Um cego no Templo dos Ratos

Imagine visitar um santuário onde as divindades são… ratos de verdade! Milhares e milhares de ratos e ratazanas que ocupam todos os espaços possíveis, de pátios e escadas a nichos e frestas. Sim, este lugar existe: é o Karni Mata ou Templo dos Ratos, na Índia. Lá, o visitante só pode entrar descalço ou de meias (e tentar evitar pisar em urina, fezes e restos de comida espalhados por todo canto). Se matar acidentalmente algum rato, deve pagar o peso dele em ouro ou prata na saída.

Os ratos são tratados pelos devotos com respeito e cuidados: voluntários hindus, todos os dias, deixam grandes tigelas de leite para eles, que se espremem lado a lado nas bordas para bebê-lo. De vez em quando, um rato perde o equilíbrio, cai dentro da tigela e sai rapidamente. De vez em quando, também, os hindus sentados ao lado levam a mão em concha ao centro da tigela e bebem daquele leite.

Luís Felipe ouve a história, fascinado. Ele tem 13 anos e é cego. Alegre, curioso e falante, adora viajar, mas só para “lugar que interage”, como ele diz: praias, parques aquáticos ou de diversões, com brinquedos que unem velocidade e altura. “Quando alguém tem de ficar contando como é, não tem graça. Se é só para ouvir, tanto faz estar lá como aqui em casa”, explica.

Proponho, então, três roteiros de viagens “interativas” que duvido que ele tenha coragem de encarar, mas, já no primeiro, a surpresa: ele simplesmente adorou o Templo dos Ratos. Já teve hamster e é fã da animação Ratatouille, que conta a história de um rato que tem o sonho de virar chef de um restaurante para humanos – e consegue. “Já pensou eu lá no templo? Ia sair espanando os ratos com a bengala, haja dinheiro, quando eu for você vem comigo para me guiar”, ele sonha. Esquece, Felipe: “Nossa cultura aqui é outra, eu tenho certeza de que vou ter um AVC assim que a primeira ratazana subir no meu pé. Ainda caio dura em cima delas. Vou lá pedir proteção e prosperidade e saio morta ou endividada!”, brinco. Ele gargalha.

Felipe interrompe a conversa no skype e vai provocar a avó com a história do templo. Ao longe, ouço o comentário dela: “Deus me livre, Lipe, ai, me deu até arrepio… Isso lá é passeio?”. Ele volta confiante: “Eu vou mesmo, acho que vou ser o primeiro cego a visitar o templo, quem sabe ainda fico famoso. Qual é a outra viagem?”.

Mergulhar com tubarões brancos. O turista vai de barco até onde eles se concentram e desce em uma jaula para observar e fotografar. Não demora e lá vêm uns dois ou três, alguns mais curiosos e agressivos do que outros – tentam morder as grades, mas se afastam logo. Fácil, não? Pois é. Mas, de vez em quando, acontece de o tubarão não cumprir o roteiro e, de repente, ele sobe e avança com tudo no cabo que liga a jaula ao barco! Morde com força, seu corpo sacode todo, ele se afasta um pouco e ataca outra vez. O bicho tem uns seis metros de comprimento e duas ou três fileiras de dentes triangulares e pontiagudos em cada arcada. O turista, coitado, aterrorizado, fica grudado no fundo da jaula, braços e pernas abertos, os olhos arregalados do tamanho de pires por trás da máscara de mergulho. Lá em cima, os caras do barco começam a puxar a jaula rapidamente e na manivela mesmo. Aí, o mais comum é o sujeito sair da jaula mal se aguentando em pé e cair deitado no chão do barco para se recuperar.

Dessa vez, Felipe fica impressionado: “E se o tubarão arrebenta o cabo? Se a jaula desce até o fundo? O que acontece? Quem vai resgatar?”. Nessa história ele não achou graça e olha que é fã de filmes de terror. Mas disse que ia assim mesmo, com medo e tudo. E, falando em filmes, só por curiosidade, pergunto quem é que narra para ele. Felipe responde que às vezes é a avó, às vezes a mãe. “Minha avó se atrapalha mais e fica falando ‘ai, meu Deus’ a toda hora, em todo susto, e quando consegue contar a cena, ela já passou faz tempo. Minha mãe conta melhor, mas porque assiste antes.”

Vamos, então, ao terceiro roteiro. Tem uma cidadezinha no Canadá, Churchill, onde uma lei proíbe que os carros sejam trancados! Isso porque o cidadão pode a qualquer momento topar com um urso na rua e tem de ter algum lugar próximo para se proteger. São 900 moradores e cerca de mil ursos! Cada vez que alguém sai de sua casa ou do trabalho tem de olhar para todos os lados e continuar superatento até chegar ao destino. “E como é que um cego faz lá? Anda acompanhado 24 horas por dia por alguém que enxerga?”, pergunta o Felipe. E arrisca uma teoria: “Se eu estiver lá e encontrar um urso, não vou ter medo porque não estou vendo e ele vai estranhar tanto que não vai mexer comigo”. Sei. Vai nessa. E bate o martelo para o Templo dos Ratos: “Lá eu não corro o risco de morrer,né?”.

