demora tanto neste país, aí inventam uma novidade como se a gente não existisse…”.

Domingo. Comentei as duas histórias, que recebi por e-mail, com um pequeno grupo de conhecidos. Um deles concluiu: “Mas também vai fazer o quê, gente? Cada banheiro é de um jeito mesmo, as torneiras, os botões da descarga… é legal essa modernidade, essa criatividade. Alguém explica para o cego como usa e pronto!”. Todos concordaram com a cabeça.

Confesso que, às vezes, também desanimo. E, ingenuamente, ainda fico meio perplexa com esses comentários. Quem está, de alguma forma, ligado às questões das deficiências tem a falsa impressão de que o significado e a importância de termos como inclusão e acessibilidade já são bastante conhecidos. Não são e ainda temos muito chão pela frente.

Perguntei: “Alguém já ouviu falar de… Desenho Universal?”. Silêncio.

Desenho Universal é um conceito que ganhou força nos anos 1960 e propõe ambientes, projetos e uma infinidade de equipamentos e produtos para que TODAS as pessoas os utilizem com facilidade, conforto e segurança, sem necessidade de adaptação: crianças, anões, adultos altos e baixos, pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida (mobilidade reduzida não se refere somente aos cadeirantes – a expressão inclui também idosos, gestantes e obesos). Isso significa, só pra citar alguns exemplos, torneiras e botões de descarga de vasos sanitários com mecanismos facilmente identificáveis e acionados por QUALQUER pessoa; pias, tomadas, interruptores de luz e o papel toalha dos banheiros ao alcance da mão de cadeirantes e anões; maçanetas fáceis de pegar e abrir, sem esforço, por mãos de qualquer tamanho; portas mais largas para que cadeirantes e idosos com andador possam passar.

Em bares, restaurantes, prédios públicos, escolas, clubes, salas de cinema e teatro, shopping centers, supermercados e hotéis, a ideia é que o maior número possível de pessoas possa realizar suas tarefas rotineiras sem ajuda de ninguém. Como aconteceu com a deputada federal Mara Gabrilli, tetraplégica, que foi a um restaurante no Japão e, vendo a enorme fila de espera das pessoas para se servir, foi logo para o início, contando com a preferência a pessoas com deficiência, idosos e gestantes com a qual se acostumou aqui no Brasil. Um funcionário pediu a ela que voltasse e aguardasse sua vez no final da fila, já que o restaurante era totalmente acessível e obedecia às normas do Desenho Universal, com a bancada de alimentos na altura da cadeira de rodas. Além disso, continuou, ela já estava sentada mesmo, poderia perfeitamente esperar… No Brasil, o Desenho Universal é determinado em projetos arquitetônicos e urbanísticos por Decreto Federal desde 2004!

E o conhecido, autor do comentário do início deste post, ficou espantado com a explicação: “É mesmo, né? Nunca pensei nada disso! Eles querem autonomia como todo mundo, claro! Cego e cadeirante a gente ainda conhece um pouco, mas… anão? Ninguém imagina as dificuldades, nem que tem jeito de dar solução pra algumas delas!”. Existem muitos recursos e equipamentos inclusivos que melhoram e muito a vida das pessoas com deficiência e algumas atitudes que podemos ter em relação a elas que podem transformar a nossa sociedade em uma sociedade inclusiva de verdade: conhecer, acolher e respeitar as diferenças, o que também é um termômetro da evolução de um povo.

Para quem quiser entender melhor o tema, sugiro dois dos melhores portais brasileiros sobre deficiências: http://www.saci.org.br e http://www.bengalalegal.com. E o DVD “Na Ponta dos Pés” (TIPTOES), produção de 2003, filme que conta a história de uma bela moça que engravida do namorado alto e atlético e, depois, fica sabendo que a família dele é de anões. Resolve ter o filho contra a vontade do namorado. Com Gary Oldman, Kate Beckinsale e Matthew McConaughey. Assista que vale a pena.

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