Ele mesmo ri. A gargalhada do Felipe faz a gente rir também. É espontânea, alta, limpa, vigorosa. Faz parecer que nada é impossível (e para alguém tão jovem,não é mesmo), que basta ter vontade e coragem para que tudo no mundo se resolva rapidamente e que lidar com os ratos, tubarões e ursos do dia a dia nem é tão complicado assim. Ah, quanta sabedoria na frase do imortal Eduardo Galeano: “Os cientistas dizem que somos feitos de átomos, mas um passarinho me diz que somos feitos de histórias”.

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Cegos fazem seus pedidos de Natal

O blog perguntou a dez pessoas, oito cegas e uma mãe e uma avó de cegos, quais são seus desejos inclusivos para o Natal: o que pediriam a Papai Noel?

Mas que ninguém se engane com o título deste post que, para leigos, pode facilmente remeter a lacrimosos agradecimentos a instituições assistencialistas, pedidos de ajuda ou qualquer outro estereótipo ligado a quem tem deficiência, como, por exemplo, o conformismo. Esse pessoal aqui tem interesses e conhecimentos que vão muito além de programas de rádio e TV, missas ou livros de autoajuda e espiritismo.

Não são os únicos com bom repertório acadêmico, cultural e político – como eles, existem milhares pelo país. Mas são, sim, alguns dos pouquíssimos cegos que botam a boca no trombone na hora de defender seus direitos.

João Filipe de Castro, 52 anos, advogado, português: “Estão aí duas coisas que não existem: Papai Noel e inclusão dos cegos!”. (risos)

Maria Ângela Almeida, 40 anos, professora universitária, mãe do Gabriel, 20 anos, cego: “Gostaria de ver uma campanha por inclusão na TV. Não há uma única campanha que divulgue direitos das pessoas com deficiência. Como querem inclusão sem conscientizar a sociedade? Só lembram deste segmento durante os Teletons da vida e sempre da pior maneira possível: pedindo dinheiro para os pobrezinhos incapazes. Essa é a única imagem que fica na cabeça das pessoas. Nas propagandas, nunca há um cadeirante ou um cego bem vestido, sorrindo, em um restaurante ou dentro de um avião. Os negros, as mulheres, os gays foram à luta e conseguiram enormes avanços no cumprimento de seus direitos. As pessoas com deficiência e principalmente os cegos precisam de tutela, ainda têm como principal caminho o assistencialismo. Continuam no século 19.”

Liliane Moraes, 36 anos, socióloga e mestre em Ciências Sociais: “Eu desejo a todos discernimento entre necessidades gerais do cidadão e específicas de minorias sociais, bem como acerca do ponto de interseção entre tais necessidades e a perspectiva das minorias. Que não se perca a percepção de cidadania preconizada pela Constituição Federal de 1988. Um exemplo: que todos se lembrem do combate ao racismo, antes de exigir cabelos lisos em escola, conforme aconteceu recentemente, ou das piadas que ferem a dignidade do negro. Que o negro veja a si mesmo e seja visto amplamente como cidadão, tanto quanto a pessoa com deficiência, ou como pessoas de qualquer outro segmento social; que todos entendam que a pessoa com deficiência precisa ser considerada em sua realidade material e não apenas de modo subjetivo, como alguém ‘genericamente a servir de exemplo’, e que tenha sua cidadania efetivada, como deveria ser com todos os outros segmentos citados; e que não se deixe de reconhecer os membros do segmento LGBT como cidadãos, tanto quanto a mulher heterossexual. Cidadania, em sentido amplo, é, a meu ver, o máximo que se pode esperar como fator de equidade numa sociedade de mercado. Portanto, que sejamos todos respeitados como cidadãos e tenhamos o básico à dignidade”.

Deise Fernandes, 59 anos, socióloga: “Meus desejos para o Natal são tantos! Não caberiam nessa página. E são os mais comuns possíveis. Natal me faz lembrar de árvores com bolas coloridas, luzes, músicas típicas, troca de um monte de presentes, comidas gostosas e com muitas calorias. Por que será que as pessoas acham que só porque eu não enxergo teria desejos diferentes?”.

Késia Pontes, 32 anos, mestre em História: “Desejo que saiamos do mundo de faz de conta natalino e possamos pensar em uma sociedade diversa, em que todas as pessoas tenham seus direitos fundamentais respeitados dentro do desenho universal. Nesta sociedade, as pessoas com deficiência deixariam de ser mercadorias e moedas de troca de instituições que deveriam defender direitos, porém, difundem visões caritativas e assistencialistas. Nela não haveria escolas, espaços culturais, eventos ou qualquer tipo de espaço classificado como‘especial’, pois nela as pessoas não seriam ‘especiais’, mas, sim, respeitadas em suas características humanas. Ao promover a diversidade humana, a transversalidade se faria presente, pois as demandas das pessoas com deficiência e grupos vulneráveis seriam discutidas em todas as pautas: saúde, educação, transportes, infraestrutura, esporte, lazer, cultura, proteção adequada e todas as esferas da vida humana. Em suma, desejo que todos nós possamos viver como seres humanos”.

Carla Maria de Carvalho, 28 anos, bióloga: “Gostaria que a mídia não consultasse ou entrevistasse pessoas com deficiência apenas para falar de sua deficiência. Tenho uma vida legal, igual a de todo mundo, e opiniões sobre uma infinidade de temas, como todo mundo também! E gostaria de ver leis sobre inclusão que fossem cumpridas de verdade e, para isso, tem de haver punições em caso de descumprimento. Não podem ser apenas cartas de intenções. A recente Lei Brasileira de Inclusão não prevê penalidades significativas, por isso deve acabar indo para a vala comum das anteriores: a do esquecimento”.

Naziberto Lopes de Oliveira, 50 anos, psicólogo: “Meu desejo de inclusão seria que a palavra ‘inclusivo’ fosse extinta de todo dicionário, seja em português ou qualquer outro idioma. Dessa maneira, ninguém mais ficaria alegando que sua peça de teatro, seu filme no cinema, seu show, seu espaço, seu livro, seu raio que o parta é ‘inclusivo’. Assim, ou as pessoas fariam seu evento ou produto realmente para todos, e para todos significa única e exclusivamente respeitar o desenho universal, ou então acabariam com essa papagaiada de dizer que isso ou aquilo é inclusivo e o restante todo, não”.

Maria Eugênia, 65 anos, dona de casa, avó do Luís Felipe, 13 anos, cego: “Eu gostaria de ver uma grande e verdadeira mobilização de cegos em prol de seus direitos. Essa organização de cegos brasileiros é uma nulidade, não existe um único órgão oficial que realmente defenda os direitos das pessoas com deficiência. Sabe o que é que pais e mães de filhos cegos e cadeirantes conseguem quando levam denúncias e reivindicações a conselhos municipais, estaduais e o nacional que deveriam defendê-los? Apenas números de protocolos de atendimento que nunca dão em nada. Aliás, as únicas pessoas a lutar de verdade por quem tem deficiência são parentes sem qualquer deficiência. Prova disso é a força dos movimentos Down e de autistas, formados por pais e mães, alguns bem famosos, que conseguem o cumprimento de leis e a sensibilização da sociedade para sua causa. Enquanto os interessados não forem à luta e não fizerem uma boa pressão por seus direitos, tudo vai continuar do jeito que está”.

Bebeto Pires, 48 anos, músico: “Quero visibilidade!!! Tá certo que ser visível, às vezes, nos transforma em alvos fáceis. Mas com esta sombria capa da invisibilidade que nos envolve, somos um alvo bem maior. As pessoas passam por cima mesmo e nos esmagam, já que não estão vendo – e mesmo que vejam, fica mais fácil fingir que não”.

Renato Barbato, 51 anos, arquiteto: “Coincidência ou não, duas datas tão festivas se misturam, o Natal e o Ano Novo. A data exata do nascimento de Jesus nunca foi comprovada, tampouco a data do início do ano, determinada pelo calendário gregoriano, em detrimento do judeu, do hindu e de outros. Se temos duas datas que não são comprovadas,  o que dizer da inclusão ampla, geral e irrestrita, tão alardeada em nosso país? Uma mentira, como devem ser essas duas datas.
Dizer que temos inclusão, onde? As calçadas continuam causando quedas e fraturas em idosos e dificultando ou impedindo o direito fundamental garantido por nossa Constituição, o de ir e vir, inclusive sem direcionar os cegos ou pessoas com baixa visão por falta de piso tátil na esmagadora maioria das nossas cidades.
Cego na escola ou na faculdade?  Livros em braile chegando a tempo de nossas crianças acompanharem seus colegas? Cego não precisa ler. Afirmação comprovada pelo descaso do governo que ainda não regulamentou a Lei do Livro, impossibilitando um deficiente visual de ter acesso pleno aos milhões de títulos existentes no mundo, relegando a eles somente os ‘chiqueirinhos’ do livro para cegos.
Pegar transporte público coletivo?  Se até mesmo uma pessoa tida como normal tem dificuldade em subir os degraus,  imaginem um deficiente físico.
Educação, saúde, cultura, lazer e esporte, atividades a que todos temos direito, como reza nossa Constituição, são negadas às pessoas com algum tipo de deficiência.
Certamente será muito mais rápido e fácil descobrir as verdades sobre o Natal e o Ano Novo do que termos acessibilidade plena em nosso país tão discriminatório. Uma discriminação velada, mas presente. Para mudar isso temos de mudar nossa atitude, porque se queremos um mundo diferente, temos de ser diferentes e fazermos a diferença.
Deixo a todos meus desejos de um Natal cheio de graça e paz e um Ano Novo gregoriano com muita vontade de mudar – se já não podemos alterar a história dessas datas, podemos e devemos, sim, mudar a nossa história”.

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Como assim, cega?

“Sim, eu sou cega!”, começa Nathalia Santos, 23 anos, na apresentação de seu recém-lançado canal no You Tube, o didático e bem feitinho ‘Como Assim, Cega?’. O título faz referência à pergunta que ela ouve com mais frequência, já que, como suas pupilas se movimentam normalmente, fica difícil acreditar que ela não enxerga.

Nathalia, para quem não sabe, é repórter da GloboNews e comentarista do programa dominical ‘Esquenta!’, da TV Globo. O estigma de “mulher, negra, moradora de comunidade no Rio de Janeiro e cega” desaparece diante dessa bela jovem, segura e determinada, que sempre teve a independência incentivada pelos pais, sempre estudou em escola regular e conta com simplicidade e leveza as dificuldades que enfrentou e enfrenta em seu dia-a-dia, dos ônibus errados que toma a uma vez em que foi acusada por um homem que a ajudou a atravessar a rua de ter furtado sua carteira “fingindo-se de cega”. Ou do verdadeiro alívio ao ficar completamente cega porque em um dia enxergava, no outro não, e quando não viu mais nada só pediu à mãe que não a deixasse ficar feia e fora de moda.

O pedido foi atendido. Nathalia chama atenção por estar sempre bem vestida e maquiada e vai aqui uma breve e necessária descrição de seu visual nos dois primeiros vídeos do canal: no primeiro, está com os longos cabelos soltos e encaracolados, brincos compridos e veste uma blusinha branca rendada junto à gola e nas mangas curtas, por dentro de uma saia estampada com delicadas ramagens azuis e amarelas. Já no segundo, os cabelos estão presos em um grande coque, deixando à mostra pequenos brincos claros. Veste um blazer com estampa floral em verde, amarelo e vermelho sobre camisa branca de gola franzida e arrematada por um fino laço preto e um short também preto.

O que Nathalia ainda não contou no canal foram as inacreditáveis agressões que sofreu em uma noite do final de 2013 na PUC-Rio, onde cursava Jornalismo como cotista, quando cinco pessoas a agarraram, arrancaram sua bengala e a levaram para um lugar deserto da faculdade, torceram seu braço para trás e durante meia hora um dos homens a ameaçou, dizendo que o lugar dela não era ali, que a vida dela na faculdade seria um inferno e que tomasse muito cuidado com as escadas! As duas mulheres do grupo riam.

Apesar de, a partir daí, Nathalia ter passado a andar com seguranças cedidos pela PUC-Rio, acabou pedindo transferência para a ESPM, também do Rio. Os agressores jamais foram identificados e a história não teve nem de longe a repercussão que merecia na grande imprensa – e olha que ela já trabalhava na Globo… Este foi apenas mais um exemplo (e dos mais leves) de covardia e preconceito que acabam ficando por isso mesmo e que acontecem todos os dias a milhares de pessoas com deficiência em todo o país.

A importância do canal criado pela Nathalia está no protagonismo de uma pessoa com deficiência ao falar por si mesma e fora do meio, compartilhar suas experiências e histórias para divulgar direitos, minimizar diferenças e desfazer preconceitos, expor com franqueza as inúmeras dificuldades que enfrenta nas tarefas mais simples do cotidiano e que poderiam ser solucionadas, por exemplo, com a implementação de transporte público acessível, por meio de simples aplicativos em celulares que avisam à pessoa cega que seu ônibus está chegando ao ponto, e semáforos sonoros.

É a realidade que contradiz o fictício mundo da inclusão construído pelos governos, com suas ações prioritariamente midiáticas, que servem basicamente à autopromoção de políticos e gestores de secretarias da deficiência; ações em grande parte desnecessárias, ineficazes, excludentes ou até mesmo… inexistentes, como o recente e alardeado lançamento da Central de Libras pela Secretaria Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo. Pensou que já estivesse funcionando a todo vapor? Pois o projeto não passa de um belo protocolo de intenções assinado junto ao Ministério Público. De concreto mesmo, só mais uma estratégia para mostrar serviço, tão manjada quanto a de inventar na hora uma ação inclusiva qualquer e que jamais existiu apenas para ter uma resposta aos repórteres que perguntam demais.

Em um meio tão fechado, dominado principalmente pela passividade e pelo silêncio, com blogs cheios de textos técnicos e acadêmicos, ou escritos em cima do muro ou, pior ainda, claramente do tipo chapa branca, iniciativas como a da Nathalia são muito bem-vindas e mais do que necessárias. Que sirva de inspiração para outras pessoas com deficiência. Começar a falar por si mesmas e sem medo já seria um bom começo. Boas histórias – sabemos muito bem – é o que não faltam.

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Cego ganha causa contra Cia. das Letras, Contexto e Grupo Gen

Do Movimento Cidade para Todos

“O Movimento Cidade para Todos, formado por pessoas com deficiência visual de todo o país em prol da defesa de seus direitos, cumprimenta o psicólogo Naziberto Lopes de Oliveira, 50 anos, cego desde os 23, pela conquista do direito de comprar livros em versão digital acessível das editoras Companhia das Letras, Contexto e Grupo Gen, em uma batalha judicial que durou quase seis anos e foi resolvida no início deste ano em última instância, não cabendo mais recursos por parte das editoras.

Na prática, agora Naziberto paga pelo livro físico e recebe também a versão digital acessível disponível, que pode ser ouvida por meio de voz sintetizada em celulares, tablets e computadores há anos graças aos programas leitores de tela, a tecnologia que trouxe a verdadeira inclusão a pessoas com deficiência visual em todo o planeta – sem que tenha sido desenvolvida especialmente para cegos e (graças a Deus!) sem depender de qualquer governo ou instituição assistencialista.

A corajosa, desgastante, cara e solitária luta de Naziberto por um direito básico, o direito à leitura, garantido pela Lei do Livro (que jamais foi regulamentada), depois pela quase desconhecida Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e, mais recentemente, pela Lei Brasileira de Inclusão, mostra a cruel realidade de quem não pode enxergar: o total descaso da sociedade e do Estado para com esta e tantas outras questões relacionadas às deficiências.

O Estado deixou sua obrigação a cargo do assistencialismo, que faz o que pode (e o que não pode) para continuar lucrando como o único caminho dos cegos à leitura sem jamais conseguir atender a esta demanda, pela total impossibilidade de oferecer a eles sequer uma mísera parte do volume de livros lançados todos os anos pelo mercado editorial.

Naziberto falará sobre o livro acessível durante pioneiro evento promovido pelo Ministério Público Federal, neste dia 09 de setembro, no Rio de Janeiro, durante a 17° Bienal Internacional do Livro, no debate: ‘Livro com Acessibilidade – Direito à Leitura e Pessoas com Deficiência’.

Livros acessíveis vendidos pelas editoras e disponibilizados em bibliotecas públicas para que sejam ouvidos e digitalizados pelos cegos por meio de scanners de voz: isto, sim, é inclusão.

Parabéns, Naziberto!”

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Fantástico presta desserviço aos cegos

Do Movimento Cidade para Todos*

O programa Fantástico, da TV Globo, nunca foi de propor e aprofundar reflexões sobre coisa nenhuma. Sua principal característica sempre foi entreter, geralmente com matérias que impactam o telespectador pela emoção – que é o que dá audiência mesmo.

Já as grandes instituições assistencialistas para pessoas com deficiência costumam usar sua influência e o quase total desconhecimento dos jornalistas sobre o tema para pautar a imprensa naquilo que fazem de melhor: conseguir doações depois de arrancar lágrimas de piedade de leitores e telespectadores.

A união da fome com a vontade de comer só poderia ter dado (mais uma vez) no quadro exibido pelo programa na noite do último domingo, 23 de agosto, que apresentou o encontro de cegos com seus ídolos: os atores Ailton Graça, Alexandre Borges, Christiane Torloni e Nicette Bruno (Nicette, aliás, é uma espécie de “madrinha” da nefasta fundação paulistana para cegos que participou da matéria com seus funcionários).

Vale destacar aqui que nós mesmos estamos cansados de criticar em São Paulo esta fundação e também as secretarias municipal, estadual e nacional da pessoa com deficiência – que até hoje não disseram a que vieram -, mas suas frequentes pisadas na bola costumam ser uma excelente oportunidade para falar de inclusão como se deve e com bom alcance.

Então, vamos lá: durante esta matéria, alguém mencionou um recursozinho chamado audiodescrição? Alguém explicou que a audiodescrição é a narração de imagens para o cego em novelas, filmes, peças de teatro, livros, museus e até partos e casamentos? Que, com ela, quem não enxerga fica sabendo como são os rostos, cabelos, roupas, cenários e toda a ação da cena? E que os silêncios na telinha são finalmente compreendidos sem a ajuda de familiares e amigos? Enfim, alguém informou que, por lei, a audiodescrição já está disponível na televisão brasileira durante seis horas semanais e, com o controle remoto, pode ser acionada pelo segundo canal de áudio, como a tecla SAP?

Claro que não. O que interessava ali era apenas a comoção provocada pelos coitadinhos dos cegos que jamais puderam ver seus atores favoritos e tiveram, finalmente, uma chance de tocá-los, abraçá-los, conversar com eles. Nada contra: cego ou não, quem não gostaria de encontrar seu ídolo? A questão é que matérias como essa são um enorme desserviço aos cegos porque apenas reforçam o histórico estigma que carregam: o de pessoas dignas de pena. O que seria completamente diferente se o encontro fosse apenas um gancho para apresentar e divulgar ao público a audiodescrição, o recurso de acessibilidade que realmente garante inclusão e autonomia e que, infelizmente, ainda precisa crescer muito, mas muito mais neste país.

É preciso chegar mais perto deste segmento da população que não tem acesso a direitos básicos e essa é sua grande, árdua e praticamente desconhecida luta diária: faltam pisos táteis, semáforos sonoros, transporte acessível, livros em braile nas escolas (que chegam com atraso e incompletos), livros digitais acessíveis vendidos pelas editoras e scanners de voz nas bibliotecas públicas, para que possam ouvir e digitalizar as obras de que precisam – e, sim, não custa ressaltar que cegos utilizam largamente e há anos celulares, tablets e computadores como todo mundo (e muito mais do que o braile) graças aos programas que leem em voz alta todo o conteúdo da tela.

Passou da hora de a grande imprensa parar de recorrer a instituições assistencialistas quando precisa de informações e “personagens” para suas reportagens. Chega de cegos chorões, pidonchos, despolitizados e eternamente atrelados a essas fundações da vida, ultrapassados guetos, na contramão da história porque apenas segregam e estigmatizam pessoas. Quisessem mesmo utilizar dinheiro e influência para incluir quem tem deficiência, governos e filantrópicas já teriam conseguido enormes avanços na área…

Aproveitamos para parabenizar o doutor Drauzio Varella, que, também no Fantástico, apresenta a excelente série sobre Síndrome de Down, que realmente promove inclusão – e inclusão, sempre é bom lembrar, nada mais é do que garantia de direitos: direito à educação nas escolas convencionais, direito à saúde, ao trabalho, à cultura e ao lazer. Direito à cidadania. E caridade nada tem a ver com isso. A caridade institucional precisa da exclusão porque sobrevive e lucra com ela. Pena que a maior parte da imprensa brasileira ainda não saiba disso.

*O Cidade para Todos é um movimento social formado por pessoas cegas e com baixa visão de todo o país em prol da defesa de seus direitos.

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O cartunista da inclusão

O cartunista capixaba Ricardo Ferraz começou a desenhar aos cinco anos de idade, depois de contrair poliomielite. Sem ter o que fazer, passava a maior parte do tempo em cima de uma cama rabiscando em papel de embrulhar pão. “Muletante”, ainda garoto começou a trabalhar como engraxate.

Hoje, tem trabalhos divulgados pelo Brasil e em vários países, publicados em livros didáticos e revistas especializadas. Seu livro, “Bullying – Vamos Combater Esse Mal Pela Raiz?”, foi utilizado pela ONU por meio de suas agências espalhadas por todo o mundo.

Ricardo Ferraz também foi o vencedor de quatro dos sete concursos promovidos pela TV Globo para a produção de vinhetas animadas, exibidas nos anos 1980 durante os intervalos dos programas. A mais lembrada é a de dois cadeirantes, um ao pé e o outro no topo de uma escada: eles sacudiam a escada, que virava uma rampa. Então, se encontravam, se abraçavam sorrindo e as rodas das cadeiras se uniam, transformando-se no logotipo da emissora, acompanhado do clássico plim-plim.

Um dos dinossauros da luta pelos direitos das pessoas com deficiência no Brasil e militante de movimentos sociais desde 1981, Ricardo é afiado e preciso na crítica social e política com que retrata o cotidiano de cegos, surdos e cadeirantes. Em um dos cartuns da série “Lei Faz de Cotas”, um homem de terno e gravata diz, enquanto se afasta de um cadeirante que chama sua atenção para a escada que não poderá subir: “Cumpri a Lei de Cotas. Agora mostre sua ‘eficiência’ “.

Aos 62 anos de idade, firme no desenho e no apoio a movimentos sociais, Ricardo Ferraz é dos poucos que ainda preferem “incomodar a se acomodar” quando o assunto é deficiência.

TEMPLO É DINHEIRO

“Era adolescente, um menino bobo e ignorante da cidade de Lajedão, extremo sul da Bahia, quando cheguei a Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo. Fugia de casa ou da miséria de lá. Fui trabalhar como engraxate em um bar e morava em um porão na Casa dos Estudantes.

Uma tarde, estava engraxando quando ouvi por um alto-falante a voz de um pastor dessas igrejas caça-níqueis que só proliferam pelas esquinas, rádios e TVs do país e prometem a cura de cegos e cadeirantes. Fiquei animado com a possibilidade de abandonar as muletas e, incentivado por um grupo de jovens, fui até lá.

Enfrentei uma longa fila. Na minha vez, em frente à multidão, o pastor pressionava minha cabeça com uma mão enquanto gritava uma oração pelo alto-falante. A fé e a esperança tomaram conta de mim e, esperando o milagre, joguei longe as muletas quando ele mandou. Estava anestesiado com tudo aquilo até dar o primeiro passo e levar um baita de um tombo na frente de todo mundo, ouvindo do pastor: ‘Vejam, meus irmãos, eis um exemplo de um homem de pouca fé! Viram o que acontece com quem não tem fé? O próximo!’.

Comecei a chorar ali mesmo de dor, vergonha e decepção enquanto a maioria das pessoas ria e me ridicularizava. Estava perplexo e completamente humilhado. Alguém trouxe minhas muletas e me ajudou a levantar. Virei piada na cidade, fiquei uma semana sem sair do quarto e ainda me revoltei contra Deus, em vez de culpar o pastor! Foi um grande trauma em minha vida, levei anos para superá-lo.

Fico triste quando vejo que ainda hoje existem milhares de Ricardos, gente humilde e crédula, alvo preferencial dos profissionais da fé, que lucram horrores em nome de Deus.”

MATEI MINHA IRMÃ

“Quando era moleque, adorávamos provocar nossa irmã caçula. Demos a ela o apelido de ‘jega-toca’, que ela detestava. Um vizinho ouviu, gostou e espalhou pela rua. Em poucos dias, todo mundo a chamava assim. Pode parecer bobagem para quem brinca, mas aprendemos da pior maneira possível que para quem é alvo de apelidos a coisa é bem diferente. Por causa desse bullying, minha irmã fugiu de casa, pegando carona em um caminhão, e foi parar no Rio de Janeiro.

Sem condições de se sustentar, acabou virando moradora de rua. Um dia, agrediu fisicamente outro morador de rua ao reagir a um insulto e foi presa. Ficou em uma cela imunda. Para escapar daquilo, fingiu estar louca e conseguiu uma transferência para uma instituição psiquiátrica, achando que teria melhores condições de vida. Foi pior ainda: passou a receber choques e medicação pesada, o chamado ‘sossega leão’. Quando, depois de muitas tentativas, meu pai conseguiu sua transferência para Belo Horizonte, onde morávamos, minha irmã estava louca de verdade! Continuou sendo moradora de rua e morreu, vítima de uma série de doenças causadas por essa vida.

Sempre conto essa história nas palestras que faço em escolas. A culpa pela morte dela também é minha.”

ESMOLAS X DIREITOS

“Comecei a militar em movimentos sociais em 1981 e uma de nossas principais bandeiras sempre foi o fim do assistencialismo. A briga é antiga e todas essas instituições caritativas ainda estão aí, muitas delas sem um único gestor com deficiência.

O que as pessoas não percebem é que essas entidades filantrópicas que detêm o monopólio de tudo de que precisamos nunca lutaram e jamais lutarão por nossos direitos. Em uma sociedade inclusiva, elas vão viver de quê? Precisam da exclusão para sobreviver!

Pior é saber que grande parte das pessoas com deficiência adora uma caridade, o cara não quer nada que não seja de graça. Foi convencido de que é incapaz, mas muitas vezes sabe que não é e mesmo assim não levanta um dedo para conquistar sua cidadania.

Antigamente, fazíamos panfletagem de porta em porta. Lá ia eu de muletas, com aquele bolo de folhetos para distribuir. Era comum tocar a campainha em uma casa e sair lá de dentro uma mulher com uma esmola na mão, um horror. Não queremos nenhum tipo de esmola. Queremos direitos, dignidade e respeito.”

CADÊ VOCÊS?

“Não vejo hoje nos governos representatividade na defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Não há gente que lute verdadeiramente por nossa causa. Vários líderes dos movimentos cansaram e desistiram porque essa questão é uma pedreira mesmo; outros migraram para cargos públicos e defendem apenas seus salários, se acomodaram embaixo do ar-condicionado de suas salas.

Políticos, coordenadorias, conselhos, organizações e todas as instâncias de poder que deveriam defender nossos direitos, fazem o quê? Servem para quê?

É por isso que enquanto não houver uma base de luta com uma boa linha ideológica, nada, absolutamente nada vai mudar.”

HAJA PACIÊNCIA

“Fora das grandes cidades, prefeitos e vereadores não sabem coisa nenhuma sobre inclusão e acessibilidade. Há cerca de quatro anos, fui à Câmara de Vereadores aqui de Cachoeiro para reclamar da total falta de acessibilidade para idosos e pessoas com deficiência nos três andares do prédio. Na Casa de Leis que deveria atender a todos os cidadãos, o único elevador serve apenas aos vereadores!

Cheguei à tribuna e simplesmente ninguém dava a mínima ao que eu falava! Conversavam entre eles ou estavam distraídos. Não tive dúvidas: bati minha muleta ali com força, chamei a atenção de todos e consegui ser ouvido, consegui dar o meu recado. E só. O prédio continua inacessível até hoje.

É preciso estabelecer o comprometimento de prefeitos e vereadores dos municípios com políticas públicas de inclusão e acessibilidade. Uma carta de compromisso, um acordo atrelado à liberação de verbas, por exemplo. É só assim que vai funcionar.”

NA PAZ

“Conquistei muitas coisas, sou um cara realizado. Faço o que gosto, moro sozinho por opção, tenho uma filha e a primeira neta que moram bem perto daqui e, de vez em quando em um final de tarde, vou jogar uma conversa fora encostado no balcão de um boteco, com uma cerveja bem gelada e uma linguicinha frita (risos). Tá bom demais.”

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A Fundação Dorina Nowill para Cegos não nos representa!

Do Movimento Cidade para Todos*

“O Movimento Cidade para Todos, formado por pessoas cegas e com baixa visão em todo o país, vem a público manifestar seu total repúdio à campanha intitulada ‘Ilumine o futuro de milhares de pessoas com deficiência visual’.

Com um choroso e lamentável vídeo apresentado pela atriz Nicette Bruno, a Fundação Dorina Nowill para Cegos pede doações no valor de 1 real para ‘ajudar as milhares de pessoas cegas por todo o país que vivem uma vida triste e solitária’, mais uma vez estigmatizando as pessoas com deficiência visual como incapazes e dignas de pena, de maneira cruel e absolutamente inadmissível.

Em um país em que a Convenção Internacional da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência tem força constitucional; em um país cuja árdua e diária luta destas pessoas vem apresentando cada vez mais resultados, ainda que vagarosamente, entidades assistencialistas como a Fundação Dorina representam cada vez mais o retrocesso e o entrave à inclusão (e inclusão, para quem ainda não sabe, nada tem a ver com caridade, já que refere-se única e exclusivamente à garantia de direitos).

Infelizmente, a força desta Fundação vem da estereotipada e preconceituosa imagem social que se tem das pessoas cegas somada ao histórico poder dado a ela pelos governos que, assim, lavam as mãos de sua obrigação de implementar políticas públicas de inclusão, garantindo a elas igualdade no acesso à educação, ao trabalho, à saúde e ao lazer.

Isso significaria, neste caso e entre outras medidas, a regulamentação da lei que obriga as editoras a produzirem seus livros em formatos digitais acessíveis, a implementação de impressoras braile por todo o país e a disponibilização dos serviços de reabilitação e mobilidade para cegos em hospitais públicos, acabando de vez com os monopólios exercidos por esta e outras instituições que recebem gordas verbas governamentais e doações de empresas para atuarem como verdadeiros ‘gatos’, únicos intermediários entre as pessoas cegas e os produtos e serviços de que necessitam.

Vale ressaltar que Dorina Nowill foi uma extraordinária mulher de seu tempo, um tempo em que não existiam direitos nem tecnologia e a caridade era a única alternativa possível às pessoas com deficiência visual. Seu nome, infelizmente, continua sendo usado hipócrita e descaradamente na tentativa de promover objetivos e valores que já não existem há muito tempo.

Lembramos ainda que, coincidentemente, esta revoltante campanha pedindo doações de 1 real para os pobres e desvalidos ceguinhos brasileiros vem no momento em que esta Fundação alega atravessar mais uma de suas graves e inexplicáveis crises financeiras. Quem sabe o Ministério Público não possa explicá-la?

Já que jamais irão retirar-se e, com isso, dar aos cegos o mínimo da dignidade que merecem, ao menos retirem de circulação esta desrespeitosa e absolutamente vergonhosa campanha, senhores. Nem ela, nem nada do que fazem em nosso nome nesta Fundação nos representa.”

*O Cidade para Todos é um movimento social independente em prol da defesa dos direitos das pessoas com deficiência visual.

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